Quatro ações judiciais ligadas a antigos negócios com o empresário, incluindo a contratação de D’Alessandro em 2008, agravam a crise financeira do clube e devem comprometer o balanço de 2025
A já delicada situação financeira do Inter tende a se agravar ainda mais. Quatro ações judiciais que tramitam na Justiça cobram, ao todo, R$ 60,5 milhões do clube. Em comum, todas têm origem em negócios firmados com o empresário Delcir Sonda, parceiro histórico do Inter, inclusive desde a contratação de Andrés D’Alessandro, em 2008. Os processos reforçam a tese de que o clube, ao longo das últimas gestões, optou por “empurrar com a barriga” problemas financeiros que agora retornam em valores muito mais elevados.
Um detalhe relevante é que os montantes cobrados atualmente são muito superiores aos valores originais das dívidas. O crescimento se deu em razão do não pagamento nos prazos estabelecidos, com a consequente incidência de juros, multas, honorários advocatícios e, provavelmente, custas processuais. A única notícia menos negativa é que, diferentemente da dívida de cerca de R$ 30 milhões com a Showball Assessoria Esportiva — revelada pelo Correio do Povo nesta semana e que já está em fase de execução —, essas quatro ações são recentes e ainda devem tramitar por anos. O efeito colateral, contudo, é evidente: quanto mais tempo durar o processo, maior tende a ser o valor final a ser pago.
Duas das quatro ações têm origem direta na compra dos direitos econômicos de D’Alessandro, em 2008. Na ocasião, uma empresa ligada a Delcir Sonda bancou a contratação do argentino e ficou com os direitos econômicos, devendo ser ressarcida quando o jogador fosse revendido pelo Inter — o que nunca aconteceu. Em 21 de dezembro de 2020, o então presidente Marcelo Medeiros assinou uma confissão de dívida no valor de R$ 18,9 milhões, equivalentes a 3 milhões de euros à época.
Metade desse valor foi posteriormente repassada à empresa Icipar Empreendimentos e Participações S.A., que passou a cobrar R$ 8,2 milhões do Inter, inicialmente por meio de tratativas com o diretor executivo de finanças, Aldoir Pinzkoski, em 2023. “Qual é o prazo máximo possível? Posso tentar 31/10. Infelizmente, antes disso, não existe a menor possibilidade. Dependemos de muitos fatores externos, que somente devem ocorrer no final de outubro. Assinar (o acordo de pagamento) e não cumprir já na primeira parcela não é o ideal”, disse Pinzkoski ao interlocutor da Icipar, que respondeu: “Não, infelizmente, o entendimento é que estamos sendo ‘enrolados’. Então, se pagar dentro de setembro, podemos agendar e discutir as cláusulas contratuais. Mas fora disso, não vale a pena o esforço”. O executivo de finanças colorado, então, respodeu: “Não estão sendo enrolados. Queremos assinar para poder cumprir. Estamos avançando na Libertadores e isso trará receita nova para o clube. Só podemos comprometer com receitas extraordinárias, pois as ordinárias não são suficientes”.
No final, houve o acordo. Em 2023, o clube se comprometeu a quitar o débito em 50 parcelas mensais de pouco mais de R$ 200 mil. No entanto, pagou apenas cinco parcelas, entre outubro daquele ano e junho de 2025. Diante do descumprimento, a empresa ajuizou ação cobrando não mais os R$ 8,2 milhões originais, mas R$ 16,4 milhões, já com a incidência de juros e multas.
A outra metade da dívida relacionada à contratação de D’Alessandro permanece com outra empresa de Sonda, a Displan. Após o envio de uma notificação extrajudicial ao clube, em janeiro de 2025, a empresa também recorreu à Justiça para cobrar sua parte, hoje calculada em R$ 13,7 milhões.
Os outros dois processos, ambos movidos pela Displan, têm origem em empréstimos de dinheiro feitos ao Inter em 2018, primeiro ano do clube após o retorno à Série A. Foram dois repasses: um de R$ 10 milhões e outro de R$ 2,6 milhões, valores que agora também são objeto de cobrança judicial, com acréscimos decorrentes do atraso no pagamento.
O caso chama ainda mais atenção pelo histórico da relação entre Delcir Sonda e o Inter. Parceiro recorrente do clube há mais de duas décadas, o empresário ajudou o clube na contratação de diversos jogadores e chegou, inclusive, a perdoar parte das dívidas. Em dezembro de 2018, Sonda perdoou R$ 25 milhões, o que permitiu que o clube apresentasse naquele exercício um déficit de R$ 9,5 milhões — resultado significativamente melhor do que seria caso a dívida tivesse sido mantida no balanço.
Agora, porém, as pendências judiciais com o empresário tendem a ter impacto direto nas contas do Inter. As ações vão complicar o balanço de 2025, uma vez que a previsão de superávit dificilmente se confirmará. Afinal, a partir do ajuizamento das ações, os valores deixam de ser apenas contingências ou projeções e passam a ser considerados dívidas de fato, lançadas na coluna de débitos. Um retrato claro de como decisões adiadas no passado podem cobrar um preço alto no presente.
A reportagem tentou falar com Delcir Sonda, mas não obteve êxito. A informação é que ele estava hospitalizado. O Inter afirmou que as demandas em questão são antigas e que o jurídico colorado está em contato com a equipe do empresário para negociar os valores. Também afirmou que o empresário sempre foi parceiro das iniciativas do clube.
Fonte: CP
