A medida equivalente a dois copos americanos em sangue pode salvar até quatro pessoas que precisam de transfusão. São de 380 ml a 400 ml que beneficiam portadores de doenças no sangue, pessoas que passam por procedimentos cirúrgicos ou transplantes de órgãos e pacientes oncológicos. A demanda por estoques de sangue de todos os tipos cresce com o avanço da oferta de procedimentos de saúde.
De acordo com a enfermeira Ana Dagord, que é responsável pelo Setor de Captação de Doadores do Hemocentro do Rio Grande do Sul (Hemorgs), apesar da agenda positiva, com o aumento no número de transplantes e a oferta de procedimentos cirúrgicos, o número de doadores de sangue ainda não acompanha esse avanço. “Nós precisamos de ter no mínimo 100 pessoas doando por dia, mas se não tiver grupos organizados para doação, chega a, no máximo, 45 doadores”, lamenta.
O Hemorgs é o principal fornecedor de sangue para hospitais de todo o estado, atendendo uma rede de 40 instituições de saúde que não tem estrutura de coleta. Outras instituições de Porto Alegre como Hospital de Clínicas, Moinhos de Vento, Conceição e São Lucas, que têm pontos de coleta e armazenamento próprios, em caso de falta de estoque, também podem recorrer aos bancos de sangue do hemocentro estadual.
O procedimento para a doação é simples e, entre o cadastro e o fim da coleta, dura menos de 40 minutos. O candidato a doação é entrevistado para saber se está apto a doar. São questionamentos sobre estilo de vida e a condição de saúde nas últimas 24h. “Nós orientamos que venham bem hidratados, bem alimentados, que tenham dormido bem à noite. Os doadores não podem estar com sintomas de gripe no dia e tem que estar se sentindo bem”, explica a enfermeira.
Aumento de demanda
Historicamente, a época do ano mais crítica para os bancos de sangue são o período entre as festas de fim de ano e o feriado de Carnaval. Nesses meses, ao mesmo tempo que diminui o número de doadores, em razão de férias e viagens, a demanda aumenta, já que é registrado um aumento no número de acidentes nas estradas, em que muitos pacientes precisam de grandes volumes de reposição.
Além disso, apenas nos seis primeiros meses deste ano, foram realizados quase 1,1 mil transplantes de órgãos em território gaúcho, contra cerca de 1,2 em todo o ano de 2025. O montante do ano passado, colocou o Estado na terceira colocação no ranking nacional de transplantes de rim, que concentra o maior número de pacientes aguardando pelo órgão. O elevado número de procedimentos, aumenta também a demanda por estoques de sangue.
“Impulsionar os procedimentos e reduzir a fila é uma agenda muito positiva, mas para isso, precisamos ter doadores em um volume maior do que do que está tendo”, afirma a representante do hemocentro. “O ideal seria que nós tivéssemos de 2% a 3%por cento da população doadora e nós estamos em um ponto menos de 1,4%”, afirma.
Critérios para doação
Pessoas com idades entre 16 e 69 anos podem doar sangue se estiverem saudáveis e preencherem os demais critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde para doadores. Candidatos menores de 18 anos precisam apresentar autorização ou estar acompanhados dos pais e responsáveis legais, enquanto quem tem mais de 60 anos, só terá o sangue coletado se já tiver doado sangue anteriormente.
De acordo com a enfermeira, essas limitações tem o objetivo de garantir a plena recuperação sem prejuízos à saúde do doador, e que o estabelecimento da idade máxima para a primeira doação aos 60 anos, está relacionada à expectativa e a qualidade de vida do cidadão brasileiro. “Nós entendemos que isso foi feito há muito tempo atrás quando a população tinha uma estimativa menor de vida. Eu entendo que se fizerem uma revisão, essa faixa etária aumentaria, mas isso não depende do hemocentro isso é uma questão do Ministério da Saúde”, explica.
Além dos critérios de idade, os candidatos devem pesar no mínimo 50kg e estarem sem sintomas de gripe, resfriado ou febre. Gestantes ou mães que amamentam bebês com menos de 12 meses não podem doar. Pacientes que realizaram aborto ou parto normal até 90 dias ou cesariana 180 dias antes da doação não podem ser candidatos.
Quem realizou tatuagens, acupuntura ou piercings nos últimos seis meses em boas condições sanitárias também não podem doar. Caso não seja possível avaliar as condições de segurança do procedimento, o prazo é aumentado para 12 meses. Além disso, se o piercing tiver sido retirado de cavidade oral ou genital, o candidato deverá aguardar até um ano para efetuar a doação.
Pacientes com herpes labial, exposição à situação de risco para AIDS ou que tenham feito vacina contra a Covid-19 até uma semana antes poderão ser impedidos de doar. Quem faz uso de medicamentos contínuos deve informar na triagem para verificar se a substância pode ser impeditivo para a doação. Portadores de algum dos vírus da hepatite, AIDS, Doença de Chagas ou usuários de drogas injetáveis também não podem ser doadores.
Todas essas informações são levantadas durante a entrevista ao candidato em local reservado com o objetivo de assegurar a qualidade do sangue coletado e de garantir o bem-estar do doador. “A nossa preocupação na entrevista de triagem é que a pessoa tenha uma boa experiência e que ela volte. Queremos que o sangue dela esteja em condições de ser utilizado”, argumenta Ana Dagord.
Quem pratica o gesto regularmente, deve se atentar aos intervalos entre as doações. Homens podem doar a cada dois meses, não ultrapassando quatro doações no período de 12 meses, enquanto mulheres podem fazer até três doações no ano com intervalos mínimos de três meses.
Coletas no interior
Tendo em vista que em vários municípios do Estado não há pontos de coleta, o Hemorgs promove campanhas itinerantes em que uma unidade móvel visita os municípios para que os cidadãos possam doar. Além disso, em parceria com prefeituras do interior, o hemocentro disponibiliza a estrutura para a coleta. “Às vezes, as pessoas do interior são mais solidárias e se organizam muito pra nos receber e fazerem a doação”, conta a enfermeira ao compartilhar da experiência com a unidade móvel em Nova Hartz, no Vale do Sinos, que realizou 84 atendimentos em um único dia.
Apesar de doadores de sangue terem benefícios como o direito a um dia de folga no trabalho, descontos, vantagens em filas e até vantagens em concursos, a enfermeira acredita que esses fatores não devem ser determinantes para a decisão de se tornar a doação. “A pessoa tem que doar porque é doar. Não para ganhar um dia de folga. Nós entendemos que a doação tem que ser espontânea voluntária e que o nosso objetivo é liberar os familiares dos pacientes que estão precisando, de terem que procurar doadores”, argumenta.
Após o procedimento de coleta, o doador é encaminhado a uma sala onde recebe lanche e deve permanecer por, no mínimo 15 minutos, ou até se sentir recuperado. Entre os efeitos colaterais podem ser percebidas tonturas e quedas de pressão, logo após a doação, normalmente na primeira doação.
Caso o paciente apresente outros sintomas nas 12 horas seguintes ao procedimento, o Hemorgs orienta que entre em contato com a instituição que fez a coleta. A sinceridade do candidato sobre as condições de doar no dia é indispensável, já que, se a coleta não atingir um volume mínimo, a bolsa de sangue precisará ser descartada.
Fonte: CP
