Há poucos dias, o Instituto Novos Paradigmas (INP), que tem seu conselho diretor presidido pelo ex-governador Tarso Genro, acabou no centro de uma polêmica sobre a viabilidade da formação de uma frente de centro-esquerda para as eleições de 2026 no RS. O INP vinha realizando encontros sobre a frente, mas sem a participação de dirigentes dos partidos que podem integrá-la.
O fato de as reuniões alcançarem publicidade ao mesmo tempo em que passaram a ser ventiladas informações de que o PT gaúcho, em nome da unidade da centro-esquerda, poderia ‘rifar’ seu hoje pré-candidato ao governo, Edegar Pretto, e compor uma chapa com a ex-deputada Juliana Brizola (PDT) na cabeça, gerou reação pública do PSol e incômodo dentro do PT. O INP respondeu com uma nota publicada em seu site.
Em entrevista ao Correio do Povo, Tarso fala sobre a formação da frente, os nomes, o peso da conjuntura nacional na definição da chapa no RS, o trabalho do INP, as reuniões e a polêmica. Leia abaixo os principais trechos.
Correio do Povo: Qual o critério adotado pelo INP para a participação de lideranças políticas nas reuniões sobre a formação de uma frente política de centro-esquerda no RS nas eleições de 2026?
Tarso Genro: O INP é uma instituição da sociedade civil, registrada legalmente, que faz estudos, pesquisas e debates com outras instituições nacionais e internacionais análogas a ele. Debates sobre temas que estão em nossos estatutos: a questão democrática e, mais recentemente, as frentes políticas no mundo e no Brasil. Este é nosso objetivo. Somos uma entidade mantida por cerca de 120 associados. Há pessoas do PT, PCdoB, PSol, PDT, PSB. E a maioria não tem partido. O instituto não tem poder convocatório sobre partidos. Convidamos, ou se oferecem para participar dos nossos eventos, pessoas de todos os partidos. Nos eventos, há pessoas do PSDB, do MDB, acadêmicos e empresários. Não convidamos partidos políticos porque não queremos ser confundidos com eles. Quem quiser participar dos nossos eventos, pode se inscrever. Sempre que publicamos a notícia de um evento, ela traz a informação de que ele é para associados, para convidados e para pessoas que registrem sua inscrição.
CP: Incomodou especialmente a integrantes do PSol e do PT o fato de as reuniões acontecerem ao mesmo tempo em que se intensificaram especulações de que o PT admitiria apoiar a ex-deputada Juliana Brizola (PDT) para o governo em 2026.
TG: O ciclo de discussão de uma frente política dentro do INP começou há dois anos. E não houve vedação à participação de ninguém. Acolhemos sempre pessoas que se inscrevem e, entre elas, convidamos para eventos especiais. Foi este o caso dos três eventos realizados nos últimos 15 meses para discutir a questão da frente política. Mas quem deve atar a relação para a composição de uma chapa são os partidos. Tanto que nosso projeto (da frente) terminou com a última reunião, quando ouvimos as pessoas que estão sendo cogitadas para o governo.
CP: O INP não vai mais tratar da formação de uma frente de centro-esquerda no RS em 2026?
TG: Nosso projeto sobre este tema terminou. Em seu tempo de existência, o INP fez já cerca de 20 projetos nacionais e internacionais. Cada um deles tem um curso. Ao final, publicamos um documento, propomos uma carta às autoridades, ou sugerimos um determinado movimento de articulação com a sociedade civil. E encerramos. No caso da frente, publicamos um documento após a última reunião. Nele, dizemos que o momento agora é de os partidos políticos começarem a conversar. A função do nosso instituto é um debate prévio. O documento foi distribuído e está no nosso site.
CP: O PSol adiantou que não pretende entrar em uma frente liderada pelo PDT. E parte do PT considera que manter aberta a possibilidade de Juliana ficar na cabeça da chapa desgasta o nome do presidente da Conab, Edegar Pretto, que é o pré-candidato petista ao governo.
TG: Isto é uma questão partidária. Dentro do INP não temos qualquer movimento organizado para interferir na composição da chapa. É uma discussão entre os partidos. Dentro do PT, que eu saiba, e aí falo como militante histórico, isto ainda não está discutido. Não há uma discussão ainda sobre nomes. Há cogitação pelas diversas correntes políticas. O que observo é um grande sentimento de unidade.
CP: O PT apresenta Edegar como pré-candidato ao governo. Juliana se apresenta como pré-candidata no PDT. O senhor entende que o PT deve discutir a cabeça de chapa no RS?
