Entre um passe e outro, o coração acelera. Será que vai dar gol? A emoção parece transbordar, e o peito chega à beira da explosão. Tem tudo para dar certo, até que… por apenas alguns poucos centímetros, o sonho do torcedor vai por água abaixo. Como lidar com a emoção de um Mundial?
A Seleção Brasileira estreia, neste sábado, na Copa do Mundo de 2026. O resultado da partida contra o Marrocos ainda é uma incógnita, mas, se há uma certeza, é que disputa em Nova Jersey deve elevar os ânimos da torcida brasileira. O que poucas pessoas sabem, contudo, é que o amor (sem moderação) pela camisa também pode trazer consequências à saúde.
Eventos isquêmicos, infarto agudo do miocárdio, infarto do coração, taquicardias e, até mesmo, agravamento de insuficiência cardíaca – para aqueles que já possuem o quadro – estão entre os riscos para quem passa do ponto na hora de torcer, aponta o cardiologista Luís Beck.
Segundo o chefe do Departamento de Cardiologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, os principais alvos de problemas de saúde associados à torcida costumam ser homens acima de 50 anos que possuam forte vínculo afetivo com o time em campo e que tenham alguma condição prévia atrelada à pressão.
“Existem estudos observacionais que já foram conduzidos em diferentes países do mundo, na Alemanha, na Inglaterra e no Brasil, que mostram que nos dias de jogos muito importantes e nos três dias subsequentes, a taxa de infarto aumenta”, afirma o cardiologista. O quadro pode se tornar ainda mais delicado quando a equipe do coração perde a disputa.
“Há uma síndrome que se chama Síndrome do Coração Partido ou Broken Heart Syndrome, em inglês, que está associada muitas vezes a grandes tragédias na vida. Foi descrita pela primeira vez por uma mãe que assistiu ao filho ser atropelado e morrer. Mas, por incrível que pareça, essa síndrome pode acontecer em situações de derrotas de times”, destaca Beck.
A síndrome consiste em um quadro de início súbito de insuficiência cardíaca, causado por um evento agudo significativo do ponto de vista emocional. “O quadro clínico parece infarto, mas não é. É simplesmente uma grande descarga de adrenalina que leva a uma espécie de sobrecarga no coração gerando uma disfunção”, explica.
As alterações na pressão arterial costumam provocar efeitos mais chamativos em quem já tem pressão alta. “Isso pode equivaler, do ponto de vista físico, a um grande esforço dessas pessoas. É como se essa pessoa estivesse realizando um esforço súbito e intenso. Mesmo que ela não esteja fisicamente fazendo um esforço, o coração está”, pondera o cardiologista.
A anatomia de uma paixão
“Hoje, a gente percebe o futebol tomando um lugar central não só na cultura brasileira, mas na cultura mundial. É um esporte que transcende outros esportes pelo próprio fenômeno social que ele provoca”, explica a psicóloga e educadora física, Fernanda Torres Faggiani, que coordena a especialização em Psicologia do Esporte na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Para a professora, a paixão pelo futebol influencia, até mesmo, na construção de identidade dos torcedores.
Em tempos de Mundial, tudo fica ainda mais intenso. “Quando falamos de Copa do Mundo, falamos de um mega evento que envolve diferentes nações. Os torcedores também conseguem acompanhar os seus maiores ídolos, pessoas que se destacam nos diferentes cenários do futebol”, destaca Fernanda.
O sentimento de pertencimento provocado pelo futebol encontra eco na neurociência. “Por mais que nós hoje estejamos em grandes cidades, vivendo uma vida um pouco mais individual, o comportamento tribal não desapareceu da nossa sociedade. E esse tipo de comportamento, atua em um sistema do cérebro chamado de sistema límbico”, afirma o neurologista André Luiz Rodrigues Palmeira, que atua na Santa Casa da Misericórdia de Porto Alegre.
O sistema límbico compreende o conjunto de estruturas profundas responsáveis por processar as emoções. Ele se relaciona ao sistema de recompensa e libera diversas substâncias do cérebro, como a dopamina e a oxitocina. “É como se fossem as mesmas substâncias que se liberam no nosso cérebro quando nós estamos apaixonados”, explica o médico. Uma paixão, contudo, que pode virar estresse.
“O nosso cérebro não distingue o estresse, por exemplo, que é causado por um animal prestes a nos atacar ou por um time adversário que pode ganhar do nosso time. Ambos vão gerar uma resposta de luta ou fuga”, afirma Palmeira.
