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Como a canola se tornou a estrela do plantio de inverno

Tradicionalmente dominada pelos campos de trigo, a safra de inverno no Rio Grande do Sul deve confirmar neste ano o estrelato da canola. A estimativa da Associação Brasileira dos Produtores de Canola (Abrascanola), que reúne os produtores da oleaginosa no país, é que a área plantada com a cultura no Estado tenha uma expansão de 60% em 2026, podendo chegar a 380 mil hectares. Iniciada em março, a semeadura se estende até junho e sinaliza uma produção de 570 mil toneladas de grãos, com uma média de 1.500 quilos por hectare. O entusiasmo com a canola vai além da paisagem exuberante proporcionada pelos campos floridos que embelezam o interior gaúcho no final da estação fria. Um dos fatores que explicam o crescimento é a valorização alcançada pela cultura na safra 2025/2026.

Negociada em contratos balizados pelo preço da soja, a canola geralmente era cotada com descontos de 5% a 10% sobre o valor do principal cultivo gaúcho. Com o aumento da demanda por óleo e farelo, porém, o mercado passou a operar com prêmios e a saca de oleaginosa hoje pode valer de 5% até 15% mais que a de soja, segundo fontes do agronegócio. Essa inversão de cenário foi impulsionada por investimentos em ampliação da capacidade da indústria de óleos, que abriram oportunidades para os agricultores.

No final do ano passado, foi lançada em São Luiz Gonzaga a primeira planta do país dedicada exclusivamente ao processamento de canola, em uma parceria estratégica entre o Grupo Camera e a Celena Alimentos. Além disso, a 3tentos deu início à industrialização da oleaginosa em sua unidade de Ijuí. “Novos players entraram no mercado, comprando canola tanto para exportação como para o mercado interno, então (o preço da canola) pegou uma base de exportação (…) desvinculou da soja”, explica o presidente da Abrascanola, Vantuir Scarrantti.

Com a garantia de um destino para a produção e indústrias agressivas na compra, o produtor passou a ver na canola um investimento de boa liquidez, capaz de garantir uma margem de lucro mais atrativa na comparação com o trigo. “Nesta safra, vou me arriscar a dizer que 90% dessa área (de cultivo prospectada) já está negociada no sentido de venda. O produtor decidiu fazer a semeadura, grande parte já tem travado seu custo de produção”, afirma Scarrantti.

Pioneirismo

Dono de propriedades rurais nos municípios de Santo Ângelo, Entre-Ijuís e Vitória das Missões, no Noroeste gaúcho, Ariel Secchi foi um dos pioneiros na experiência com a canola no Rio Grande do Sul. Produtor de soja e milho, ele começou a cultivar o híbrido no início da década de 2000, em áreas de 20 hectares a 30 hectares. O trabalho com a cultura ganhou tração nos últimos 15 anos, com a introdução da canola no sistema de rotação permanente do agricultor. Em 2025, foram 150 hectares plantados, com uma produtividade média de 39 sacas por hectare. Neste ano, a semeadura deve alcançar 500 hectares e Secchi espera manter um rendimento acima de 35 sacas por hectare.

Os vistosos campos amarelos de hoje, segundo o produtor, refletem um grande salto de qualidade, a começar pelas tecnologias de semeadura. Há 20 anos, lembra Secchi, não havia no mercado máquinas agrícolas adequadas à canola, e o trabalho era feito com plantadeiras de trigo. “Você consegue fazer uma semeadura com precisão. Isso era um gargalo e hoje está sanado, tanto para a semeadura como para a colheita”, afirma. Outro avanço que possibilitou a expansão do cultivo foi a oferta de variedades mais resistentes a doenças e à debulha. “No início, dava uma chuva, um vento, debulhava toda a canola. Anoitecia com uma lavoura bonita, e no outro dia não tinha nada. Esse risco diminuiu bastante”, diz o agricultor. O que o fez acreditar na cultura, porém, foi a alta demanda industrial. “É muito rentável? Não, mas hoje ela tem uma rentabilidade muito melhor que o trigo. A indústria quer canola. Se você plantar, é um mercado à vista”, afirma o produtor.

Na safra anterior, Secchi negociou a saca da oleaginosa a R$ 135. Para o ciclo 2026/2027, ele diz ter travado o preço de venda da saca a R$ 150 em contratos futuros por meio de operações de barter (em que o produtor troca por insumos parte da produção projetada) firmados no início do ano, portanto, antes da disparada de preços de combustíveis e fertilizantes causada pelo conflito no Irã.

Se consideradas apenas as despesas com sementes, adubos e defensivos, o agricultor estima o custo da lavoura em R$ 2,3 mil por hectare (o equivalente a 15 sacas de canola). A instabilidade no Oriente Médio impacta suas decisões de plantio, já que as cotações CFR (Custo e Frete) da ureia – adubo nitrogenado que é o principal nutriente aplicado à canola – acumulam alta de 63% desde fevereiro, quando teve início a guerra no Irã, até abril, de acordo com levantamento da consultoria StoneX. “(Antes da guerra), eu tinha comprado fertilizante para 70% da área. Agora, você tem de esperar, ou até pegar esse fertilizante que comprou e dividir ele”, observa Secchi.

