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Quando o chatbot vira confidente

Estados Unidos, 2024. Um jovem de 14 anos mantinha conversas frequentes com um chatbot da plataforma Character.AI quando sua família passou a associar o vínculo digital ao agravamento do sofrimento emocional do adolescente, que acabou morrendo. A mãe dele levou o caso à Justiça, alegando falhas de segurança e responsabilidade no desenho da ferramenta. Em janeiro deste ano, Google e Character.AI aceitaram fechar um acordo judicial, sem divulgação dos termos.

O episódio ganhou repercussão mundial por tocar em uma questão que já ultrapassou o campo da tecnologia: o que acontece quando um sistema treinado para responder, acolher e manter uma conversa passa a ocupar lugar de escuta emocional? No Brasil, o uso de chatbots se tornou parte da rotina de milhões de pessoas e já aparece associado à busca por apoio em momentos de sofrimento, solidão ou falta de acesso a atendimento profissional.

Conforme levantamento do Google, 71% dos brasileiros utilizam chatbots de inteligência artificial. Outra pesquisa, da Fundação Itaú, de 2025, indicou que 45% já recorreram a algum chatbot para questões de saúde mental. A procura chama atenção porque revela uma mudança de comportamento, mas também expõe um vazio anterior à própria tecnologia: a dificuldade de encontrar atendimento, pagar por terapia ou falar sobre sofrimento sem medo de julgamento.

Nos EUA, uma pesquisa da KFF publicada em março de 2026 apontou que 16% dos adultos usaram ferramentas de inteligência artificial para buscar informações ou conselhos sobre saúde mental no último ano. Entre jovens de 18 a 29 anos, o índice subiu para 28%. O mesmo levantamento mostrou que parte dos usuários recorre à IA pela rapidez da resposta, pela possibilidade de pesquisar de forma privada e também por dificuldades de acesso ou custos dos serviços de saúde.

Ágil e acessível

Para Aline Soares, docente de Psicologia da UniRitter, o alto percentual de pessoas que procuram esse tipo de apoio revela “uma lacuna presente na falta de acesso, onde as IAs entram como alternativa fácil e barata para a solução de problemas de ordem emocional”. Ela também reflete uma cultura marcada pela expectativa de respostas rápidas.

“A busca por IAs não apenas substitui um serviço inacessível, mas encarna um ideal cultural de resolução rápida do sofrimento, alinhado à lógica do consumo”, afirma.

O professor de Psicologia Wagner de Lara Machado, da PUCRS, observa que o uso de IA para questões emocionais transita entre dois fenômenos: a organização de tarefas do dia a dia e a dependência emocional. O primeiro é a dependência mais ampla da inteligência artificial para organizar tarefas, produzir respostas e resolver demandas do cotidiano. O segundo é a dependência emocional.

Relacionamentos digitais

Ligada aos chamados relacionamentos digitais, a dependência emocional ocorre quando a ferramenta passa a ser percebida como amiga, confidente ou companhia constante. Segundo Machado, o risco se quando a pessoa já apresenta vulnerabilidades anteriores, como dificuldade de vínculo, experiências traumáticas, medo de julgamento ou falta de acesso a serviços de saúde mental. Nesses casos, a tecnologia pode parecer mais disponível, menos crítica e mais fácil de acessar do que uma relação humana ou um atendimento profissional.

A questão, para os especialistas, não é transformar a IA em vilã. Chatbots podem ajudar em usos pontuais, como organizar pensamentos, estruturar uma conversa difícil, registrar sentimentos ou buscar informações gerais. O problema começa quando a ferramenta passa a ocupar o lugar principal de apoio emocional ou quando é usada como substituta de psicoterapia, diagnóstico ou acompanhamento especializado.

Aline lembra que há diferença entre conversar e tratar. Um chatbot pode responder de forma atenciosa, adaptar o tom e produzir sensação de acolhimento, mas não realiza avaliação clínica, não observa silêncios, mudanças de humor, contradições, histórico de vida ou riscos de forma responsável. Também não responde a um código de ética profissional nem pode ser responsabilizado como um psicólogo ou psiquiatra.

Nos consultórios, a presença da inteligência artificial já começa a aparecer de forma concreta. Pesquisa da American Psychological Association, divulgada neste ano, mostrou que 77% dos psicólogos entrevistados relataram que pacientes levaram conversas com IA para as sessões humanas: 35% percebem o uso como um “profissional adicional”; e 36% notam algum nível de dependência.

