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Pecuária gaúcha ainda sem impactos das restrições chinesa e europeia

A pecuária bovina brasileira tem dois problemas no horizonte próximo, mais especificamente em relação às exportações: em poucas semanas o país deverá chegar ao limite de embarques de carne sem tarifas extras para os portos chineses, o teto de 1,1 milhão de toneladas (cerca de 600 mil a menos que o montante enviado em 2025), pois acima deste patamar será aplicada uma taxação de 55%, além dos 12% já em vigência.

E, a partir do início de setembro, a União Europeia não vai mais receber o produto brasileiro, visto que anunciou exigir garantias sobre o uso de antimicrobianos nos animais brasileiros.

A China representa o principal destino externo da carne bovina brasileira, com cerca de 50% dos embarques em 2025, e o europeu é o quarto, com menos de 4% de fatia. Em ambas as situações as autoridades brasileiras seguem em tratativas para que os parceiros revejam suas determinações.

As consequências das duas restrições podem impactar as cotações da arroba, inclusive na pecuária gaúcha. No Estado os embarques somam apenas cerca de 2,5% da produção, mas caso o Brasil Central, a região maior exportadora, enfrente limitações de negócios, a carne gerada naquele ambiente poderá ser destinada às gôndolas gaúchas, e assim pressionar os preços, aos produtores, para baixo.

O professor Julio Barcelos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), considera o cenário de atenção, mas também não prevê efeitos tão drásticos para a cadeia gaúcha.

No caso da China, segundo ele, possivelmente em meados de julho se atingirá o envio do 1,1 milhão de toneladas sem a tarifação e, após, acima deste volume se tornará inviável economicamente servir àquele mercado.

“É claro que há uma preocupação, já referendada em outros momentos, de que isso poderá impactar o preço pago pela carne bovina no Brasil, porque esse excedente que o Brasil teria hoje, em torno de 500 mil a 600 mil toneladas de carne bovina (que iria para a China, sem tarifa, caso repetisse 2025) traz um impacto muito grande no volume exportado”, avalia.

Porém, lembra que a quantidade a não ser vendida aos chineses representa cerca de 10% das exportações totais do país, volume que poderá ser absorvido por outros mercados.

Segundo o especialista, o efeito negativo num primeiro momento seria relevante, mas há, no momento, tratativas com os chineses, visto que os asiáticos já encontram dificuldades em obter carne de outras origens para atender suas demandas, porque o mecanismo de cota também foi aplicado aos demais principais fornecedores: Austrália, Nova Zelândia, Uruguai e Argentina.

E como estes são menos importantes que o Brasil, que atende metade das compras locais, há esperança de reversão na decisão.

“A grande dificuldade neste momento de encontrar fornecedores já tem desencadeado algum tipo de postura chinesa de voltar a sentar nas negociações. Isso é o que a cadeia produtiva da carne bovina está imaginando e apostando”, descreve Barcelos.

Outros mercados

O professor diz esperar que pelo menos metade do volume a não ser embarcado à China, ou cerca de 300 mil toneladas, seja absorvido pelos mercados chilenos, americano e dos países árabes. “E é isso que está se vendo hoje”, relata. “Então, a possibilidade existe (de reflexo nas cotações), mas as barreiras chinesas não trarão grandes impactos na pecuária brasileira. E não trazendo grandes impactos, a arroba do boi continuará valorizada”, entende.

“Nós estamos num ciclo de alta da pecuária, uma escassez mundial enorme de carne bovina, um consumo muito ativo e isto fará com que não se tenha uma avalanche de carnes do Brasil Central vindo para o Rio Grande do Sul”, complementa.

“Esses volumes já são altos hoje, mas estão atingindo um teto de absorção pelo consumidor gaúcho.” De acordo com ele, metade da população gaúcha “já se acostumou” com a carne do Norte e do Centro-Oeste, mas não haverá mais margem para aumentar esse consumo, e a outra metade é fiel ao produto gaúcho.

União Europeia paga melhor

A situação é diferente quanto à União Europeia pela remuneração diferenciada e a proposição, pela pecuária gaúcha, de maior expressividade internacional. “Mais preocupante é o embargo da União Europeia, porque o boi que vai para a União Europeia é um boi que remunera melhor a cadeia, já que são cortes diferenciados de valor agregado, enquanto que a China é um destino mais commoditizado”, avalia.

“Isso não causará maiores prejuízos à pecuária gaúcha, mas as barreiras impostas pela União Europeia criam sinais que são um pouco antagônicos a uma tendência que o Rio Grande do Sul está tendo de valorizar mais sua carne, aplicar a rastreabilidade, certificar os produtos e destinar para mercados mais exigentes”, argumenta.

Fonte: CP

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