Guerras, sanções e conflitos, de ordem comercial ou geopolítica no mundo, escancaram a fragilidade do Brasil diante da dependência estrangeira de insumos agrícolas. E, o que inicia como uma tensão no Golfo Pérsico, por exemplo, pode terminar como prejuízo nas lavouras de grãos nacionais e gaúchas. A volatilidade das instabilidades em alguns países produtores de gás natural e minerais estratégicos tem sido constantemente noticiada e a cada conflagração de batalhas, bélicas ou mercantis, o fornecimento e o preço dos fertilizantes obrigam os produtores rurais a refazerem seus cálculos.
Os três principais macronutrientes agrícolas – nitrogênio, fósforo e potássio – para compor as diferentes fórmulas de fertilizantes são elementos vitais à atividade primária nacional na reposição de nutrientes dos solos e das plantas e do aumento da produtividade das lavouras. Nesse “tubo de ensaio” de substâncias primordiais para o setor brasileiro também estão o cálcio, o magnésio e o enxofre. Mas as três primeiras citadas são as que representam gargalos significativos para os produtores rurais. “São as que mais importamos em diferentes formas de matéria-prima intermediária. Seja como uréia, amônia ou MAP (Fosfato Monoamônico)”, exemplificou o pesquisador da área de Custos Agrícolas do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea Esalq/USP), Mauro Osaki.
Para explicar a dependência crônica do Brasil, referência em eficiência alimentar mundial, Osaki acrescenta que esses recursos naturais são mais abundantes e fáceis de serem extraídos, também por terem linhas de produção, em países como Arábia Saudita, Catar e Rússia, que está em guerra com a Ucrânia há três anos, e Irã, envolvido em conflito com Israel no mês de junho.
“Temos também a China que é uma grande produtora (de fertilizantes/nitrogênio) mas também consumidora e quase não participa desse mercado diretamente. Aplica taxas altíssimas para exportação, para a inibição (dos embarques) mas existem períodos em que ela libera, fazendo uma regulação para (priorizar) o seu mercado doméstico”, detalhou.
De acordo com o pesquisador, embora em uma escala menor, o acesso ao fósforo para os fertilizantes também desassossega o Brasil. “Egito e Marrocos concentram boa parte das minas de rocha fosfática junto com a China. Ela serve como base para produção de Fosfato de Diamônio, Superfosfato Simples e Superfosfato Triplo”, resumiu, referindo-se aos diferentes tipos de fertilizantes a partir da substância. Osaki sublinha que o Brasil possui suas minas, consegue explorar uma parcela significativa delas e dos três macronutrientes agrícolas que importa “é o que dá menos dor de cabeça para nós.”
Contudo, para ele, diante do cenário global, o Brasil planta com incerteza. “Do nitrogenado, talvez poderíamos ser menos dependentes se tivéssemos um gás natural barato, mais competitivo do que o que se explora ou se produz na Rússia ou no Oriente Médio”, comparou. Diante disso, recorda a interrupção de políticas públicas e iniciativas sobre a produção de fertilizantes envolvendo a Petrobras por conta de desinvestimentos, cancelamento de projetos e fechamento de plantas fazendo referência aos últimos 20 anos.
Em maio passado, a estatal assinou acordo para reassumir a posse e a produção de duas fábricas de fertilizantes, em Camaçari, na Bahia, e Laranjeiras, em Sergipe, paradas desde 2023. Ambas estão arrendadas à iniciativa privada desde 2020. Além disso, em agosto do ano passado, a Petrobras reativou a fábrica de fertilizantes Araucária Nitrogenados S.A., no Paraná, que também estava com as atividades paradas desde aquele mesmo ano. Osaki reitera que o Brasil não ficaria autossuficiente em fertilizantes, do tipo nitrogenados e de pentóxido de fósforo, mas reduziria a sua sujeição internacional caso as políticas públicas do governo federal nos últimos anos tivessem priorizado a questão dos fertilizantes no país.
“O óxido de cloreto de potássio importamos grande volume, cerca de 90%. É o nosso grande gargalo. Um terço das minhas (do mundo) estão no Canadá. Há reservas também na Rússia e na Bielorússia. Estamos na mão de três países”, desabafou. Conforme Osaki, o elemento para o adubo também é encontrado, em muito menor incidência, em outros territórios: Alemanha, China e Israel.
De acordo com o especialista do Cepea, a Rússia prossegue exportando para o Brasil desde o início da invasão da Ucrânia, pois o fertilizante foi excluído das sanções impostas ao país por ser considerado essencial na lista do “corredor humanitário” para a oferta de alimentos. “Dentro do nosso mercado de fertilizantes, a Rússia é a que mais preocupa porque é o país que mais exporta diferentes produtos para o Brasil. Seja cloreto de potássio, ureia, sulfato de amônio ou fosfato monoamônico ”, afirmou.
