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Dia da Indústria: desafios e crises moldam transformação e resiliência do setor industrial gaúcho

Rodrigo Thiel

Criado ainda na década de 1950 no país, o Dia da Indústria, celebrado neste dia 25 de maio, destaca a relevância do setor para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. No Rio Grande do Sul, dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) apontam que o setor industrial gaúcho responde por 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado. Ao todo, são mais de 52 mil empresas que atuam no segmento, com cerca de 873 mil trabalhadores formais no RS.

Mesmo com essa relevância para a economia gaúcha, o setor precisou se reinventar ao longo dos anos, principalmente na última década. Pandemia, estiagens, enchentes, tarifas e conflitos internacionais, além de inovações tecnológicas, fizeram com que as empresas precisassem buscar adaptações e decisões rápidas para preservar produção, empregos e contratos no mercado. Em meio a todo esse cenário, o presidente da Fiergs, Cláudio Bier, entende que o setor demonstrou elevada capacidade de se tornar resiliente.

Durante as dificuldades, as empresas enfrentaram desafios no consumo, na cadeia de suprimentos, custos, logística, infraestrutura, energia e comércio. Bier aponta que a superação ocorreu na reorganização de fornecedores, na revisão de processos produtivos e logísticos, na busca por novos mercados, no avanço da digitalização e na cooperação entre empresas, entidades, trabalhadores e poder público.

“A experiência recente mostrou que a indústria gaúcha sabe reagir às adversidades, mas também reforçou que essa capacidade precisa ser acompanhada por uma agenda permanente de competitividade, com redução do Custo Brasil, infraestrutura mais resiliente, crédito acessível, segurança jurídica, qualificação de mão de obra e condições adequadas para investir e inovar”, ressaltou Bier.

Desafios distintos levaram à transformação

Bier recorda que, durante as enchentes de 2024, mais de 60% das indústrias afetadas paralisaram atividades e mais de 80% da atividade econômica do RS foi atingida, com danos diretos às empresas, colapso logístico, queda de pontes, destruição de rodovias e impactos humanos imensuráveis. Nos últimos meses, em função do tarifaço dos EUA, a indústria gaúcha deixou de exportar US$ 431 milhões em mercadorias para o mercado norte-americano, uma queda de 30,7%.

Já os conflitos registrados no Oriente Médio nos últimos meses devem refletir, segundo a Fiergs, em incertezas e pressão nos custos relacionados ao diesel, fretes, fertilizantes, insumos e rotas marítimas. Para superar os desafios distintos que se colocam no caminho das indústrias, o setor buscou em janelas de oportunidades uma forma de avançar, reduzir dependências e impulsionar a produção.

“Muitas empresas aceleraram investimentos em digitalização, automação, gestão de dados, eficiência energética e modernização. Temas como sustentabilidade, adaptação climática e qualificação da mão de obra também ganharam peso estratégico. O RS possui potencial em energias renováveis, o que pode ampliar a competitividade e atrair novos investimentos. O tarifaço também acelerou a entrada em vigor do Acordo Mercosul – União Europeia. Para o Estado, nos próximos 15 anos, espera-se que ele gere 31 mil novos postos de trabalho e incremente as exportações gaúchas em 801 milhões de dólares”, explicou.

Bier salienta ainda que um dos aprendizados do setor industrial gaúcho após crises foi de que competitividade e resiliência caminham juntas. Para ele, a indústria do futuro será mais tecnológica, sustentável, inovadora e preparada para responder a instabilidades globais. Mesmo assim, o cenário atual ainda exige cautela, mesmo com o RS possuindo a quinta maior indústria do Brasil.

“Há sinais positivos, como o crescimento de 2,2% da produção industrial gaúcha no acumulado do ano até março e o avanço de 15,6% das exportações da Indústria de Transformação em abril de 2026. Mas o setor ainda convive com juros elevados, crédito caro, endividamento, aumento de custos, escassez de mão de obra, incertezas internacionais e desafios ligados à infraestrutura e ao ambiente de negócios”, disse Bier.

Por isso, para o presidente da Fiergs, celebrar a indústria também significa reforçar a necessidade de uma agenda permanente de competitividade. “O fortalecimento da infraestrutura, da inovação, da qualificação profissional, da segurança jurídica, do acesso ao crédito e da redução do Custo Brasil será decisivo para que a indústria gaúcha siga investindo, exportando, gerando empregos de qualidade e contribuindo para o crescimento sustentável do Rio Grande do Sul”, completou. CMPC tem ampliado protagonismo do RS no setor de papel e celulose | Foto: Fabiano Panizzi / CMPC / CP

Empresas destacam adaptação e investimentos no RS

Mesmo com os desafios impostos, as empresas que atuam no setor industrial gaúcho reforçam a capacidade de adaptação e investimentos que têm transformado o cenário local. Para Antonio Lacerda, diretor-geral de Celulose da CMPC no Brasil, ao longo dos anos, o segmento de celulose e papel tem se tornado cada vez mais protagonista no Rio Grande do Sul. Isso fez com que a empresa anunciasse o projeto Natureza, com investimento previsto de R$ 27 bilhões em uma nova unidade em Barra do Ribeiro.

