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Quando o clima parou o Rio Grande do Sul

Esta era para ser uma reportagem sobre adaptação de estradas tendo em vista os desafios impostos pelos eventos climáticos extremos pelos quais o Rio Grande do Sul passou em 2023. No ano passado, enchentes, secas, temporais causaram inúmeras perdas para os gaúchos. Porém, em 2024, a realidade da emergência climática se impôs de forma ainda mais incisiva, provocando uma verdadeira catástrofe no Estado devido às intensas chuvas ocorridas em abril e maio.

Entre os prejuízos materiais estão os danos severos à malha rodoviária, modal por onde ocorre a maioria do transporte de pessoas e de mercadorias no Estado. Estradas federais, estaduais e municipais precisaram ser bloqueadas total ou parcialmente em centenas de trechos, devido a alagamentos, deslizamentos e inundações, em um colapso jamais visto na estrutura de transporte do Rio Grande do Sul. Muitas interrupções duraram semanas, impedindo a passagem de mercadorias, passageiros e serviços básicos, como ambulâncias e viaturas de polícia. No dia 1º de maio, por exemplo, às 14h54min, o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) registrava 82 pontos em 36 rodovias estaduais com bloqueios totais ou parciais de estradas e em uma ponte, destruída pelas chuvas no ano passado. Nesse mesmo momento, também havia 18 pontos de bloqueio em estradas federais, segundo a Polícia Rodoviária Federal. Quase um mês depois, após ocorrer a liberação de algumas rodovias, mas com o avanço das águas para outras vias, os números não tinham mudado muito. Eram 102 bloqueios totais ou parciais. Então, se antes essa reportagem trataria de adaptação climática, agora trata de reconstrução tendo em vista a adaptação à emergência climática.

Um balanço do governo do Estado sobre os estragos na área de infraestrutura de transporte, apresentado em junho, mostra que 403 locais foram afetados, atingindo 6,5 milhões de pessoas, cerca de 60% da população do RS. Em rodovias federais, houve 175 pontos, abrangendo 5.288 quilômetros, ou 85% do total das vias federais no RS. Já nas estaduais, foram afetados 228 locais, com abrangência de 8.434 quilômetros, ou 82% do total. Portanto, 13.722 quilômetros de vias. O governo estimou em R$ 3 bilhões o custo para recuperação e liberação dos trechos mais afetados, e R$ 9,9 bilhões a reconstrução, considerando adaptações ao clima.

A professora Andrea Santos, pesquisadora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, conhecido como a COPPE/UFRJ, diz que o investimento de adaptação é alto, mas fundamental diante do cenário atual e futuro. Segundo ela, as mudanças climáticas estão intensificando os eventos, sobrecarregando as rodovias, que sofrerão mais com inundações, altas temperaturas e deslizamentos. “Muitas dessas infraestruturas (no Brasil), incluindo pontes e sistemas de drenagem, estão defasadas, não foram projetadas para o volume de chuva que a gente observa hoje. Então, vai custar muito caro e, com a frequência maior de eventos extremos, haverá mais danos na infraestrutura, com efeitos em cascata, incluindo risco de perda de vidas em acidentes. Preocupa não haver investimento adequado pensando em adaptar essas infraestruturas à realidade”, destaca Andrea, que foi coordenadora do AdaptaVias, projeto do Ministério dos Transportes que fez um levantamento dos impactos e riscos da mudança do clima sobre a infraestrutura federal de transportes terrestres (rodovias e ferrovias) existente e projetada.

RS está longe do mínimo necessário

Quando considerada a situação atual das estradas do Brasil, e do Rio Grande do Sul em particular, entende-se que o caminho a percorrer ainda é longo para se alcançar infraestruturas adaptadas às mudanças climáticas. O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Luiz Afonso dos Santos Senna, que já foi diretor da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), lembra que o Brasil tem 1,7 milhão de quilômetros de rodovias, porém, apenas 12% têm pavimento. Além disso, metade desta rede está em más condições. “Então, na realidade, só 6% da rede de rodovias brasileiras, que inclui federal, municipal e estadual, têm pavimento em boas condições. Para termos uma comparação, países como a Índia, que é grande e com estágio econômico parecido com o do Brasil, tem 40%, 45% (de rodovias pavimentadas). Os Estados Unidos têm 60%. Os números brasileiros são assustadores. E qual é a grande surpresa? A média do Rio Grande do Sul é mais baixa do que a média nacional. Aqui nós só temos 10% de rodovias pavimentadas, e boa parte não está em boas condições.”

Para ele, a reconstrução após as enchentes deve ser pensada de forma escalonada no tempo. “No curtíssimo prazo, que é para ontem, deve-se resgatar a capacidade das vias de estarem disponíveis para circulação de pessoas e mercadorias. Isso é simplesmente o reparo imediato. Depois, em um segundo momento, acho extremamente importante verificar danos que foram causados pelas rodovias que ainda não estão aparentes. Alguns vão começar a surgir com o tempo. Isto também ainda está dentro da fase de recompor as vias. Ao mesmo tempo, precisa de uma adaptação para uma infraestrutura mais resiliente”, ressalta o professor, que é especialista em planejamento de transportes.

Senna defende a necessidade de se olhar para o conjunto das rodovias do Estado, para a alocação de recursos que está sendo feita. “E, obviamente, as intervenções de médio e longo prazos têm que considerar uma perspectiva de sustentabilidade. Nós vamos ter que deixar para as próximas gerações rodovias com maior resiliência. Não pode, por exemplo, um talude escorregar e interromper a relação entre a Serra, que é um polo econômico de primeiríssima linha, e a capital do Estado”

Fonte: CP

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