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América do Sul vira à direita: o que significa para o Brasil?

Nos últimos anos, o mapa político sul-americano passou por uma reconfiguração significativa na correlação de forças. Da maioria de esquerda que caracterizou a “onda progressista” das últimas décadas, o continente migrou para um equilíbrio em que a direita e a centro-direita hoje governam sete dos doze países independentes: Peru, Colômbia, Argentina, Chile, Bolívia, Equador e Paraguai. A esquerda, por sua vez, mantém presença em outros cinco: Brasil, Uruguai, Venezuela, Guiana e Suriname.

O movimento mais recente desse tabuleiro foi a eleição de Keiko Fujimori, em disputa acirrada no Peru. A candidata do partido Força Popular obteve 50,135% dos votos válidos, o equivalente a 9.223.396 votos, contra 49,865% e 9.173.755 votos do candidato de esquerda Roberto Sánchez, da coalizão Juntos pelo Peru, segundo o resultado final divulgado nessa segunda-feira pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) do País.

A onda conservadora na América Latina

Essa virada, no entanto, não foi um evento isolado, mas um processo gradual. Começou com a eleição de Javier Milei na Argentina, em 2023, que rompeu décadas de hegemonia peronista. Na sequência, veio o Equador, onde Daniel Noboa consolidou um discurso de segurança pública e combate ao narcotráfico como eixo central de governo. Depois, Chile e Bolívia, países historicamente associados a projetos de esquerda na última década, elegeram, respectivamente, José Antonio Kast e Rodrigo Paz.

Outro capítulo recente, e simbolicamente forte, foi o de Abelardo de la Espriella na Colômbia, sucedendo o esquerdista Gustavo Petro. Tanto essa eleição quanto a peruana foram decididas por margens mínimas, sinal de sociedades profundamente divididas, mas que, ainda assim, optaram pela alternância de poder.

O resultado é que o Brasil, sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, vive hoje um entorno regional majoritariamente de direita, um cenário distinto daquele do início dos anos 2000, quando o País se inseria na primeira onda da “maré rosa”, que incluía Colômbia, Chile e outros vizinhos.

Com as eleições presidenciais brasileiras se aproximando ainda este ano, essa mudança de contexto regional levanta perguntas relevantes sobre como ela pode influenciar o debate interno, seja como espelho, seja como um contraponto possivelmente se tornando cada vez mais solitário.

 Eleição de Javier Milei na Argentina, rompendo décadas de hegemonia peronista, foi o início da mudança na configuração política sul-americana | Foto: Luis Robayo / AFP / CP

“Esmagamento” da classe média e aumento da desigualdade impactam na virada

Uma análise do cientista político e professor da Universidade Feevale Everton Rodrigo Santos indica que uma das justificativas para o cenário que se apresenta, passa pelo “esmagamento” da classe média, em meio ao aumento da desigualdade social, de crises culturais, de identidade e valores, empurrando essa camada da sociedade para a polarização política.

Recrudescimento da extrema direita no âmbito mundial

Há um recrudescimento da extrema direita no âmbito mundial, segundo o docente. Assim como o mundo viveu três ondas democráticas desde o século XIX, também experimenta as chamadas ondas reversas, processos de autocratização que podem pender tanto para a esquerda quanto para a direita. Para ele, o momento atual é marcado por um recrudescimento da extrema direita em escala global.

“Isso ocorre em função da debilidade da democracia, causada por uma tremenda desigualdade social, com crises sociais, culturais, de valores, de uma classe que se sente perdida, especialmente em países sul-americanos, e particularmente no Brasil, onde ela se vê esmagada pelo fato de ricos e mais pobres avançarem sobre ela. Isso faz com que essa camada se desloque para os extremos”, afirma.

“Em meio a isso, há um aumento das pautas identitárias, do direito das mulheres, dos negros, da comunidade LGBT, que atingem frontalmente essa camada da sociedade, com perda de renda, prestígio e identidade”, acrescenta.

Nesse cenário, o professor observa também o avanço de movimentos de ideologia neofascista, com características próprias de um “integralismo” atualizado, e cita personagens da política brasileira recente que flertam abertamente com o governo de Donald Trump.

Segurança pública como vantagem da direita

Questionado se essas vitórias de direita na América Latina refletem um padrão regional comum, insegurança, narcotráfico, desgaste econômico, e se esse padrão é replicável no Brasil, Santos é direto:

“A direita toma a dianteira nisso porque tem uma retórica pronta sobre o tema, ainda que populista, de combate à violência. Já a esquerda historicamente é muito boa para explicar os fenômenos de violência e crime, mas tem dificuldade de implementar políticas de enfrentamento a essas questões. Diante disso, a direita acaba levando mais vantagem”, explica.