“O cenário, mesmo após os acontecimentos dos últimos anos, apresenta um horizonte repleto de possibilidades, especialmente tendo em vista a contribuição positiva da CMPC no estado. Estamos constantemente nos adaptando, investindo em tecnologias e profissionais capacitados, e atualizando processos em busca de uma melhoria contínua. E isso se reflete no resultado gerado e na excelência que entregamos diariamente em nossas operações”, disse Lacerda.

O investimento em Barra do Ribeiro prevê, além da nova unidade, a criação de um parque ecológico florestal na Fazenda Barba Negra, a realização de uma série de obras rodoviárias, modernização portuária regional e incremento de atividades hidroviárias. Atualmente, a planta da empresa, em Guaíba, possui área total superior a 530 mil hectares, com ações de conservação de áreas de mais de 220 mil hectares.

Para o diretor industrial da Braskem no RS, Nelzo da Silva, a resiliência é algo que faz parte da rotina da indústria química e do plástico, por conta da visão de longo prazo e da necessidade de se adaptar aos movimentos de um mercado dinâmico, complexo e desafiador. Por isso, ele reforça que investimentos permanentes em frentes de inovação, tecnologia, logística, qualificação de pessoas, eficiência e competitividade se tornam essenciais para quem atua no setor.

O diretor apontou ainda que um dos principais desafios enfrentados pelo setor está na defesa da indústria gaúcha e nacional. Silva reforça que a empresa tem atuado em conjunto com outras entidades representativas nesta agenda, buscando medidas para garantir isonomia competitiva, alternativas de defesa e incentivos para sustentabilidade. Ao mesmo tempo, a busca contínua por adaptação e melhoria tem levado o mercado e a companhia a explorarem janelas de oportunidades, principalmente relacionadas com a sustentabilidade.

Um dos pontos estratégicos identificados pela Braskem nesse sentido foi a identificação de alternativas para trazer gás etano e propano para substituir ou reduzir a nafta no processo do polo petroquímico gaúcho. Além disso, outra grande oportunidade apontada pelo gestor é a ampliação do negócio a partir do etanol da cana de açúcar, que dá origem aos biopolímeros “I’m green bio-based” que fazem da Braskem líder mundial no segmento.

“A questão energética é igualmente um caminho a ser mais desenvolvido. Recentemente, por exemplo, demos início ao uso de biometano como substituto parcial do gás natural na planta Q2, em Triunfo, avançado em nossa jornada de transição energética dentro de um movimento que contribui para a redução das emissões de dióxido de carbono e nos torna mais sustentáveis e competitivos”, explicou.

A empresa, que atua no Polo Petroquímico de Triunfo, é responsável pela geração de 4,5 mil postos de trabalho diretos e indiretos na região, com capacidade instalada de produção de 5 milhões de toneladas de produtos químicos e resinas termoplásticas por ano. Além disso, a Braskem figura entre as cinco maiores fontes de arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do Estado.

“A indústria atua de forma estratégica, sinérgica e complementar aos demais setores produtivos, por isso a importância de ser celebrada todos os dias. É na indústria que nascem algumas das mais inovadoras tecnologias, se estabelecem os mais rigorosos processos de segurança e eficiência, com entregas constantes e consistentes para levar soluções que impactam positivamente a vida de todos”, completou Nelzo da Silva, sobre a relevância da empresa e do setor para a economia gaúcha.

Outro segmento pujante na economia gaúcha, a indústria do tabaco, mesmo que descentralizada em diversas regiões, coloca o RS em posição de liderança na produção nacional, com 206 municípios que atuam com a produção agrícola ou com fábricas para processamento e transformação do insumo. O presidente do Sindicato da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), Valmor Thesing, destaca que, ao longo das últimas décadas, o setor consolidou o Rio Grande do Sul como sede do maior complexo industrial de processamento de tabaco do mundo, com indústrias integradas às exigências globais de qualidade.

Ainda assim, ele cita que oscilações cambiais, pressões regulatórias nacionais e internacionais, questões climáticas e instabilidades logísticas globais têm feito o setor operar em um cenário “extremamente desafiador”. Na pandemia, ele recorda da necessidade da reorganização de processos. Nas enchentes, o setor atuou para apoiar trabalhadores e produtores afetados. Já nos conflitos globais atuais, os impactos são sentidos nos custos logísticos, seguros internacionais e na previsibilidade de mercados.

“Ainda assim, o setor brasileiro segue trabalhando pela qualidade do produto, confiabilidade no fornecimento e eficiência industrial, objetivando manter a posição de maior exportador de tabaco. O setor ampliou investimentos em rastreabilidade e sustentabilidade, fatores cada vez mais valorizados pelo mercado internacional, em especial o europeu, destino de mais de 40% das exportações no ano passado”, salientou Thesing.

Em 2025, o tabaco representou 14,17% do total da exportação do RS, atuando como fonte importante para a balança comercial gaúcha, segundo o sindicato. “Esse cenário reforça que a indústria gaúcha do futuro precisará ser cada vez mais preparada para enfrentar instabilidades econômicas, climáticas e geopolíticas. As crises recentes mostraram a importância de investir em inovação, tecnologia, logística eficiente, sustentabilidade e capacidade de adaptação”, completou o presidente.

