Poucos temas geraram tantos alertas recentes quanto o uso de telas por crianças. Os impactos cerebrais e comportamentais já são bem documentados. O assunto causa incômodo, tensão e ansiedade nos pais, já que é uma realidade que atravessa a maioria dos lares. No entanto, o que pouco se ouve falar é de nossa responsabilidade nesse desequilíbrio.
Mesa de jantar, quatro pessoas, início dos anos 70. Para as casas que tinham aparelho de TV, a média era uma, de uso coletivo, em um ponto fixo — raramente no ambiente onde se faziam as refeições. Reunir-se em torno da TV para assistir a um programa era quase um ritual familiar — noticiários, novelas, futebol ou programas de auditório (e um Viva para Chacrinha e Silvio Santos).
Aos poucos, os dispositivos “fixos” passam a se mover pelos cômodos da casa, ao aumentarem de número e instalarem-se também no quarto, na cozinha… Em poucas décadas, o ritual coletivo passou a ser majoritariamente individual. Agora, os dispositivos, que já se movem, saem da parede, diminuem de tamanho, multiplicam vertiginosamente as funções e se fixam novamente, dessa vez na palma da nossa mão.
O celular. Alguns o definem como a extensão do próprio corpo. Ele passa a ser a regra, o normal, a central de controle. Dormimos com ele na cabeceira, e até ir de um cômodo da casa a outro exige a presença do dispositivo. Os mais ousados encontram um lugar para ele ao lado do prato, na mesa posta, e os mais controlados o viram de cabeça para baixo. Sem ele, estamos despidos.
Nessa dinâmica, estão as crianças. Elas são testemunhas desse relacionamento interdependente. Quantas vezes ao dia ouvem “só um minuto”, perdendo a vez para o celular? A conversa com o amigo está interessante. O trabalho e os grupos chamam, sempre chamam, incessantemente chamam. A atenção não está com os pequenos e, se está, está dividida. A presença, comprometida. Já não nos conhecem sem o celular na mão.
Nesse contexto, entra um conceito que aprendi ao preparar esta coluna: o tal do “technoference” (ou technoferência), termo usado por pesquisadores para descrever a interferência do celular nas interações entre pais e filhos. São aqueles momentos em que a criança fala e o adulto responde a uma mensagem antes mesmo de ouvir o fim da frase; em que a brincadeira é interrompida por uma notificação; ou em que se conta a historinha de dormir entre uma espiada e outra no celular. Estudos associam esse padrão a mais conflitos familiares, irritabilidade infantil e menor qualidade de vínculo.
A verdade é que não fomos preparados nem para lidar com telas, tampouco para educar filhos em um mundo mediado por elas — fomos pegos desprevenidos. E é nessa realidade que eles nascem e se criam.
Na psicologia, a teoria da “modelagem parental” diz que as crianças aprendem sobretudo pela observação do comportamento dos adultos, não apenas por regras.
Nesse mesmo contexto, diferentes estudos, feitos com muitas famílias e ao longo do tempo, chegam à mesma conclusão: há correlação direta entre tempo de tela dos pais e dos filhos. Os mesmos estudos mostram que, em casas com alto uso digital por adultos, as crianças tendem a iniciar o contato com dispositivos mais cedo e a permanecer mais tempo nas telas, e que regras têm menor impacto quando não são acompanhadas pelo exemplo dos próprios adultos. Crianças não aprendem apenas o que dizemos sobre telas, mas principalmente como nos veem usá-las.
Talvez o primeiro limite deva ser nosso. Uma mesa de jantar, somente pratos e talheres, uma conversa entre pais e filhos, sem terceiros, e uma historinha de dormir contada com a luz do abajur e da presença total.
Fonte: O Sul