Para Machado, esse movimento exige cuidado, porque nem sempre o usuário formula o seu sofrimento de forma explícita. Em situações de crise, uma pessoa pode usar frases indiretas, metáforas ou sinais sutis que um profissional treinado poderia perceber no contexto da relação terapêutica. Já a inteligência artificial não reconhece nuances, responde de modo genérico e mantém a conversa sem encaminhar adequadamente para ajuda humana.

Atenção aos jovens

A preocupação é maior com jovens e adolescentes, grupo que já cresce em meio a relações mediadas por telas e pode interpretar interação com personagem digital como vínculo real. Para Aline, pais, familiares e amigos devem observar mudanças de comportamento, como isolamento, retraimento, irritabilidade e impactos em sono, estudos ou convivência. O sinal de alerta não está apenas no tempo de uso, mas no papel que a ferramenta ocupa na vida emocional. O desafio, para os especialistas, é construir uma relação mais crítica com a tecnologia.

Isso significa reconhecer o potencial da IA como ferramenta de apoio, mas sem confundir disponibilidade com cuidado, resposta rápida com tratamento ou simulação de empatia com vínculo terapêutico. Quando o chatbot ajuda a falar, mas não a elaborar o sofrimento, o alívio pode ser instantâneo, sem chegar ao cuidado profissional necessário.

Acolhimento virtual não substitui presença e tratamento

O uso de chatbots pode ser pontual e instrumental, como ocorre quando a pessoa organiza ideias, registra sentimentos, estrutura uma conversa difícil ou busca informações gerais. O alerta começa quando a ferramenta passa a ser o principal espaço de desabafo e substitui de relações humanas, convivência familiar, amizades ou atendimento profissional.

Segundo a professora Aline Soares, alguns sinais indicam que a relação com a inteligência artificial ultrapassou limites seguros. Entre eles, estão recorrer ao chatbot várias vezes ao dia, evitar conversar com outras pessoas, isolar-se, acreditar que apenas a IA entende o que se passa e sentir angústia ou vazio quando não consegue acessar a ferramenta. A atenção deve ser ainda maior quando o uso começa a afetar sono, estudos, trabalho, rotina ou convivência.

Em adolescentes, familiares devem observar mudanças progressivas de comportamento, retraimento, irritabilidade e substituição do convívio real pelo contato com a IA. Em adultos, o foco está menos na supervisão direta e mais na mudança de padrão: afastamento de amigos, supervalorização da tecnologia e abandono de outras formas de apoio.

Aline resume o ponto central ao diferenciar fala e elaboração: se o chatbot ajuda a falar, mas não ajuda a transformar o sofrimento, a conversa pode oferecer apenas um alívio breve. O risco é que a pessoa sinta que foi acolhida, mas permaneça sozinha diante de uma dor que exige presença, vínculo e cuidado especializado.

Cuidado simulado

A sensação de acolhimento produzida por um chatbot pode ser convincente. A ferramenta responde com atenção, adapta a linguagem ao usuário e pode parecer disponível em qualquer momento. Mas uma conversa agradável não equivale a um processo terapêutico.

Para a psicóloga, a empatia da IA é performativa. Isso significa que ela simula cuidado por meio da linguagem, mas não compreende a experiência humana nem responde a uma responsabilidade clínica. Em um atendimento psicológico, o profissional observa não apenas o que é dito, mas também silêncios, contradições, mudanças de humor, oscilações no discurso, histórico de vida e relações do paciente.

A diferença também é ética. Psicólogos e psiquiatras seguem códigos profissionais, têm formação para avaliação clínica, manejo de crises e encaminhamentos, além de poderem ser responsabilizados por suas condutas. Chatbots, por outro lado, não têm licença para diagnosticar, não conhecem integralmente o contexto do usuário e podem reforçar percepções distorcidas ao tentar manter a conversa fluida e agradável.

Isso não significa que a IA precise ser tratada como vilã. Ela pode servir como ferramenta de apoio em situações específicas, desde que não substitua vínculos humanos nem acompanhamento profissional. O limite está justamente aí: quando a tecnologia deixa de ajudar a organizar pensamentos e passa a ocupar o lugar de cuidado, escuta e decisão clínica.