Essa reação está atrelada ao sistema nervoso simpático, que funciona a base de noradrenalina, uma substância que, quando liberada, não fica apenas no cérebro. “Ela atinge diversos órgãos do nosso corpo, como o coração, o intestino, a pele, os vasos sanguíneos e, obviamente, as as glândulas adrenais.”
“A liberação de noradrenalina nas glândulas adrenais leva a um aumento da liberação de cortisol, que é o famoso hormônio de estresse. E, quando a gente tem essa liberação massiva de cortisol, a sensação de alerta, se torna mais aparente. Ela vem à flor da pele”, completa o neurologista.
Como controlar os ânimos durante a partida?
Irritação, sensação de perigo, coração acelerado, suor e tensão são alguns dos sintomas quando o hormônio do estresse chega em grande quantidade. Alguns hábitos, contudo, podem evitar que esses sentimentos se agravem.
Quando o assunto são os efeitos coração, há cuidados essenciais para reduzir a chance de complicações. Para quem já trata a pressão alta, a principal recomendação é manter a medicação, especialmente, os chamados betabloqueadores. Essa classe medicamentosa responsável por regular a atuação de adrenalina no organismo.
E, por mais que pareça uma “quebra de protocolo” em dia de jogo, não abuse de comidas pesadas ou gordurosas e evite o consumo de bebidas alcoólicas. A máxima vale para quem costuma se estressar demais durante as partidas.
Uma estratégia para aqueles que pretendem assistir aos jogos entre amigos e familiares está justamente na rede de apoio. “A gente sabe que a ideia inicial é ser um entretenimento, um momento divertido, em que as pessoas se sentem até mais à vontade para demonstrar as emoções”, afirma a psicóloga Fernanda Faggiani.
“Mas é importante ter também essa conexão social de um ajudar o outro quando percebe que estão demais as críticas, a alteração em termos comportamentais”, completa. Caso esteja estressado, não deixe de pedir ajuda – e nem de impor limites quando o parceiro de arquibancada estiver com os ânimos à flor da pele. Vale sempre lembrar que, no final das contas, é só um jogo.
Se a emoção passar do ponto…
Mesmo quando tudo parece sob controle, a emoção pode ir além do esperado. Nesses casos, é importante se atentar aos sintomas. Se o sentimento for de ansiedade, a recomendação inicial é respirar profundamente. A psicóloga e educadora física Fernanda explica que uma alternativa para se centrar no momento presente é investir em uma respiração de três tempos.
“Existem formas diferentes. Uma respiração que sempre ensino consiste em inspirar pelo nariz, contando até três. Segura essa respiração por dois segundos. E solta o ar pela boca, de forma bem mais forte, contando até seis. É sempre importante que a expiração seja mais prolongada do que a inspiração”, explica a professora da PUCRS.
Há casos, contudo, que demandam mais atenção. Dores no peito, por exemplo, são o principal sinal de alerta para possíveis infartos. “Uma dor que parece uma dor em aperto, uma espécie de angústia no peito, muitas vezes associadas também à palpitação, à sensação do coração bater. Eventualmente também com tontura e falta de ar. Esses sintomas são então bastante de alerta, para que seja procurado uma assistência médica”, explica o cardiologista Luís Beck.
No caso de infarto, o tempo até o atendimento é determinante para o tratamento. “Quanto antes esse paciente é atendido, maior a chance de que as sequelas sejam menores. E muitas vezes parte do tempo que o paciente perde se deve ao atraso do próprio paciente, de não procurar assistência”, completa Beck.
Em resumo
- Para quem costuma ficar com os ânimos à flor da pele durante as partidas, vale evitar bebidas alcoólicas nos dias de jogo. Contar com uma rede de apoio, que possa “dar um toque” quando a emoção passa do ponto, também é uma boa estratégia;
- Em caso de irritação, sensação de perigo, coração acelerado, suor e tensão, opte por uma respiração em três tempos: inspire pelo nariz por três segundos, segure o ar por dois segundos, e, em seguida, solte-o pela boca, contando até seis;
- Se você já sofre de problemas cardíacos, manter a medicação em dia e não abusar de comidas pesadas ou gordurosas é essencial para evitar complicações na hora de torcer. Moderar o consumo de álcool também é importante;
- Em caso de dores no peito, acompanhadas de palpitações, tontura ou falta de ar, procure assistência médica. Esses sintomas podem ser sinais de alerta para infartos.
*Com supervisão de Márcio Gomes. – CP
