Em abril de 2026, o Brasil registrou o seu maior nível de endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). Segundo o levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,9% das famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida. O retrato se torna ainda mais preocupante quando observado junto aos dados do Mapa da Inadimplência da Serasa, que mostram mais de 82 milhões de brasileiros com o nome negativado, o que representa cerca de 50,5% da população adulta.
Pressionado por esse cenário, o governo federal relançou, em maio, o Novo Desenrola Brasil (MP 1.355/2026), programa de renegociação de dívidas voltado a consumidores inadimplentes. Em sua nova edição, a iniciativa já ultrapassou 1 milhão de adesões e R$ 10 bilhões negociados, segundo balanço do Ministério da Fazenda.
A renegociação, no entanto, não representa o fim do problema. De acordo com a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e o SPC Brasil, 85,95% dos consumidores que entraram na inadimplência em abril deste ano já haviam aparecido no cadastro de devedores nos 12 meses anteriores. Na prática, isso significa que, para grande parte dos brasileiros, limpar o nome não tem sido suficiente para romper o ciclo das dívidas.
Para entender esse movimento, o primeiro passo é diferenciar dois conceitos que costumam aparecer como sinônimos: dívida e inadimplência. Ter uma dívida significa assumir um compromisso financeiro, como uma compra parcelada, um empréstimo, um financiamento, o uso do cartão de crédito ou do cheque especial. Já a inadimplência ocorre quando esse compromisso deixa de ser pago dentro do prazo estipulado.
Segundo o economista e professor da PUCRS, Gustavo Moraes, estar endividado não é, por si só, um problema. A dívida pode fazer parte da organização financeira de uma família, desde que seja “consciente, planejada e compatível com a renda”. O alerta aparece quando os compromissos assumidos ultrapassam a capacidade de pagamento.
“O estar endividado significa que você contraiu algum tipo de parcelamento, compromisso de pagamento, mais vultoso do que a sua renda, o que é um conceito completamente diferente é estar inadimplente. Inadimplente é quando você já não tem capacidade de pagamento desses contratos”, explica.
Para a maioria dos brasileiros, quitar a dívida não é o fim do problema | Foto: Cecília Bastos / USP Imagens / CP
Para Moraes, o atual recorde de endividamento das famílias brasileiras é resultado de uma combinação de fatores econômicos e comportamentais. Um deles é o próprio momento do mercado de trabalho. Com o baixo desemprego, há uma sensação maior de segurança financeira, o que pode encorajar o consumidor a assumir novas parcelas. O problema, segundo ele, é que muitas das vagas disponíveis são localizadas em faixas salariais mais baixas, o que limita a capacidade real de pagamento das famílias.
A essa sensação de segurança se soma uma mudança nos hábitos de consumo. Nos últimos anos, os serviços digitais passaram a ocupar um espaço cada vez maior no orçamento doméstico. Transporte por aplicativo, delivery, compras online e assinaturas trouxeram mais praticidade para a rotina, ao mesmo tempo que criaram novas despesas recorrentes.
“Nos últimos dez anos, o brasileiro trocou o ônibus pelo Uber, popularizou a possibilidade de pedir comida por aplicativo e passou a comprar online com mais facilidade. Tudo isso é para o nosso conforto, sem dúvida nenhuma. Só que traz junto um ônus financeiro adicional”, afirma o economista.
O problema, segundo Moraes, é que esses gastos nem sempre são percebidos como parte fixa do orçamento. Por aparecerem em valores menores e em compras pequenas, eles podem passar despercebidos ao longo do mês, o que o economista nomeia como “gastos invisíveis”. No entanto, no fim, a soma de despesas consideradas “irrelevantes” pesa tanto quanto uma conta convencional.
Outro fator central é a relação do consumidor brasileiro com os juros. Para o professor, muitas decisões de compra são tomadas a partir da pergunta “cabe na parcela?”, sem que o custo total da dívida seja considerado.
“O cidadão brasileiro está preocupado se vai caber no orçamento. Uma parcela de R$ 20, 12 prestações de R$ 20, ele acha que aguenta. O problema é que embute juros. Essa facilidade, esse imediatismo, ao invés de juntar o recurso e comprar à vista, acaba comprometendo demais o orçamento”, exemplifica.
O que fazer para não voltar ao vermelho
Para o especialista, a renegociação precisa ser acompanhada de uma mudança efetiva de comportamento. O processo de “limpar o nome” pode reduzir juros, reorganizar parcelas e promover o acesso ao crédito, mas não impede, sozinho, que a família volte a se endividar.
O passo seguinte, na avaliação de Moraes, seria reorganizar o orçamento doméstico. Isso exige estabelecer prioridades, rever hábitos de consumo e buscar soluções criativas para que a rotina caiba na renda real da família. Além disso, é essencial entender quais situações funcionam como gatilhos para gastos não planejados. O consumo por impulso, muitas vezes, aparece em momentos de alívio, lazer ou tempo livre, explica o economista.