A IA ‘parece’ nos entender

Chatbots adaptam linguagem, reforçam percepções do usuário e podem oferecer respostas convincentes sem julgamento clínico, responsabilidade profissional ou capacidade real de diagnóstico. A sensação de ser compreendido por uma inteligência artificial não nasce do acaso. Modelos de linguagem são treinados para identificar padrões, prever respostas prováveis e adaptar o tom ao usuário. Se a pessoa escreve de forma técnica, a ferramenta tende a elevar o vocabulário. Se escreve de maneira informal, acompanha a leveza da conversa.

O professor Vinícius Cassol, da Tecnologia da Informação da UniRitter, explica que esse processo é denominado de “mimetismo estatístico”, uma adaptação que aumenta a fluidez da interação e a satisfação de quem está do outro lado da tela. O problema é que, em saúde mental, a mesma fluidez que torna a conversa confortável pode criar uma armadilha.

Uma ferramenta treinada para responder de forma natural, educada e útil pode validar percepções distorcidas, reforçar inseguranças ou concordar com o usuário sem ter condições de avaliar o contexto emocional, a gravidade do sofrimento ou o risco envolvido. A inteligência artificial não compreende sentimentos como uma pessoa. Ela reconhece palavras, associa padrões e calcula respostas prováveis.

Cassol explica que os chatbots conseguem realizar uma análise de sentimento e identificar a emoção predominante em um texto. Isso, porém, não significa que saibam o que é tristeza, medo ou angústia. Falta à máquina, diz o docente, a “experiência incorporada”, ou seja, a capacidade de relacionar uma palavra a uma sensação física, social ou afetiva real. Sem essa experiência, a IA pode parecer empática, mas não tem memória emocional nem leitura clínica da situação.

Limitação ética

Essa limitação ajuda a explicar por que especialistas insistem na diferença entre apoio e tratamento. Um chatbot pode organizar ideias, sugerir exercícios simples, ajudar o usuário a estruturar uma conversa difícil ou oferecer informações gerais. Mas não tem licença para diagnosticar, não responde a um código de ética profissional e não consegue acompanhar a história de vida de uma pessoa com a profundidade exigida por um processo terapêutico.

O docente da PUCRS alerta que a tecnologia sozinha não deve ser usada como substituta do cuidado em saúde mental. A literatura científica, segundo ele, aponta que a IA pode ter utilidade em tarefas específicas, como apoio à organização da rotina, monitoramento de hábitos e auxílio em atividades delimitadas. O risco aparece quando aplicativos e plataformas passam a ocupar o lugar da psicoterapia, do diagnóstico ou do acompanhamento profissional. Estudos recentes mostram que a diferença entre uma ferramenta desenvolvida para fins terapêuticos e um chatbot generalista é central nesse debate.

Em 2025, pesquisadores de Dartmouth divulgaram os resultados de um ensaio clínico com o Therabot, um chatbot generativo estruturado para apoio terapêutico. Entre os participantes com depressão, houve redução média de 51% nos sintomas. Entre aqueles com ansiedade generalizada, a redução média foi de 31%. Os resultados indicam potencial, mas não autorizam a conclusão de que qualquer sistema de IA possa atuar como terapeuta.

A distinção é importante, porque ferramentas terapêuticas pesquisadas costumam ser construídas com finalidades específicas, protocolos definidos e filtros de segurança mais rígidos. Já modelos generalistas, como ChatGPTGemini e outros sistemas de uso amplo, foram desenhados para responder a diferentes tipos de demandas. Essa flexibilidade torna a ferramenta útil para muitas tarefas, mas também mais imprevisível quando o assunto exige avaliação clínica.

A preocupação não se limita à saúde mental. Uma revisão sistemática publicada no Jama Network Open analisou 137 estudos sobre chatbots usados para oferecer conselhos em saúde e apontou grande variação na qualidade das pesquisas. O trabalho reforçou a necessidade de transparênciasegurança do paciente e critérios éticos e regulatórios antes da integração clínica dessas ferramentas. Em outras palavras: a ciência está testando caminhos, mas ainda há distância entre potencial tecnológico e cuidado seguro.

Uso na medicina

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou, em fevereiro, uma resolução que estabelece limites para o uso de inteligência artificial na medicina. A norma proíbe delegar à IA a comunicação de diagnósticosprognósticos ou decisões terapêuticas. A decisão final deve permanecer sob responsabilidade do médico. Embora a resolução trate da medicina, ela ajuda a ilustrar a direção do debate: a IA pode apoiar profissionais, mas não assumir sozinha atos de cuidado.

