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Guerra Gelada: chegada do inverno deve mudar conflito entre Rússia e Ucrânia

No dia 21 de dezembro, a Terra entra no período em que o hemisfério norte do planeta recebe menos luz solar e por consequência menos calor, dando início a estação mais fria do ano, o inverno.

Para os brasileiros que não convivem com temperaturas tão baixas nesse período do ano, ver uma paisagem coberta de neve é um sonho. Apesar de ser algo bonito para ser contemplado, a chegada do frio é acompanhada por muitas complicações. E a situação fica ainda mais complexa se o país estiver em guerra, como a Ucrânia.

Após completar nove meses de conflito, ucranianos e russos se preparam para encarar um front de batalha congelante. Ainda que não seja nada atípico para os dois lados, as temperaturas negativas são um elemento preocupante para o futuro da guerra.

No dia 17 de novembro, a capital Kiev registrou uma nevasca e ficou coberta de neve. Com o fornecimento de gás limitado e o de energia prejudicado pelas ofensivas russas, a população que permanece em território ucraninano se prepara para meses duros.

Histórico de frio


A chegada do inverno nos campos de batalha na Ucrânia remete a outros momentos históricos em que os russos contaram com a participação do chamado “general inverno”, uma expressão que coloca o frio como um elemento a favor de Moscou.

Dois momentos estão registrados nos livros de história como exemplos de como é desafiador encarar as tropas russas nesse período. Napoleão Bonaparte decidiu pela retirada de suas tropas em 1812, na batalha de Borodino, e os nazistas foram derrotados em 1941 na batalha de Stalingrado. Um fato em comum das duas vitórias russas: o inverno.

Nas duas ocasiões, os russos utilizaram a estratégia de terra arrasada, na qual plantações foram queimadas e pessoas deslocadas de suas vilas para que nada pudesse ser usado pelo exército inimigo contra Moscou.

Napoleão conquistou a capital russa e invadiu o Kremlin, mas, diante da falta de estrutura para abrigar e alimentar seus milhares de soldados, decidiu recuar. A imagem do líder francês conduzindo seus homens pela neve em um cenário de destruição eternizou a derrota da França e a vitória russa.

A vitória de Moscou, na Segunda Guerra Mundial, também teve uma importante participação das baixas temperaturas. O historiador especialista em União Soviética Rodrigo Ianhez explica que neste caso há também uma batalha de narrativas, já que o inverno foi usado pelos alemães para justificar a derrota.

“Os franceses, assim como os alemães, sabiam que havia frio na Rússia. Se eles não se prepararam para isso, não é tanto uma questão do frio intenso, mas uma falta de visão estratégica e de tomada de decisões equivocadas”, diz Ianhez.

O especialista conta que havia um descompasso entre os registros das temperaturas feitas pelos alemães e pelos russos em datas e locais semelhantes, fator que indicaria que estava em construção uma versão da história para justificar o fracasso nazista.


“Os alemães estariam diante da primeira resistência bem-sucedida do exército vermelho e criaram uma narrativa de que a neve foi um fator decisivo, como se tivesse sido anormal o frio naquele ano”, explica o historiador. A intenção, diz, era justificar equívocos cometidos por eles e assim diminuir a imagem heróica da resistência soviética.

Ianhez conta que os russos não gostam da valorização das baixas temperaturas nas guerras porque isso desmerece o esforço da própria população para expulsar as tropas inimigas.

“Os russos não gostam do termo ‘general inverno’ e da referência constante ao fato de o inverno ter tido um papel relevante nessas vitórias. Porque diminui o principal fator que foi a resistência do povo soviético. Estamos falando de uma campanha que matou 28 milhões de pessoas”, explica.

O futuro da guerra


O dia 24 de fevereiro de 2022 também estará registrado nos livros de história para que seja profundamente analisado. Foi nesse dia que a Rússia deixou de ameaçar a Ucrânia com manobras militares próximas à fronteira entre os dois países e invadiu o território vizinho, levando a guerra de volta para o continente europeu, fato que não acontecia desde 1945.

Um novo capítulo da guerra passa a ser construído com a queda das temperaturas nas próximas semanas. Um dos principais pontos, que pode mudar os rumos do conflito, é a dependência que a Europa tem do fornecimento de gás natural pela Rússia.

“A Rússia tem utilizado o seu fornecimento de gás para a Europa como uma arma geopolítica, utilizando sua privilegiada posição de exportador, afinal ela era responsável por cerca de 40% do gás natural consumido no continente no pré-guerra”, diz o professor de Relações Internacionais Késsio Lemos, pesquisador visitante na universidade de Kent.

O gás russo tem um papel crítico na produção de eletricidade, aquecimento das casas e no funcionamento de boa parte da indústria no continente europeu.

Dessa forma, o recurso natural é uma carta na manga do presidente Vladimir Putin contra seus adversários. A questão econômica passa a ser uma forma de pressionar os países aliados da Ucrânia, como Estados Unidos e Alemanha, a não se envolverem no conflito. Por outro lado, essa postura torna mais distante um acordo de paz entre Kiev e Moscou.

“É possível que a chegada do inverno contribua para o enfraquecimento do posicionamento europeu [a favor da Ucrânia] e para o próprio andamento da guerra. Entretanto, as condições para um possível acordo de paz parecem mais complexas e envolvem outros elementos que transcendem a dimensão energética”, diz a professora de Relações Internacionais Clarissa Foner, do curso de Relações Internacionais da Faculdade São Judas.