Para o cientista político, trata-se de um problema estrutural que se infiltra no tecido social de praticamente todos os países da região, em maior ou menor grau, e que alimenta discursos mais duros à medida que a população se sente desesperada diante do crime organizado.

“É aquele dilema que Zygmunt Bauman coloca entre liberdade e segurança: para ter mais liberdade, é preciso abrir mão de segurança; para ter mais segurança, abre-se mão de liberdade. Acho que o pêndulo está pendendo para esse lado, as pessoas querem mais segurança e, nessa ordem das coisas, abrem mão de liberdades”, avalia.

Para ele, o grande desafio dos governos comprometidos com a democracia e os direitos humanos, sejam de centro-esquerda ou de centro-direita, é entregar políticas públicas capazes de responder a essa demanda.

Segurança pode ser eixo central da eleição de 2026 no Brasil

Perguntado se a pauta da segurança pública e do combate ao crime organizado tem potencial para se tornar um eixo central da disputa presidencial brasileira em 2026, Santos confirma:

“Pode se tornar, sim, um eixo importante, tanto a questão da soberania quanto a da própria segurança, porque mexe com as pessoas, com a rotina, com o cotidiano. É algo palpável, que as pessoas enxergam no dia a dia”.

Ele cita pesquisas de opinião para sustentar o argumento: “Quando perguntamos às pessoas quais são os problemas que mais as afligem, segurança e saúde aparecem entre os mais citados. A economia, em algumas pesquisas, fica em terceiro lugar. Isso significa que a questão econômica não é tão determinante quanto imaginávamos há um tempo; ela é importante, claro, mas não é mais o fator decisivo”.

Isolamento diplomático e a influência de Trump na região

Sobre se o “cordão” de governos de direita ao redor do Brasil tende a isolar o presidente Lula diplomaticamente em fóruns regionais, Santos pondera que esse cenário pode, antes de tudo, render dividendos eleitorais à oposição: “Isso pode se converter em capital político nas eleições deste ano”.

Questionado também se esses governos de direita e centro-direita que se formam no entorno brasileiro podem funcionar como porta de entrada para a influência de Donald Trump na América do Sul, o professor responde que sim:

“Esses países de centro, de direita e de extrema direita são extremamente importantes e positivos para a política do Trump, até porque o secretário Marco Rubio, filho de cubanos, tem grande interesse na América Latina e tem pautado o olhar do Trump para a região. Nesse sentido, acho que isso vem somar à estratégia do Trump”.

Apesar disso, Santos não acredita que o Brasil corra risco real de isolamento. “O Lula é um cara de centro-esquerda, um grande negociador. Tenho certeza de que vai ser difícil isolar o Brasil, seja em termos de diálogo, quer com a direita, quer com o centro-direita, mesmo com governos mais extremistas”, pontua.

“E há também o peso do PIB do Brasil na América Latina: não é um País que possa ser ignorado, ao contrário, é muito importante. Dificilmente os demais países vão ignorá-lo, dado seu peso político e econômico na região”, analisa.

O professor pondera ainda que setores ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a outras lideranças de direita e centro-direita podem tentar capitalizar politicamente essa onda regional, usando-a como argumento de que se trata de uma corrente já majoritária na América Latina frente à esquerda.

 Segundo o cientista político Everton Rodrigo Santos, a crescente presença de governos de direita ao redor do país pode funcionar como porta de entrada para a influência de Donald Trump na América do Sul | Foto: Alex Wong / Getty Images via AFP / CP

Nacionalizar a “onda de direita” ou evitar o tema?

Por fim, ao ser questionado sobre como cada lado do espectro político brasileiro deve lidar com esse cenário regional na campanha, nacionalizando o tema como uma “onda de direita” ou evitando associar-se a ele, Santos identifica estratégias distintas para cada campo:

“Por um lado, há o discurso de afirmar que existe uma onda de direita na América Latina e se associar a ela, mostrando que o mundo está mudando, e o continente em particular, também. Acho que o discurso vai nessa direção. Por outro lado, o discurso governista vai tentar se contrapor a essa onda, mostrando o quanto ela representa um retrocesso em termos de humanidade, cidadania e democracia. Mas, os setores da direita e da extrema direita podem usar isso como mote de campanha,” conclui ele.

Fonte: CP

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