A Resolução 2.454/2026 do CFM normatiza o uso da IA e proíbe delegar à ferramenta diagnósticos ou prognósticos

O professor Machado avalia que o ponto central é a responsabilidade. Se uma ferramenta sugere um diagnóstico, recomenda uma conduta ou interpreta sinais de sofrimento sem supervisão profissional, quem responde pelo erro? Para ele, um diagnóstico equivocado pode ser tão danoso quanto a ausência de diagnóstico, porque a pessoa pode reorganizar sua vida, suas relações e até suas decisões de saúde a partir de uma resposta inadequada.

Isso se torna ainda mais delicado diante de aplicativos que prometem avaliação de transtornosbem-estar emocional ou autoconhecimento por meio de perguntas genéricas. Muitas vezes, esses sistemas não deixam claro se foram validados cientificamente, se há profissional de saúde acompanhando a interação ou se o usuário está falando apenas com um algoritmo. Para o professor, a falta de transparência aumenta o risco de que uma ferramenta de conveniência seja confundida com cuidado clínico.

A tecnologia, no entanto, não precisa ser descartada. O caminho mais promissor, segundo o docente de Psicologia, está no uso da IA como recurso auxiliar de profissionais e serviços de saúde. Ela pode ajudar a organizar informações, transcrever sessões, apoiar monitoramentos, lembrar tarefas, acompanhar sintomas entre consultas ou auxiliar na triagem, desde que exista supervisão humana e responsabilidade definida.

A discussão já começa a produzir respostas regulatórias em outros países. Em 2025, o estado de Illinois, nos Estados Unidos, aprovou uma lei que limita o uso de inteligência artificial em terapia e psicoterapia, permitindo sua aplicação em tarefas administrativas e de apoio, mas não como substituta direta do atendimento profissional. A medida sinaliza uma preocupação crescente: regular a tecnologia sem impedir usos que possam ampliar o acesso e qualificar o cuidado.

O desafio está em separar promessa de substituição. A IA pode ajudar a tornar processos mais rápidos, organizar dados e oferecer suporte em tarefas específicas. Porém, sofrimento emocional não é apenas um conjunto de palavras a ser respondido. Envolve história, corpo, contexto, vínculo, silêncio, contradição e responsabilidade. É justamente nessa zona, onde a linguagem parece suficiente, mas não é, que mora o limite entre ferramenta útil e risco clínico.

App não pode diagnosticar

Aplicativos que prometem identificar transtornos, medir sofrimento emocional ou sugerir diagnósticos a partir de perguntas rápidas preocupam especialistas. Para Machado, é muito difícil, quase impossível, fechar um diagnóstico apenas com respostas padronizadas em uma plataforma. Uma avaliação clínica exige escuta, histórico, entrevista, observação, análise de contexto e acompanhamento. O risco não está apenas em errar.

Está no que a pessoa faz depois de acreditar em uma resposta. Um diagnóstico equivocado pode mudar a forma como o usuário interpreta sua história, suas relações e seus comportamentos. Também pode atrasar a busca por atendimento adequado ou levar a decisões tomadas sem orientação profissional.

A resolução do Conselho Federal de Medicina sobre o uso de IA reforça esse limite, ao proibir que diagnósticos, prognósticos e decisões terapêuticas sejam delegados à inteligência artificial. A regra parte de um princípio simples: tecnologia pode apoiar, mas a responsabilidade clínica precisa continuar humana.

Ferramenta é auxílio

O uso seguro da inteligência artificial em saúde mental não passa pela proibição absoluta nem pela liberação sem freio. Para especialistas, o caminho está em reconhecer a IA como ferramenta auxiliar.

Em serviços e consultórios, a tecnologia também pode contribuir com transcrição, organização de informações, monitoramento de sinais e triagens iniciais. Esses usos podem liberar tempo dos profissionais para o que exige presença humana: escuta, vínculo, julgamento clínico e tomada de decisão.

O limite aparece quando a ferramenta deixa de apoiar e passa a substituir. Um chatbot pode estar disponível 24 horas por dia, mas disponibilidade não é o mesmo que cuidado. Pode responder com rapidez, mas rapidez não é diagnóstico. Pode parecer acolhedor, mas acolhimento sem responsabilidade clínica não basta quando o sofrimento exige tratamento.

Fonte: CP – Lisiane Mossmann

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