O historiador Ianhez explica que nos meses de inverno as ofensivas costumam diminuir. Isso aconteceu na Segunda Guerra Mundial, cita. Porém, a situação deve ficar mais complicada na primavera, nos meses de março e abril, quando a neve e o gelo derreterem e o terreno dos campos de batalha serem tomados por lama, o que impossibilita ou dificulta a passagens de equipamentos militares e o deslocamento de tropas.

Os aquecedores na Europa

A ameaça russa de fechar o fornecimento de gás para a Europa transforma esse combustível em uma arma política e o frio em uma estratégia de guerra.

Moscou fornece gás para diversos países europeus e essa dependência faz com que Putin consiga resistir às tentativas internacionais de provocar uma saída de dólares do país por meio de sanções econômicas, que começaram assim que a Ucrânia foi invadida no começo do ano.

Em 2018, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez críticas à dependência da Alemanha da importação do gás russo e afirmou que essa relação entre os dois países fazia de Berlim uma “refém” da Rússia.

“Se você olhar, a Alemanha é uma refém da Rússia. Eles se livraram de suas usinas de carvão, eles se livraram de seu programa nuclear, eles estão recebendo boa parte do seu petróleo e gás da Rússia. Eu acho que é algo que a Otan tem que olhar”, disse o ex-presidente americano em uma reunião pré-cúpula da Otan.

Com o controle sobre o gasoduto que abastece indústrias e residências, Moscou consegue reverter a pressão que tem sofrido até agora de países do Ocidente e leva vantagem nas mesas de negociações.

“O objetivo é fazer com que os preços subam, criando problemas econômicos e discórdia política. Evitando que a Europa consiga armazenar gás suficientemente para o inverno, onde a demanda por gás sobe consideravelmente”, diz a professora Clarissa.

A guerra, o frio e o aumento da demanda pelo gás impactam no valor desse recurso mineral e por consequência afetam grande parte dos países do globo, inclusive o Brasil.

O professor Késsio explica que, no curto prazo, a alta no preço do gás e do petróleo nos mercados internacionais tem impactado positivamente os países exportadores e negativamente os importadores.

“Os chamados ‘Petro-Estados’, estão se beneficiando com uma considerável alta em suas receitas. Outros países como a Índia e a China, tem aproveitado as sanções sobre a Rússia para comprar petróleo mais barato de Moscou.  O comércio de energia entre esses países tem aumentado consideravelmente”, afirma.

O impacto da guerra nos aquecedores da população europeia pode ser maior no próximo inverno. Se o frio neste ano for mais intenso, o consumo de gás deve aumentar e as reservas para 2023 podem ficar prejudicadas. Uma situação que pode piorar caso a guerra continue na Europa por muito mais tempo.

Crise humanitária


Não são só os soldados no campo de batalha que sofrem com as consequências da chegada do inverno.

A falta de gás coloca em risco a vida de milhões de ucranianos que permanecem no país e terão que enfrentar as temperaturas abaixo de zero sem sistemas de calefação eficientes e ainda sem a opção de recorrer aos aquecedores elétricos.
 

“Este inverno será sobre sobrevivência”,

Hans Klluge, diretor da OMS

Desde o início de outubro, uma onda de ataques russos afetou diretamente as infraestruturas de energia na Ucrânia.

“O objetivo é lançar a Ucrânia ao frio e à escuridão. As consequências humanitárias podem ser dramáticas”, afirma Késsio

Antecipando as consequências do inverno para a população em meio a um país destruído, Mykhailo Podolyak, conselheiro do presidente Volodmir Zelenski, fez uma postagem no Twitter prometendo que os ucranianos vão resistir.

“Se Moscou realmente acredita que a falta de energia fará com que os ucranianos derrubem o governo e implorem por misericórdia, então, depois de nove meses de guerra, o Kremlin ainda não sabe absolutamente nada sobre a Ucrânia”, tuitou o conselheiro de Zelenski.

A embaixadora dos EUA na ONU, Linda Thomas-Greenfield, disse que o presidente russo, Vladimir Putin, estava “claramente usando o inverno como arma para infligir imenso sofrimento ao povo ucraniano”. O presidente russo “tentará congelar o país até a submissão”, acrescentou a americana.

A expectativa de baixas temperaturas nos próximos meses deixam em alerta as organizações humanitárias que atuam no leste-europeu dando suporte aos refugiados aos ucranianos que permaneceram no país.

“Os invernos na Ucrânia são muito rigorosos e severos, extremamente frios. Portanto, devemos fazer todo o possível para evitar que o frio do inverno se torne o próximo desafio para as pessoas que  já enfrentam tanto em suas vidas ”, alertou o alto-comissário da Acnur, agência para refugiados da ONU.

Para a OMS (Organização Mundial de Saúde), a estação mais fria do ano representará “uma ameaça para a vida de milhões de pessoas na Ucrânia”.

“Simplificando: este inverno será sobre sobrevivência”, disse o diretor regional da OMS para a Europa, Hans Klluge.

Os danos à infraestrutura de energia da Ucrânia causados pelos inúmeros bombardeios russos “já estão tendo efeitos mortais no sistema de saúde e na saúde das pessoas”, disse Kluge. Segundo ele, a OMS relatou mais de 700 ataques contra unidades de saúde desde o início da invasão russa em fevereiro.

“Estimamos que mais 2 ou 3 milhões de pessoas terão de deixar suas casas, em busca de segurança”, alertou. “Terão de enfrentar desafios de saúde, incluindo infecções respiratórias como Covid-19, pneumonia, gripe”, alertou, insistindo ainda no “grave risco de difteria e sarampo para uma população insuficientemente vacinada”.

Fonte: R7

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