Biodiesel impulsiona o hype da canola

Embora mais de 70% do biodiesel brasileiro venha do esmagamento da soja, as indústrias de óleos vegetais estão diversificando as matérias-primas usadas na produção do combustível renovável. Com cerca de 40% de óleo na composição dos seus grãos, praticamente o dobro da oleaginosa cultivada no verão, a canola despontou como uma alternativa promissora para o setor, que vem fomentando o cultivo de olho nas perspectivas abertas pelo programa federal Combustível do Futuro. A lei determina aumentos progressivos de 1 ponto percentual ao ano no percentual obrigatório de biodiesel misturado ao diesel fóssil, podendo chegar a 20% em 2030.

Grãos de canola têm cerca de 40% de óleo

 Grãos de canola têm cerca de 40% de óleo | Foto: Shutterstock / CP

Investimentos em aumento de capacidade industrial e suporte técnico a agricultores no Estado indicam que a canola veio para ficar nesse cenário de bioenergia. A 3tentos é uma das empresas que apostaram na expansão da oleaginosa direcionada ao biodiesel. Após adaptações em sua planta de Ijuí, no Noroeste gaúcho, a empresa começou a operar com canola em dezembro passado, processando um volume correspondente a 50 mil hectares cultivados por produtores parceiros. O incentivo ao plantio ocorre por meio da venda de insumos, em um programa de barter que inclui a cobertura de riscos. “Começamos a fomentar isso no fim de 2024. Tínhamos de fazer o convencimento daqueles produtores que nunca tinham plantado. Vários já tinham plantado e, pela falta de liquidez, ou de noção de manejo (…), não estavam mais na cultura. Focamos em seguro agrícola para a canola”, explica o vice-presidente de operações da 3Tentos, Luiz Augusto Dumoncel.

Para o executivo, o aguardado aumento do teor de biodiesel no diesel dará novo impulso à safra de inverno deste ano. A lei previa que a mistura passasse dos atuais 15% (B15) para 16% (B16) em março deste ano, mas a mudança foi adiada para 2027. O governo federal acena com a possibilidade de anunciar o novo percentual em breve. “Temos condições de, num cenário favorável de trigo, voltar para 1 milhão, 1,2 milhão hectares (plantados no RS) e, para a canola, de três a quatro anos, atingir também o patamar de 1 milhão de hectares”, projeta Dumoncel.

Também no Noroeste do Estado, o biodiesel motivou uma parceria operacional entre a Camera Agroindustrial e a Celena Alimentos. Batizado de Aliança Canola, o projeto resultou em uma planta de beneficiamento da oleaginosa em São Luiz Gonzaga, onde a Camera mantém instalações. Desde julho passado, a nova unidade processa 650 toneladas de canola por dia – pelo acordo, a Camera usa parte da estrutura na produção própria, e o restante, na prestação de serviços industriais à Celena. “A colheita vai se dar a partir de setembro. Até lá, essa planta já estará com capacidade efetiva de 1 mil toneladas por dia”, adianta o diretor de commodities do Grupo Camera, Júnior Rosa de Almeida, acrescentando que, em 2027, a capacidade de processamento da unidade passará de 220 mil toneladas para 330 mil toneladas por ano.

A empresa corre para acompanhar o ritmo do mercado. A Camera opera uma usina de biodiesel em Ijuí, que produz 1 milhão de litros de biodiesel por dia a partir da soja. As plantas de soja da indústria em São Luiz Gonzaga e Santa Rosa têm capacidade para processar 2,5 mil toneladas e 1,6 mil toneladas diárias, respectivamente. “Mesmo com essas duas fábricas operando full, hoje não conseguimos atender à demanda de biodiesel. Temos de comprar óleo de fora”, diz Almeida.

O diretor da Celena Alimentos, Emilio Figer, destaca o fortalecimento de uma nova cadeia do agronegócio puxada pela canola. Graças ao combustível renovável, afirma, a cultura saiu de uma fase de “empurra” para a de “puxa”. “O biodiesel dá muita segurança e suporte para esse novo pulo daqui para a frente. Hoje, é uma cultura que o produtor botou no seu calendário de rotação, porque teve liquidez, melhoraram as práticas agronômicas, existem várias opções de sementes, novos tratamentos, fertilizantes foliares”, avalia o executivo.

A possibilidade de uso da canola para produção de combustível sustentável de aviação (SAF) também anima o setor. “O SAF não vem só da cadeia dos óleos, mas, se viesse, (a demanda) é mais do que o que se produz. Com a canola, estamos falando de 300 e poucos mil hectares. Para ela duplicar, triplicar, quadruplicar, ainda não é problema ter demanda, se você levar em conta o óleo para o biodiesel”, diz Figer.