Neste ciclo de incertezas mundiais, o pesquisador aponta que o poder de compra do produtor rural brasileiro de fertilizantes é deteriorado cada vez que ocorre desvalorização das commodities agrícolas. “Porque se o preço da soja ou do milho, por exemplo, está atrativo, o agricultor paga o preço do adubo mesmo que os países (fornecedores) estejam em conflito. É o que aconteceu em 2022, o pessoal estava com caixa, porque o valor da oleaginosa estava alto e o preço do fertilizante quase dobrou naquela época”, relembrou.
Osaki pontuou que, no caso específico do Rio Grande do Sul, o cenário de dificuldades é ainda maior do que no restante do país quando o poder de compra dos produtores não acompanha as oscilações do mercado internacional.
“Por conta da sucessiva quebra de safras que gerou rupturas no fluxo de caixa, o produtor (gaúcho) passa a ter que rearranjar formas de trabalhar. Mesmo tentando proteger seus preços, fazendo uma venda antecipada, corre riscos, no caso especial do Rio Grande do Sul, pois você não escolhe a safra que vai colher ou que foi contratada previamente”, ponderou.
De acordo com o Informativo Conjuntural, divulgado no final de maio pela Emater/RS-Ascar, a produtividade média estadual da cultura da soja, principal grão das lavouras gaúchas, foi estimada em 1.957 quilos por hectare na mais recente safra. Trata-se de uma redução de 38,43% nos 3.179 quilos por hectare projetados antes do início do plantio. As perdas foram significativas na safra da cultura, causadas pela estiagem em metade do território gaúcho no verão 24/25.
Eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul têm sido sucessivos, seja de estresse hídrico ou enchentes e os produtores rurais buscam alternativas para equacionar e renegociar suas dívidas. “As ferramentas para o pessoal do Sul, em especial, tem ficado mais restritas, principalmente pela condição climática. Até o prêmio do seguro rural está mais caro pela característica da região”, concluiu, solidário à situação dos agricultores gaúchos.
Adubo mais caro desafia safra de verão
Associação dos Produtores de Soja do Estado avalia que a combinação de alta do dólar com a desvalorização do real e uma possível contingência de oferta pode levar à implantação de lavouras de soja com menos tecnologia
Soja | Foto: Mosaic / CDN / Divulgação
Diante de um cenário internacional instável e das dificuldades locais enfrentadas pelos produtores gaúchos com prejuízos no campo por conta de eventos climáticos extremos, a próxima safra de verão no Rio Grande do Sul pode ser impactada também pelo custo dos adubos. A combinação entre a cotação do dólar e a desvalorização do real, uma possível contingência na oferta dos fertilizantes importados e a dificuldade de acesso ao crédito pode resultar em lavouras com menos tecnologia de insumos e possível redução de área, especialmente na Metade Sul do Estado.
A avaliação é do presidente da Associação dos Produtores de Soja no Rio Grande do Sul (Aprosoja), Ireneu Orth, referindo-se ao próximo plantio da oleaginosa com início a partir de outubro. “Preocupante já é. Agora o percentual do quanto vai impactar (as instabilidades geopolíticas) na vinda dos produtos ainda não é possível dimensionar nesse momento. Porque a principal origem dos fertilizantes (para a cultura) são das regiões que estão em litígio. Podem ser substituídos (os adubos) mas aí a oferta e a procura vai fazer com que o preço possa subir. E já subiu bastante”, explicou.
Na soja um dos principais fertilizantes utilizados são aqueles classificados como NPK, que fornecem nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). O conjunto de nutrientes, em proporções específicas, é essencial para o solo e auxilia no crescimento e desenvolvimento das plantas. De acordo Orth, já é observada menor oferta de adubos importados para a cultura.
Além disso, quando a cotação da moeda norte-americana aumenta, por consequência, ocorre o mesmo com as substâncias importadas e com a própria soja, pois a commodity tem seu valor definido na Bolsa de Chicago (CBOT). Entretanto, a cotação do grão tem anulado o efeito positivo do dólar alto para os negócios, pois não tem refletido diretamente no ganho do produtor rural.
“E o adubo, quanto mais ele aumenta, mais difícil fica para a agricultura, porque nós já estamos trabalhando com a margem mínima, até com prejuízo em algumas lavouras. Então, se aumentar ou o pessoal não vai comprar ou com menos (adubo) vamos ter problemas de produtividade”, adiantou, referindo-se ao Rio Grande do Sul.
