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Uso do FGTS para pagar dívidas pede cautela

A nova etapa do Desenrola trouxe uma alternativa para trabalhadores endividados: a possibilidade de usar até 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar dívidas renegociadas no programa. A medida, voltada a brasileiros com renda de até cinco salários mínimos, amplia as formas de adesão e busca reduzir o nível de inadimplência no país, mas também abriu debate entre economistas e representantes do setor imobiliário sobre os impactos da retirada desses recursos do Fundo. Apesar da vantagem matemática, especialistas destacam que a decisão exige cautela. O FGTS funciona como reserva e proteção para momentos de desemprego, aposentadoria ou financiamento habitacional, e o uso antecipado desses recursos pode reduzir a segurança financeira futura.

A iniciativa prevê descontos que podem chegar a 90%, parcelamento em até quatro anos e juros limitados a 1,99% ao mês. O foco está principalmente em dívidas de cartão de crédito, cheque especial, empréstimos pessoais e contas de consumo atrasadas. A expectativa do governo federal é que até R$ 8,2 bilhões do FGTS possam ser utilizados pelos trabalhadores nessa nova modalidade.

Na prática, o programa oferece duas possibilidades principais: parcelar a dívida renegociada dentro das condições do Desenrola ou utilizar parte do saldo do FGTS para quitar o débito à vista. Para especialistas, a segunda opção tende a ser financeiramente mais vantajosa em muitos casos devido à diferença entre juros cobrados e o rendimento do Fundo.

Segundo o economista-chefe da CDL Porto Alegre, Oscar Frank, o FGTS teve rendimento anual de 6,05%, considerando-se a soma dos juros de 3% ao ano da Taxa Referencial (TR) e a distribuição de lucros. Já o Desenrola, mesmo com juros considerados baixos para os padrões do crédito brasileiro, pode atingir custo anual de 27%. Para o economista, a diferença entre o rendimento do Fundo e o custo do parcelamento torna a quitação imediata mais racional. “Mesmo com esse teto de 1,99% ao mês proposto pelo Desenrola, vale a pena sacar para abater parcial ou totalmente a dívida em atraso”, assinalou.

O economista e professor da Ufrgs Marcelo Portugal faz avaliação semelhante. Segundo ele, enquanto o FGTS rendeu pouco mais de 6% anuais, os juros máximos do Desenrola equivalem a 26,68% ao ano. “Ou seja, é melhor pagar o Desenrola à vista com o FGTS do que parcelar”, resume. Frank afirma que a medida pode trazer alívio imediato, mas alerta para riscos de longo prazo caso não haja reorganização financeira após a renegociação. “Se não houver planejamento, de nada vai adiantar esse fôlego de curto prazo”, observa. A educação financeira, diz, continua sendo um dos principais desafios para evitar que famílias voltem à inadimplência.

PRÓS E CONTRAS

* Sob supervisão da jornalista Simone Schmidt.

Fonte: CP

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