Por conta dessa capacidade de resiliência, Thesing expõe a necessidade reconhecer a força produtiva do RS e a capacidade do setor industrial de seguir gerando desenvolvimento mesmo diante de sucessivas adversidades. “A indústria gaúcha passou recentemente por alguns dos momentos mais difíceis de sua história. Ainda assim, mostrou capacidade de adaptação, inovação e reconstrução. Celebrar é reconhecer o papel estratégico da atividade industrial para o desenvolvimento regional, geração de renda, arrecadação e manutenção das comunidades no interior do Estado”, concluiu.

 Na Braskem, soluções em IA fazem parte da rotina de operações da planta industrial | Foto: Mauro Schaefer

Uso da IA como ferramenta de transformação e produtividade

Em meio aos desafios que movem a transformação da indústria gaúcha, a busca por produtividade nas plantas fabris torna imprescindível o uso de ferramentas com foco na inovação. Claudio Gastal, diretor do Serviço Social da Indústria (Sesi-RS), do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-RS) e do Instituto Euvaldo Lodi (IEL-RS), todos ligados à Fiergs, aponta que existem segmentos onde o nível de incorporação de soluções em inteligência artificial (IA), automação e robotização já está mais avançado, como a indústria automotiva.

Por outro lado, outros segmentos, conhecidamente mais tradicionais, ainda estão em processo inicial de aplicação de ferramentas do tipo. Dentro das plantas, Gastal destaca que a IA é utilizada de forma incorporada ao chão de fábrica, permitindo a coleta de dados para monitoramento da linha de produção e auxiliando na tomada de decisão. “No entanto, a IA é uma realidade no mundo inteiro, não somente para sistema de controle a aumento de produtividade, mas também em sistemas embarcados em robôs, como vimos na Feira de Hannover”, apontou.

O diretor destacou a função do próprio Sesi e do Senai como base pedagógica para qualificar profissionais a partir de cursos de formação, principalmente no preparo para identificar demandas e buscar soluções para processos industriais. “Impactos ocorrerão, com a diminuição da mão de obra tradicional do chão de fábrica, e um aumento por profissionais com habilidades e competências. Por isso, há necessidade de reeducação e requalificação dos trabalhadores para essa nova realidade”, completou.

O diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da STIHL Brasil, Cassius Steigleder, conta que, após investimentos constantes na área, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento estruturado na fábrica em São Leopoldo tem exportado tecnologia criada no RS para as demais unidades da marca, inclusive para a matriz alemã. Ferramentas de IA são utilizadas desde a gestão como na rotina fabril, buscando maior eficiência.

“Um dos principais exemplos é um projeto de detecção de falhas em motores por meio da análise de ruídos. A iniciativa utiliza microfones instalados em bancadas de teste e modelos de IA treinados com sons em diferentes condições para identificar anomalias em tempo real. O aumento da produtividade é um dos principais objetivos do advento e da implementação destas tecnologias”, afirmou.

Steigleder destaca que, para chegar ao cenário atual, foram décadas de investimentos robustos para compor uma plataforma produtiva baseada na Indústria 4.0. Tanto para integrar quanto para capacitar profissionais, a empresa tem promovido seminários para identificar ideias e problemas a serem resolvidos na rotina de diversas áreas.

“Além disso, a parceria com startups é um dos caminhos adotados para acelerar o desenvolvimento e a implementação dessas soluções. Como o campo da IA evolui diariamente, mantemos um grupo dedicado à troca de experiências e à discussão de aplicações práticas”, reforçou.

No polo petroquímico de Triunfo, a Braskem também utiliza soluções em IA de forma integrada entre níveis de gestão e operação. Líder em Automação Estratégica na empresa no RS, Gustavo Alberto Neumann aponta que as aplicações estão cada vez mais presentes na rotina da planta fabril, apoiando operadores e engenheiros com recomendações em tempo real para ajuste de processos, monitoramento de ativos, previsão de falhas e automação de inspeções.

“A IA atua como suporte à decisão, enquanto operadores e engenheiros seguem desempenhando um papel essencial na condução da operação. Já é possível observar resultados concretos associados ao uso. Entre os principais impactos estão o aumento de produtividade, a melhoria da estabilidade operacional e a redução de paradas não planejadas, fatores especialmente críticos em operações contínuas como as da petroquímica”, explicou Neumann.

Para ele, a implementação deste tipo de solução é um caminho sem volta, principalmente em um mercado global cada vez mais competitivo. “A IA deixou de ser apenas um diferencial e passou a ser um elemento essencial para a competitividade. Empresas líderes do setor já tratam essa agenda como parte central de sua estratégia, com iniciativas em expansão contínua. Ao mesmo tempo, esse avanço não elimina o papel humano. As decisões continuam sendo apoiadas pela experiência e pelo julgamento dos profissionais, agora potencializados por sistemas mais inteligentes”, finalizou.

Fonte: CP

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