Sobre o restante do Brasil, Orth pontuou que muitos sojicultores já fizeram suas compras de fertilizantes para a próxima safra, especialmente no Centro-Oeste e no Matopiba, região formada pelo estado do Tocantins e partes do Maranhão, Piauí e Bahia. “O Rio Grande do Sul, tem uma situação mais delicada porque não tem dinheiro e financiamento, os produtores não compraram”, comparou o dirigente. O presidente da Aprosoja destacou que a grande maioria dos produtores gaúchos segue com dificuldades porque não conseguiram renegociar as dívidas e o alongamento dos prazos para pagamentos dos débitos, essencial para o próximo plantio.
Em relação aos preços dos fertilizantes, o analista de Inteligência de Mercado da Stone X, Tomás Pernías, acrescenta que os preços dos importados são um fator de risco para a produção agrícola nacional. De janeiro até a segunda semana de julho, o Fosfato Monoamônico, muito utilizado na cultura da soja, subiu 20%. A ureia (nitrogenado), aplicada na lavoura de milho, avançou 30% no mesmo período, e o cloreto de potássio, empregado em diversas culturas, 21%. “Qualquer evento adverso como guerra, conflito ou até uma relação diplomática problemática pode trazer impactos para o mercado nacional. O Brasil acaba importando essa volatilidade do exterior. Desde o início do ano, os fundamentos entre a oferta e a demanda no mercado de fertilizantes estão fazendo com que os produtores rurais brasileiros paguem mais pelos adubos”, explicou.
Pernías acrescenta que pelo fato de o Brasil ser extremamente dependente desses insumos do exterior, não há alternativas que o agricultor consiga praticar para não absorver esses custos crescentes em sua produção.
“Estamos caminhando para uma safra (de grãos) 2025/2026 com custos mais elevados do que a safra anterior, com uma tendência de preços firmes, margens pressionadas, justamente em um cenário em que o agricultor está em um quadro de cenário de crédito mais caro. Então é realmente desafiador”, alertou, referindo-se aos próximos meses.
O analista de Inteligência de Mercado da Stone X destacou ainda que, nesse momento, há diversos fatores altistas predominantes influenciando os preços. Conforme Pernías, a Índia que é uma grande importadora de fertilizantes costuma ser mais ativa nas compras durante o segundo semestre, com uma demanda muito aquecida, o que pode trazer consequências de preços mais elevados. “O mercado brasileiro no segundo semestre também mostra uma tendência de aumento das importações, principalmente de nitrogenados, então o próprio Brasil é um fator altista no mercado internacional. Além disso, não podemos esquecer o fator China. Grande exportadora de fertilizantes, nesse momento está bloqueando as suas exportações e a oferta está reduzida no segmento”, relatou.
Sobre as taxações impostas pelo presidente norte-americano, Donald Trump, Pernías destaca que adicionam um elemento a mais em um mercado repleto de incertezas e em um cenário de bastante dificuldades para o mercado de fertilizantes brasileiros, que é um bem muito estratégico para o agricultor nacional. Nesse momento, não traz reflexos diretos nos fatores considerados altistas de preços.
Fosfato virou alvo do carro elétrico e da lavoura
Produção de veículos elétricos na China tem mobilizado a substância e reduzido as exportações
O futuro da mobilidade pode pressionar o presente das lavouras. Com a China priorizando o mercado interno de fertilizantes e o crescimento exponencial da demanda por eletrificação de veículos, o país asiático tem se concentrado também em fornecer ácido fosfórico para a indústria de baterias e reduzindo as exportações dessa matéria-prima para o agronegócio. O elemento é um ingrediente chave na fabricação de determinados tipos de adubos.
“Isso reduz a disponibilidade global de ácido fosfórico para a produção de fertilizantes, afetando a oferta, podendo pressionar os preços e incentivando o uso de alternativas de menor qualidade e solubilidade, o que pode comprometer o desempenho agrícola”, esclareceu o porta-voz e gerente de Desenvolvimento de Mercado da Mosaic, Rogério Medeiros.
Medeiros pontua que o processo de fabricação das baterias tem como consequência a elaboração de um “subproduto” que está sendo utilizado para produzir fertilizantes de baixa concentração de fósforo (NP), os quais estão sendo exportados para o Brasil. Tratam-se de adubos de baixa solubilidade, menos solúveis em água. Nessa direção, o porta-voz e gerente reforça a necessidade que na pauta de debates da dependência crônica nacional dos importados um ponto crítico pouco evidenciado justamente é a qualidade dos fertilizantes de baixa solubilidade e suas consequências para a atividade primária.