Salto proporcionado pela tecnologia

Por trás do boom da canola dos últimos anos, estão pesquisas e avanços tecnológicos que permitiram à cultura prosperar nos campos gaúchos. Versão melhorada da colza, a canola é testada no Rio Grande do Sul desde os anos 2000, lembra o pesquisador em manejo de culturas da Rede Técnica Cooperativa (RTC, braço da CCGL), Tiago Hörbe. Mas foi apenas a partir da década de 2010 que entraram em cena híbridos mais resistentes à doença fúngica da canela-preta e à debulha natural das vagens da oleaginosa, problema comum antes ou durante a colheita e responsável por perda de grãos.

Com sede em Cruz Alta, a RTC desenvolve pesquisas com canola desde 2021. “O campo está mostrando que a cultura aumentou a produtividade. (Hoje), tem potencial para se colher até 60 sacas por hectare”, afirma Hörbe. São esses dados que baseiam as projeções mais otimistas para a safra deste ano, que apontam para uma área de cerca de 400 mil hectares plantados. No ciclo passado, segundo Hörbe, o rendimento médio das lavouras monitoradas pela RTC ficou em 1,8 mil quilos por hectare (30 sacas). Neste ano, ele aposta que alguns produtores poderão colher até 3 mil quilos por hectare (50 sacas).

Apesar dos números promissores, a canola pode causar estranheza ao produtor habituado ao plantio de soja e de milho. “É uma profundidade de semeadura bem distinta. É um grão muito pequeno em que você tem muitas perdas, aí começam os desafios”, explica o pesquisador. O manejo fitossanitário, no entanto, é considerado um pouco mais simples se comparado a outros cultivos. A planta requer atenção com a traça-das-crucíferas, e regiões mais frias do Estado são mais vulneráveis ao mofo-branco, doença causada pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum.

Hörbe destaca ainda que o plantio da canola em rotação de culturas com o trigo pode elevar em 12% a produtividade do cereal. “A canola tem um encaixe muito bom. Ela não vem para substituir o trigo, para substituir a integração lavoura-pecuária. Vem para somar”, afirma.

Beleza no campo e equilíbrio no caixa

Lauri Seifert incorporou a oleaginosa no sistema de rotação de cultivos da sua propriedade, em Ijuí

 Lauri Seifert incorporou a oleaginosa no sistema de rotação de cultivos da sua propriedade, em Ijuí | Foto: Lauri Seifert / Divulgação / CP

O produtor Lauri Seifert está iniciando a semeadura da canola pelo terceiro ano consecutivo. Focado na pecuária leiteira, que ocupa metade de sua propriedade de 200 hectares no interior de Ijuí, no Noroeste gaúcho, ele planta trigo e aveia há três décadas, mas a baixa rentabilidade proporcionada pelas últimas safras o levou a apostar na canola em parte da área reservada aos cultivos de inverno. O retorno foi tão positivo que ele incorporou a oleaginosa no sistema de rotação de culturas da propriedade, onde neste ano ela será plantada em uma área de 50 hectares. Para Seifert, é a “soja do inverno”.

“Todo mundo tem um pouco de receio, porque (a canola) deixa pouca palha para a cultura da soja (no ano seguinte). Mas eu, graças a Deus, consegui colher bem. A canola quebra o ciclo. No outro ano, o trigo já dá um pouco melhor”, avalia o produtor. Comparada a outros grãos, a implantação da lavoura de canola trouxe desafios. Um deles foi o plantio, que requer uma quantidade pequena de sementes, de 2 a 3 quilos por hectare, enquanto a experiência do produtor com a soja e o trigo aponta para volumes médios de 50 quilos e 200 quilos por hectare, respectivamente. “Então, é bem delicadinha para plantar”, resume Seifert.

Ele, porém, não tem queixas quanto à produtividade da canola. Em sua primeira safra, colheu 45 sacas por hectare. No ano passado, a colheita chegou a 50 sacas por hectare, e o custo da lavoura ficou em 17 sacas por hectare.

Para Seifert, esses números significaram uma forma de equilibrar as contas da fazenda, compensando o fraco resultado da pecuária. Com um rebanho de 330 vacas holandesas, sendo 170 em ordenha, a propriedade produz 43 litros de leite por dia por animal. Os baixos preços pagos pelo leite deixaram apertadas as margens de lucro do produtor, que sofreu perdas nas últimas safras de verão em razão das estiagens. “Nós já chegamos a ganhar R$ 4 (pelo litro de leite). Dias atrás, a gente ganhou R$ 1,98. Passei um dia muito difícil”, conta Seifert. Além da promessa de bom retorno financeiro, ele diz que o plantio da canola lhe traz uma motivação especial. “É uma cultura que enche os olhos. É lindo!”, afirma.

Fonte: CP