Canetas emagrecedoras: 5 dicas para evitar o reganho de peso
Com a popularização das chamadas canetas emagrecedoras, como semaglutida e tirzepatida, o reganho de peso após a interrupção do uso passou a ocupar espaço frequente no debate público. Para especialistas, no entanto, o fenômeno não é surpresa nem efeito colateral do medicamento, mas uma característica da obesidade enquanto doença crônica.
Segundo o endocrinologista Ramon Marcelino, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), o foco deveria estar menos no medo da suspensão e mais na forma como o tratamento é conduzido. “O reganho de peso faz parte da biologia da obesidade, com ou sem remédio. O erro está em tratar uma doença crônica de forma intermitente”, afirma.
Estudos recentes reforçam esse alerta. Pesquisas publicadas no New England Journal of Medicine e no BMJ mostram que mais de 60% do peso perdido pode ser recuperado após a interrupção das medicações quando não há acompanhamento contínuo. Dados apresentados na Obesity Week, nos Estados Unidos, indicam que esse reganho pode ocorrer em menos de um ano.
Por isso, especialistas destacam cinco dicas para reduzir o risco de recuperação do peso:
- Não suspenda a medicação sem orientação médica: Evitar a interrupção por conta própria é o primeiro passo. Períodos como férias, festas e feriados prolongados costumam concentrar maior exposição alimentar e quebra de rotina, o que aumenta o risco de reganho. A decisão de suspender ou ajustar o tratamento deve ser sempre acompanhada por um profissional.
- Aumente a atividade física antes do desmame: Elevar gradualmente a intensidade e a duração dos exercícios antes da retirada da medicação ajuda a compensar mecanismos biológicos que surgem após a suspensão, como o aumento do apetite e a redução do gasto energético.
- Priorize a qualidade da alimentação, não apenas a quantidade: A perda de peso sustentada depende menos do quanto se come e mais do que se come. Dietas baseadas apenas em restrição de volume, sem melhora da qualidade nutricional, aumentam o risco de “fome rebote” após a interrupção do medicamento.
- Faça a retirada de forma gradual: A interrupção abrupta pode intensificar a sensação de fome. O desmame progressivo favorece uma adaptação fisiológica e comportamental mais estável, reduzindo o impacto sobre o apetite e o peso.
- Estabeleça um “peso de alerta”: Definir previamente um limite de peso para reavaliação da estratégia ajuda a agir mais rápido caso o reganho comece. Isso facilita decisões como retomar a medicação ou intensificar mudanças no estilo de vida, antes que o ganho se torne significativo.
Tratamento contínuo e olhar ampliado
Especialistas reforçam que a obesidade deve ser tratada como outras condições crônicas, como hipertensão e diabetes. “Ninguém questiona um anti-hipertensivo porque a pressão sobe quando ele é suspenso. Com a obesidade, ainda existe dificuldade em aceitar que o tratamento precisa ser contínuo”, destaca Marcelino.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), inclusive, se manifestou oficialmente sobre o uso dessas medicações, reconhecendo sua eficácia, mas alertando para a necessidade de acompanhamento prolongado e mudanças consistentes de hábitos. Para o nutricionista Daniel Forster, o medicamento deve ser entendido como parte de um processo mais amplo. “Ele é um apoio importante, mas não resolve sozinho. A manutenção do peso exige reconstrução da rotina alimentar e trabalho comportamental”, afirma.
Esse olhar integrado inclui também o ambiente doméstico e a saúde emocional. A especialista em culinária saudável Camila Souza destaca que reorganizar a cozinha reduz gatilhos alimentares, enquanto a nutricionista comportamental Marthina Streda Walker reforça que ansiedade e relação emocional com a comida são fatores decisivos para o sucesso a longo prazo.
Programas que integram acompanhamento médico, nutricional e comportamental, como o NutriLife Club, têm ganhado espaço justamente por atuarem na fase de manutenção do peso. Para a endocrinologista Luciana Sampaio Péres, o diferencial está na personalização e no monitoramento contínuo. “Em casos de obesidade mais avançada, apenas mudanças de hábitos não são suficientes. O medicamento é parte indispensável do tratamento”, afirma.
Pontos menos discutidos sobre o uso das canetas emagrecedoras
- Uso das canetas após cirurgia bariátrica: Os agonistas de GLP-1 são amplamente utilizados para tratar o reganho de peso em pacientes que já passaram por cirurgia bariátrica, o que reforça que o aumento do peso está ligado à natureza crônica da obesidade e não a uma falha específica do medicamento.
- Tratamento intermitente aumenta o risco de reganho: Especialistas alertam que suspender e retomar o tratamento sem planejamento tende a amplificar oscilações de peso. A obesidade responde melhor a estratégias contínuas e de longo prazo do que a intervenções pontuais.
- Impacto econômico do “não tratamento”: Além dos riscos à saúde, a falta de manejo adequado da obesidade está associada a maiores custos com complicações metabólicas, cardiovasculares e ortopédicas ao longo do tempo.
- Resultados variam conforme o perfil do paciente: Fatores como grau de obesidade, histórico de tentativas anteriores de emagrecimento, saúde mental e ambiente familiar influenciam diretamente o risco de reganho após a suspensão das medicações.
Fonte: CP