A criação de bovinos movimenta uma das cadeias econômicas mais importantes do Estado. Da carne ao leite, do couro à genética animal, a pecuária garante o sustento de produtores. Entre grandes e pequenos, há uma preocupação geral: o carrapato bovino. Este ectoparasita é a principal causa de mortalidade nos rebanhos do Estado.
“O carrapato é um drama na pecuária gaúcha”, resume o médico-veterinário e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Júlio Barcellos, fundador e coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro).
Segundo ele, uma das principais consequências da infestação está relacionada à tristeza parasitária bovina, doença transmitida pelo carrapato e considerada uma das maiores causas de mortalidade de bovinos no Estado.
O ciclo parasitário do carrapato se fecha no couro dos bovinos e, em geral, inicia no final de setembro, seguindo até a última geração pré-inverno, em maio. Com temperaturas mais elevadas, a infestação tende a ser mais intensa, nos meses que sucedem setembro, os ovos eclodem e passam a buscar um hospedeiro, que servirá de alimento para o parasita, através da sucção de sangue.
Os meios de controle envolvem a manutenção do campo, combinada aos carrapaticidas. O manejo inadequado da infestação serve como uma seleção dos parasitas mais resistentes, dificultando a eliminação.
“Esses tratamentos, muitas vezes, ou na maioria delas, não são feitos adequadamente, usando diluição dos produtos em doses e subdoses, e aplicando produtos de forma incorreta. Então, isso tudo vai conspirando para que, em pouco tempo, um tratamento químico, que antes era super eficiente, em pouco tempo, começa a diminuir a sua eficácia e comece a produzir a resistência do parasita a esse medicamento”, explica o professor.
O acompanhamento e o cuidado com os animais ajuda a verificar a presença de carrapatos. De acordo com Barcellos, esse é o primeiro sinal de infestação, que requer tratamento. “Ocorre que muitas vezes esse tratamento não é imediato, por um hábito cultural equivocado, alguns pecuaristas esperam que um grupo de animais, que todos eles estejam infestados de carrapato, para depois implantar um tratamento, e muitos animais estão prejudicados. Então, o tratamento acaba atingindo não totalmente a população que afetou aquele animal”, diz.
Problema Aumenta
Embora o problema seja conhecido há décadas, ele vem se agravando nos últimos anos. Levantamento do Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa em Saúde Animal Desidério Finamor (IPVDF), ligado à Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), mostra que cerca de 70% das propriedades gaúchas já apresentam multirresistência aos carrapaticidas. Significando que os parasitas não respondem a pelo menos quatro das sete classes de produtos disponíveis no mercado. Em aproximadamente 5% das propriedades, nenhum dos produtos comercializados apresenta eficácia.
O pesquisador Guilherme Klafke, do IPVDF, apresentou, no início do mês de maio, estudos sobre resistência a carrapaticidas durante a 55ª reunião da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (SBBq). Segundo ele, a resistência é um fenômeno evolutivo e multifatorial, que não pode ser explicado apenas por um único marcador genético.
De acordo com o Klafke, o diagnóstico laboratorial ainda é essencial para orientar o uso racional dos produtos. A recomendação é integrar vigilância genômica, testes laboratoriais e dados de campo para compreender como a resistência surge e se espalha entre as populações de carrapatos.
“Outro problema são as perdas causadas pelo animal para se defender deste parasita, pela diminuição do ganho de peso, pelos custos com tratamento e ainda toda uma questão de efeitos principalmente sobre a reprodução”, explica Barcellos.
De acordo com o professor, os períodos de maior infestação costumam coincidir com a temporada reprodutiva dos bovinos, o que aumenta ainda mais os prejuízos.
Impactos
Além de transmitir doenças, o carrapato interfere diretamente no bem-estar animal. Hematófago, o parasita se alimenta do sangue dos bovinos, causando anemia, irritação constante e desgaste fisiológico. Cada lesão deixada na pele exige energia do organismo para cicatrização, energia que deixa de ser utilizada na produção de carne ou leite.
“Se nós olharmos um bovino atacado pelo carrapato, existem dezenas, centenas de micro orifícios produzidos pelo parasita. Isso produz estresse, diminui o apetite e tira o bem-estar do animal”, diz o zootecnista.
Os impactos chegam também à indústria do couro. Quando os animais são infestados, as marcas deixadas pelo parasita reduzem a qualidade da pele bovina e diminuem seu valor comercial.
Apesar de o carrapato ser visto sobre os animais, a maior parte da infestação está fora deles. Grande parte da população do parasita permanece no solo e no pasto, aguardando condições favoráveis para completar o ciclo de vida. “As grandes infestações estão no pasto”, afirma Barcellos. Segundo ele, temperaturas acima de 15 graus e condições de umidade favorecem a eclosão dos ovos e o surgimento das larvas, que sobem nos animais para se alimentar e completar o ciclo parasitário.
Por isso, o controle do carrapato não depende apenas da aplicação de antiparasitários. O manejo do ambiente é considerado parte fundamental, com técnicas como rotação de potreiros, roçadas, manutenção dos campos limpos e períodos de vazio sanitário, que ajudam a interromper o ciclo do parasita.
Fonte: CP
