Após 12 anos, o PT voltará a realizar o Processo de Eleição Direta (PED) em todas suas instâncias. Isto é, os filiados ao partido irão eleger novos comandos para os diretórios municipais, estaduais e nacional da legenda.
Parte do processo democrático interno, debates estão sendo realizados em cinco municípios do país: Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, além de Porto Alegre, cujo encontro ocorreu na noite desta sexta-feira.
Quatro candidatos disputam a presidência nacional da agremiação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: Edinho Silva, Romênio Pereira, Rui Falcão e Valter Pomar. Também haverá eleições diretas para os diretórios do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre.
O debate iniciou com uma explanação inicial livre de 10 minutos para cada um dos postulantes, seguida de blocos com perguntas feitas pela plateia e escolhidas a partir de sorteio.
Na primeira parte, os petistas puderam diferenciar suas propostas e expor suas visões de futuro para o Partido dos Trabalhadores.
Dentre os pontos comuns aos candidatos, apoio à causa Palestina e repúdio às ações do governo Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza foram temas recorrentes. Houve inclusive defesa de ruptura das relações diplomáticas com o estado de Israel, casos de Romênio Pereira, Rui Falcão e Valter Pomar.
Todos, por óbvio, destacaram a importância da reeleição de Lula no Palácio do Planalto e demonstraram preocupação com a capacidade do petista de governar neste e num hipotético futuro mandato.
Edinho tem reeleição de Lula como centro da temática
O ex-prefeito de Araraquara e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom) Edinha Silva é tido como “o candidato do Lula” no processo eleitoral. E é na imagem do presidente o centro de sua massiva campanha, que já percorreu diversas cidades brasileiras.
“O centro da nossa tática tem que ser a reeleição do presidente Lula, que significa continuarmos fazendo a disputa da correlação de forças na sociedade. Temos que ter clareza de qual país assumimos depois do golpe, do governo (Michel) Temer e do governo (Jair) Bolsonaro, que efetivamente destruiu as políticas públicas do nosso país. Esse país, o governo Lula hoje reconstrói e refaz as políticas públicas”, discursou Edinho.
Com uma candidatura que simboliza um PT pragmático, de diálogo com o centro e com alianças amplas. Se diferencia neste ponto de seus adversário, ideologicamente mais posicionados à esquerda e tendo como uma das prioridades a defesa do socialismo.
Romênio quer “PT menos paulista e mais brasileiro”
Romênio Pereira é um dos fundadores do partido e já comandou o diretório estadual do PT em Minas Gerais. O mineiro crítica uma centralidade paulista da sigla e busca comandar um PT que destine mais atenção – e recursos – aos demais estados do país.
“Minas e o Rio Grande do Sul já estiveram juntos contra os paulistas. É bom que vocês têm isso na história”, brincou, cativando risadas da plateia. “Precisamos de um PT vibrante, nacional, com raízes em cada canto desse país. Afinal, foi daqui que saiu a inspiração para tantas lutas: a Carta de Porto Alegre, o Fórum Social Mundial e lideranças.”
A base de sua candidatura é voltada às pequenas cidades: “Temos que dividir mais a responsabilidade do fundo eleitoral. O presidente Lula na última eleição e nas duas vitórias da presidente Dilma (Rousseff), os votos vieram dos grotões deste país. Então, por favor, mais respeito com o interior e com os pequenos municípios”.
Também defende um partido mais voltado à luta socialista. “No nosso documento, temos com muita firmeza o papel da defesa do socialismo”, discursou.
Para Falcão, o maior patrimônio do PT são seus filiados
O deputado federal Rui Falcão, que já presidiu o PT a nível nacional, está preocupado com a situação do governo no Congresso Nacional. Tanto que fez um alerta como durante sua fala inicial nas conversas.
“Nós estamos sendo emparedados no Congresso Nacional, a ponto de dois partidos que têm quatro ministros no governo colocarem a faca no pescoço do governo ameaçando derrubar tudo que nós apresentamos. E note bem: são propostas ultramoderadas. Temos que fazer uma defesa resoluta, firme e corajosa do nosso governo, mas também isso nos dá o direito de criticá-lo para que não enverede para caminhos que conspirem contra nós”, afirmou.
Ainda assim, demonstra incômodo quando afirmam que Lula ou seu governo são o maior patrimônio da sigla. “Sei que o governo é nosso. De quem sofreu agressões, mas não tirou o adesivo do peito. Parte do nosso patrimônio é o nosso governo, mas o nosso maior patrimônio é essa militância que combate, vai para as ruas e defende nossas causas”, disse.
Fez outro alerta ainda: “A hora é agora. Ocupar as ruas. Um pé na instituição, um pé no Parlamento, mas muitos pés na rua, chamando a população a participar das lutas de defesa dos seus direitos, Se não houver convocação, não tiver rede nacional de televisão com o presidente Lula chamando a mobilização nacional, o evento mais importante do próximo ano, que é a reeleição do presidente Lula, corre grave risco.”
Pomar busca PT mais à esquerda
O historiador Valter Pomar está preocupado com os rumos ideológicos que o partido está tomando. Tendo como lemas principais a luta anticapitalista e a volta de um PT socialista, fez um pronunciamento criticando posicionamentos pragmáticos de um de seus adversários.
“Me espanta que haja entre nossos candidatos quem, em seu manifesto, não citou uma única vez a palavra socialismo, e estou me referindo ao companheiro Edinho”, criticou Pomar.
“Há setores do partido que se renderam à mediocridade ideológica. Que só pensam no curto prazo. Que deixaram de defender as mudanças profundas, que se renderam à correlação de forças. Se continuarmos assim, corremos o risco de perdermos as eleições de 2026, ou ganhar sem condições de fazer um governo minimamente correspondente ao programa que foi vitorioso”, declarou ainda.
Mais autocrítico dentre os postulantes, afirmou que seus adversários crescem onde a legenda se ausenta: “Estamos vivendo uma ofensiva da extrema-direita, que é particularmente forte naqueles locais onde a esquerda se acovarda, deixa de polarizar e vai ao centro”.
Também criticou práticas eleitoreiras no partido. “Cresce no nosso partido a posição daqueles que só pensam em eleições. E, ironia, essa atitude excessivamente eleitoreira está fazendo com que a gente tenha retornos decrescentes nas disputas eleitorais”, discursou.
Fonte: CP
