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Arroz para abastecer o carro e para gerar renda

Entre as atrações da 36ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz, em Capão do Leão, de 24 a 26 de fevereiro, estará a exposição pela Embrapa de variedades de arroz diferentes do tradicional cereal longo fino que domina as lavouras gaúchas e, por consequência, as prateleiras dos supermercados brasileiros. Entre as cultivares incomuns, está a BRS AG, única desenvolvida no mundo especificamente para a produção de etanol. Além disso, ela pode ser usada na alimentação animal em substituição ao grão de milho.

Segundo a Embrapa, é possível obter 430 litros de etanol de uma tonelada de grãos da BRS AG, performance superior às matérias-primas “concorrentes” para o biocombustível. O milho, por exemplo, tem potencial médio de 360 litros por tonelada, e a cana-de-açúcar, tradicional para essa aplicação, gera 70 litros por tonelada.

Cultivar de arroz BRS AG

 Cultivar de arroz BRS AG | Foto: Ariano Martins de Magalhães Júnior / Embrapa / CP

A cultivar se caracteriza por ter grãos maiores que o arroz tradicional e elevado conteúdo de amido, além de alto teor de carboidratos, combinação que a deixa mais eficiente para a fermentação e, assim, a transformação em etanol. Contudo, não atende aos padrões de qualidade para alimentação de pessoas, ou seja, é um DCH (Desclassificado para Consumo Humano). Desta forma, o produto não se torna um concorrente para a comida, o que poderia provocar críticas, visto que o arroz é um dos alimentos mais tradicionais e populares da culinária brasileira, além de barato em relação a outros componentes da mesa. Independentemente disso, a BRS AG pode ser explorada dentro da estrutura já estabelecida e dos padrões de cultivo da orizicultura gaúcha, que produz 70% do arroz brasileiro. E pode render 10 mil quilos de grãos por hectare.

Desenvolvimento

A BRS AG foi desenvolvida na Embrapa Clima Temperado, sediada em Pelotas, ainda em 2014, relata o responsável pelo seu registro e proteção, o melhorista e pesquisador da unidade Ariano Martins de Magalhães Júnior. “A BRS AG foi a primeira cultivar lançada no mundo com essa finalidade. Ela tem algumas características diferentes do arroz longo fino em termos de rendimento, produção, hidrólise, tamanho de grãos. É mais farinácea e o tamanho de grão é maior”, descreve. Segundo ele, à época não houve interesse pelas indústrias transformadoras, já que o mercado do arroz estava em alta. “As biorrefinarias não se instalaram. O arroz deu uma reagida na questão do preço e o produtor continuou fazendo o arroz longo fino”, conta. “Nós fizemos a produção de semente dela, mas na hora dos produtores plantarem como cultivar comercial, não houve a procura. Foi feita a oferta, mas não houve a procura porque não tinham biorrefinarias instaladas para fazer o uso desse arroz como matéria-prima. Hoje, comercialmente não tem nada.”

No entanto, atualmente, o cenário é outro. O setor orizícola passa por crise, que inclui consumo estagnado e cotações pressionadas, abaixo dos custos de produção. Agora há possibilidade de agregar renda ao negócio já estabelecido, afinal, o arroz diferenciado não impõe nenhum investimento extra na estrutura de produção da propriedade. Assim, a BRS AG voltou a despertar atenção da cadeia, justamente em um momento de investimentos bilionários em indústrias de etanol (de milho) e biodiesel (soja e canola) no Estado. “É uma perspectiva que está latente. Temos ela pronta, trabalhada. Só teríamos que agora fazer uma nova produção (de sementes) para poder ofertar para os produtores utilizarem como matéria-prima. E volume suficiente conforme a demanda das biorrefinarias”, afirma Magalhães. “Em duas, três safras teríamos volume suficiente para abastecer as biorrefinarias.”

Como começar a produzir

Para começar a produção do novo arroz, basta iniciar a obtenção de sementes necessárias para atender à demanda, o que poderia se dar já na safra 2026/2027, no segundo semestre. “Aqui no Rio Grande do Sul seria uma matriz energética muito interessante, porque nós temos excelente aptidão para cultivo do arroz irrigado. Então, seria, comparativamente, uma cultura que é mais eficiente em produtividade por hectare. Seria hoje a mais indicada para a nossa realidade da Metade Sul do Rio Grande do Sul. O milho e a cana, por exemplo, não se adaptam muito às nossas várzeas. O arroz tem essa vantagem”, argumenta. “O próprio produtor que cultiva o longo fino poderia reservar parte da sua área para produção do arroz gigante, o BRS AG, para fazer a oferta de matéria-prima. Teríamos um pouco menos produção do longo fino, o que valorizaria a comercialização dele. Esse é o raciocínio”, complementa.

Ele ressalta ainda que o arroz convencional também pode ser transformado em etanol pelas refinarias. Esta potencialidade tem sido tratada em instituições como a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz). “Por meio da Câmara Setorial (da Cadeia Produtiva do Arroz), encaminhamos solicitação à Assessoria de Assuntos Estratégicos da Presidência da Embrapa para que, via Embrapa Agroenergia, possamos aprofundar os estudos sobre o uso do arroz para etanol. Além disso, essa mesma assessoria está avaliando outros destinos e finalidades para o arroz”, revelou recentemente o presidente da entidade, Denis Nunes. “Estamos em tratativas com as usinas que estão se estabelecendo no Rio Grande do Sul para outros grãos para que tentem o uso do arroz.”

Mais variedades atípicas da Embrapa


BRS 358 – pertence ao grupo japônica e é indicada para a culinária japonesa, por apresentar grãos médios a curtos, de formato arredondado e baixo teor de amilose, resultando em textura macia, úmida e aderente após o cozimento, característica essencial para preparações como sushi e onigiri. Possui ciclo médio, boa adaptação às condições de cultivo em áreas irrigadas, porte baixo a médio, arquitetura moderna e resistência ao acamamento, além de bom potencial produtivo e desempenho satisfatório frente às principais doenças da cultura.
BRS 902 – arroz de pericarpo vermelho com grãos de comprimento médio (6,24 mm) e formato distinto dos padrões longo e fino, destacando-se por suas propriedades funcionais e culinárias, incluindo maior teor de compostos bioativos com atividade antioxidante, o que agrega valor nutricional ao produto. Agronomicamente, apresenta ciclo médio, boa adaptação em sistemas de produção irrigada, produtividade competitiva (acima de 7,5 t/ha), estatura reduzida com menor acamamento e elevado rendimento de grãos inteiros após beneficiamento, além de atender a mercados diferenciados que valorizam arroz colorido e especial.
BRS AE 707 – arroz de pericarpo preto desenvolvido com foco em nichos de mercado diferenciados, caracterizando-se por grãos com coloração preta intensa e presença de compostos bioativos com potencial antioxidante, anti-inflamatório e protetor contra doenças crônicas, atributos que ampliam seu valor nutricional e apelo funcional. De ciclo médio e com potencial produtivo competitivo, combina desempenho agronômico satisfatório com características físicas e químicas do grão que favorecem a oferta de um produto diferenciado, contribuindo para a diversificação da orizicultura e a abertura de mercados especializados que valorizam o preço do grão preto frente ao arroz convencional.

Fonte: CP