Medeiros explica que fertilizantes de baixa solubilidade são produtos cuja disponibilidade de nutrientes, principalmente fósforo, é limitada, ou seja, não conseguem liberar o nutriente na necessidade ideal da cultura implantada. Deste modo, podem acarretar diferentes impactos no plantio. Entre eles estão deficiências nutricionais das plantas e baixo arranque inicial da lavoura. “Muitos produtores, pressionados por margens apertadas, optam por produtos de baixa qualidade, pelo preço. No entanto, o que parece barato na compra pode sair caro no campo, pela menor eficiência, sub dosagens de nutrientes para as culturas e riscos reais na perda da produtividade”, alertou.
Conforme Medeiros, universidades e centros de pesquisas, a Embrapa, e institutos regionais já documentaram efeitos cumulativos do uso de fertilizantes de baixa solubilidade. Ele aponta o surgimento de plantas menos vigorosas e menor desenvolvimento radicular, além de menor tolerância a estresses climáticos iniciais e menor rentabilidade econômica nas propriedades. “O risco e os prejuízos são potencialmente altos para a próxima safra, principalmente em solos de baixo teor de fósforo”, explicou, destacando a alta dependência do Brasil de importação de fertilizante fosfatado.
O executivo da Mosaic, empresa de origem australiana e uma das maiores produtoras globais de fosfatados e potássio combinados, cita dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) para detalhar o cenário que hoje se desenha. “O Brasil vem aumentando a cada ano seu consumo de fertilizantes, em 2024 ultrapassou 45 milhões de toneladas e no primeiro semestre deste ano um aumento novamente em relação ao ano passado no mesmo período, de aproximadamente 10%, e naturalmente a China sendo um dos países de maior produção de fertilizantes do mundo, impactando neste cenário nacional”, evidenciou.
“No entanto, nos últimos anos tivemos algumas reduções nas exportações perante a 2023 na China, por questões de protecionismo e segurança interna. Mas, em 2025, já identificamos uma retomada nas exportações de fertilizantes de origem chinesa, com foco para produtos fosfatados menos concentrados e de solubilidades reduzidas. O Brasil, como um dos grandes importadores mundiais, está sendo impactado diretamente com estes fertilizantes”, complementou Medeiros.
Procurada pela reportagem do Correio do Povo, a Anda informou, por meio de assessoria de imprensa, que não comentaria sobre a qualidade dos fertilizantes de origem chinesa e a dependência do Brasil em relação à importação dos mesmos. Mas comunicou os números disponíveis mais recentes do setor.
Conforme a entidade, as entregas de fertilizantes ao mercado brasileiro encerraram o mês de abril com 2,68 milhões de toneladas. O volume significa alta de 16,8% em relação ao mesmo mês ddo ano passado, quando foram entregues 2,29 milhões de toneladas.
Já no primeiro quadrimestre deste ano, foram registradas 12,12 milhões de toneladas. Isso significou crescimento de 10,7% ante as 10,95 milhões de toneladas registradas em igual período de 2024. De acordo com a Anda, “a alta das importações continua refletindo o empenho do setor em abastecer o agro, mesmo perante as incertezas das crises geopolíticas, com desafios logísticos e estratégicos para manter o fluxo comercial desse importante insumo, imprescindível para elevar a produtividade no campo perante as expectativas de safra 2024/2025 recorde”.
Mato Grosso, líder nas entregas ao mercado, concentra a maior quantidade no quadrimestre, com 2,93 milhões de toneladas, ou 24,2% do total. Seguem-se: Paraná (1,76 milhão), Goiás (1,29 milhão), São Paulo (1,24 milhão) e Minas Gerais (1,17 milhão).
Sobre a produção nacional de fertilizantes intermediários a Anda informou que abril encerrou com 562 mil toneladas. O volume representa crescimento de 6,3% ante o mesmo mês de 2024. No acumulado do primeiro quadrimestre de 2025, foram 2,24 milhões de toneladas. Houve crescimento de 9,1% em relação a igual período do ano passado, quando se produziram 2,06 milhões de toneladas.
Além disso, a associação informou que as importações de fertilizantes intermediários (substâncias produzidas na indústria química que servem como matéria-prima para a fabricação de fertilizantes finais, como os NPK) continuam desembarcando no Brasil. Alcançaram em abril 2,76 milhões de toneladas, com alta de 7,2%. No acumulado do quadrimestre, o total foi de 11,26 milhões de toneladas, significando crescimento de 12,2% em relação ao mesmo período de 2024, quando foram importadas 10,03 milhões de toneladas.
No Porto de Paranaguá, principal porta de entrada dos fertilizantes, ingressaram 3,04 milhões de toneladas, indicando crescimento de 6,4% na comparação com 2024, quando desembarcaram 2,86 milhões de toneladas. O terminal representou 27% do total importado por todos os portos (fonte: Siacesp/MDIC).
Fonte: CP