“É realmente se conscientizar e reorganizar o orçamento doméstico, não tem outra solução. Estabelecendo prioridades e soluções criativas. Será que não dá para ir a pé? Será que não dá para fazer comida em casa? Será que não dá para ter, quem sabe, uma receita extra?”, questiona.
Entre as principais medidas recomendadas por Gustavo Moraes estão:
➡️ Pagar dívidas antes de qualquer coisa
Sempre que houver uma sobra no orçamento, como 13º salário, restituição, renda extra ou qualquer recurso eventual, a prioridade deve ser reduzir dívidas, principalmente aquelas com juros mais altos. Segundo o economista, isso diminui o risco de que o valor devido continue crescendo com o tempo.
➡️ Guardar antes de gastar
Para Moraes, um erro comum é esperar o fim do mês para guardar “o que sobrar”. A recomendação é inverter essa lógica: separar uma parte da renda assim que o dinheiro entra e organizar o restante como orçamento mensal. “Assim que chega o salário, você já deve guardar pelo menos 10% e trabalhar os outros 90% como o seu orçamento”, orienta.
➡️ Começar, mesmo que pequeno
Mesmo em famílias com o orçamento mais apertado, a reserva financeira funciona como proteção contra novos atrasos. A ideia não é formar uma grande poupança de imediato, mas criar o hábito. Em uma renda equivalente a um salário mínimo, por exemplo, separar cerca de 10% já pode ajudar. “R$ 150 é muita coisa. É um trabalho de paciência, mas quanto mais cedo começar, menos esforço de depósito será necessário”.
➡️ Rever os hábitos familiares
Aplicativos de transporte, delivery, compras online, assinaturas digitais e pequenos gastos recorrentes podem parecer irrelevantes isoladamente. Por isso, o economista recomenda que a família coloque as despesas na mesa e identifique onde é possível fazer substituições.
➡️ Buscar soluções criativas para economizar
A reorganização do orçamento não precisa se limitar à ideia de corte. Ela pode envolver novas formas de resolver problemas do dia a dia: dividir tarefas, trocar serviços, planejar refeições, aproveitar melhor recursos já disponíveis e substituir hábitos caros por alternativas mais viáveis.
➡️ Cartão exige atenção redobrada
Depois de limpar o nome, o consumidor pode voltar a ter acesso a cartões, empréstimos e parcelamentos. Mas limite disponível não deve ser tratado como renda extra. Segundo a Serasa, o cartão de crédito lidera entre as fontes de endividamento bancário, citado por 73% dos brasileiros endividados com bancos, seguido por empréstimos (56%) e cheque especial (33%).
➡️ Considerar uma renda extra
Quando o orçamento não cabe mais na renda principal, Moraes avalia que é hora de buscar novas fontes de entrada. A alternativa pode vir de habilidades que a família já possui, como cozinhar, fotografar, costurar, fazer artesanato, dar aulas, prestar pequenos serviços ou vender produtos.
➡️ Ser transparente com a família e com os credores
Para o economista, esconder a situação financeira dificulta a reorganização. Conversar com familiares ajuda a alinhar prioridades dentro de casa. Já o diálogo com credores pode evitar que uma parcela renegociada volte a atrasar e se transforme em uma nova negativação.
Essa transparência também passa por reconhecer quais hábitos e situações têm levado ao gasto não planejado. No caso das apostas online, Moraes avalia que as bets não explicam sozinhas o avanço do endividamento, mas fazem parte de um conjunto de novos consumos digitais que passaram a pesar no orçamento familiar.
As limitações dos programas de renegociação
A preocupação com as apostas online aparece também no desenho do Novo Desenrola Brasil. Entre as regras do programa, está o bloqueio, por 12 meses, do CPF de beneficiários em plataformas de apostas online autorizadas no país. A medida busca evitar que, durante o período de renegociação, parte da renda volte a ser comprometida com esse tipo de gasto.
Ainda assim, apesar de reconhecer a importância do programa, Moraes ressalta que o Desenrola tem efeito limitado quando não acompanhado de uma mudança sistêmica na organização financeira que passa por um processo de reeducação.
“O Desenrola tem mérito por disponibilizar um recurso que já é do trabalhador [o FGTS] para evitar o pagamento de juros adicionais. É completamente absurdo você ter um fundo garantidor, estar endividado e não poder acessá-lo. Mas ele é meramente um instrumento paliativo”, afirma.
Na avaliação do economista, o programa faz “justiça” ao permitir que o cidadão use recursos que já fazem parte de seu patrimônio, como o FGTS, para amortizar dívidas. A crítica está no fato de que a medida atua sobre a consequência do problema, e não em sua origem.
Fonte: CP