TG: Que eu saiba, não há nenhuma definição dentro do PT no sentido de deixar de discutir a cabeça de chapa. Mas minha participação nesta questão partidária, hoje, permanece mais com a direção nacional. Aqui não tenho uma intervenção direta dentro das estruturas do PT. Tenho uma intervenção de solidariedade, como militante histórico.
CP: O vereador Roberto Robaina, presidente do PSol em Porto Alegre, sugeriu que o senhor seja candidato ao governo. Existe esta possibilidade?
TG: Vejo a menção do Roberto ao meu nome como uma forma de respeito e uma homenagem que faz a uma pessoa que já ocupou, com certa propriedade, com determinadas características, os principais cargos da República. Desde o governo do Estado até os ministérios mais importantes. Mas tomei uma decisão na vida, de não mais concorrer em eleições. Devemos abrir espaço para as lideranças que vêm surgindo. Tanto no PT como na esquerda democrática, que integramos. Não serei candidato.
CP: O PT gaúcho pode abrir mão da cabeça de chapa em 2026 no RS?
TG: Eu estaria interferindo na direção do PT e nas negociações entre os partidos se emitisse uma opinião. No momento apropriado, se meu partido me consultar, darei minha opinião. Que ainda estou formando. Pelo que produzimos dentro do INP, avalio que as reuniões devem começar sem a proposta de quem vai ocupar a cabeça. Minha opinião particular é de que os partidos devem tratar da amplitude desta frente e das suas pretensões. E, a partir disto, estabelecer a negociação para formar uma chapa ampla e com capacidade de virar o jogo político aqui no Estado. Que está muito difícil de ser virado, como vimos nas três últimas eleições para o governo.
CP: O presidente Lula já disse várias vezes que a eleição do Senado é a mais importante, e admitiu abrir mão da cabeça de chapa em disputas pelos governos estaduais. O comando nacional do PT repete que as prioridades são a reeleição de Lula e o Senado. Qual o peso da conjuntura nacional na definição da chapa no RS?
TG: O presidente Lula, e já manifestei minha avaliação perante ele, deve emitir opinião sobre a formação da frente política aqui no RS. Entendo que, contrariamente ao que ocorreu nas eleições anteriores, é de estados como o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro que vão sair as diferenças para eleger o próximo presidente da República. São dois estados com uma influência bolsonarista muito grande. A estratégia nacional deve levar em consideração estes dois estados de maneira excepcional.
CP: O PDT gaúcho está na base do governo Eduardo Leite (PSD) e manifesta forte resistência a uma coligação com o PT. É possível formar uma frente com o PDT inteiro no RS?
TG: É claro que uma frente não se faz a meia boca. Ela é uma frente de partidos. Então, o candidato que se apresentar para ser cabeça de chapa, ou para senador, precisa dizer: – ‘Estou aqui representando a maioria do meu partido.’ Que vai ou não aderir à frente segundo as negociações. Não adianta decidirmos que o Senado tem que ser ocupado pelo candidato A e o partido dele chegar na reunião e informar que seu candidato ao Senado é o candidato B. Para as coisas funcionarem, os partidos precisam se apresentar em uma discussão com posições tiradas de dentro da sua estrutura de poder interna. Assim é que deve se proceder. Mas aí já estou falando fora do meu cercado. Não tenho nenhuma visão fechada a respeito de qualquer candidato e não tenho visão fechada também a respeito da cabeça de chapa.
CP: O que o senhor defende é que é viável a formação de uma frente política de centro-esquerda no RS e que esta frente deve ser vista como prioridade para a eleição nacional?
TG: Acho que tudo dependerá muito das orientações que virão do nosso candidato à presidente da República. Ele terá influência muito grande nas frentes a serem formadas nos estados. A disputa para o governo federal, para mim, deve ser predominante neste processo. O PDT e o PSB são dois partidos com os quais tenho uma relação muito particular. E me preocupo muito com a entrada deles em uma frente aqui no Estado porque são partidos importantes para que haja uma mudança no processo eleitoral. Agora, não adianta um partido entrar em uma frente aqui, mas apoiar o candidato do Bolsonaro. Por isto defendo que o presidente Lula e nossa direção nacional digam qual papel querem que o RS ocupe nas eleições para a presidência da República e, em particular, para o Senado. Nós, do PT, não podemos interferir na luta interna dos outros partidos. Mas devemos dizer que, para formar uma frente aqui no RS, precisamos privilegiar não só o candidato mais viável para ganhar a eleição, mas também a força política que teremos que emprestar à campanha do Lula, que é fundamental para a democracia no próximo período.
Fonte: CP
