Acordo com a União Europeia pode reduzir preços no Brasil, mas efeitos devem levar anos
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia foi aprovado na última sexta-feira (9) pelos países que compõem o bloco europeu e pode ampliar o acesso a mercados, reduzir preços ao consumidor e estimular a modernização produtiva, mas também traz riscos para setores sensíveis da economia brasileira, avaliam especialistas. Além disso, os efeitos práticos do tratado não devem ser observados imediatamente.
Para o economista Maurício Bento, professor de economia internacional na Hayek Global College, o acordo funciona como uma alternativa ao isolamento comercial diante do fortalecimento de grandes potências globais.
Entre os benefícios, ele destaca a entrada de produtos europeus mais baratos e o incentivo à atualização de padrões produtivos. Em contrapartida, alerta para o risco de desindustrialização, possíveis interferências regulatórias e o uso de exigências ambientais como barreiras protecionistas, prática que classifica como “extorsão verde”.
Na análise do advogado e especialista em comércio exterior Felipe Rainato, o principal beneficiado nas exportações brasileiras tende a ser o agronegócio, que já concentra a maior parte das vendas do Mercosul para o mercado europeu. Segundo ele, setores como mineração, metalurgia, têxtil, calçados, móveis e energia também podem ganhar espaço.
No fluxo inverso, as importações europeias devem favorecer áreas como automotiva, bens de capital, tecnologia industrial, farmacêutica e equipamentos médicos, com potencial de modernizar a indústria nacional e reduzir custos.
O consumidor final também pode ser impactado positivamente, com a queda de preços de produtos tradicionais europeus, como vinhos, queijos e chocolates.
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argentina
uruguai

15:39H
ACORDO
Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços
Quem participa
Luce Costa/Arte R7
718
milhões
de pessoas
União Europeia
UE-MERCOSUL
Mercosul
Destaques em números
PIB combinado dos dois blocos
22
US$
trilhões
COMÉRCIO DE BENS
União Europeia vai eliminar tarifas sobre 95% dos bens brasileiros, com cortes imediatos ou ao longo de até 12 anos. Mercosul abrirá seu mercado para 91% dos produtos europeus, com prazos mais longos, que chegam a 15 anos.
Agronegócio
Carnes, açúcar, etanol, café e frutas ganham acesso preferencial à UE. As cotas terão tarifas reduzidas ou impostos zerados.
Cotas máximas para exportações do Mercosul
Carne bovina
Aves
Carne suína
Açúcar
Etanol industrial
Etanol para outros usos
Arroz
Milho
Mel
99 mil toneladas com tarifa de 7,5%
180 mil toneladas com tarifa zero
25 mil toneladas com tarifa de €83 por tonelada
180 mil toneladas com tarifa zero
450 mil toneladas com tarifa zero
200 mil toneladas com tarifa reduzida
60 mil toneladas com tarifa zero
1 milhão de toneladas com tarifa zero
45 mil toneladas com tarifa zero



Agroindústria
Produtos industrializados terão redução progressiva de tarifas ou margens de preferência (desconto).
Suco de laranja
Queijos
Iogurte
Manteiga
Cachaça
tarifas zeradas em 7 e 10 anos
30 mil toneladas
preferência de 50%
preferência de 30%
garrafas de até 2 litros terão livre acesso em 4 anos; cachaça a granel terá cota de 2.400 toneladas para imposto zero
Frutas
Para várias frutas frescas, o acordo prevê liberalização total, sem cotas nem tarifas.
Abacate, limão, melão, melancia, uva e maçã terão tarifas zeradas.
Indústria automotiva
O setor terá prazos mais longos de abertura, permitindo adaptação tecnológica e proteção aos investimentos.
Elétricos: 18 anos.
Hidrogênio: 25 anos.
Novas tecnologias: 30 anos.
O QUE MAIS PREVÊ O ACORDO
🤝O acordo também cria regras comuns para facilitar o comércio, reduzir custos e dar mais previsibilidade às empresas.
🥩O texto estabelece critérios de origem com menos burocracia, aduanas mais rápidas, uso de padrões técnicos internacionais e regras sanitárias mais claras para carnes e alimentos.
🏗️ O tratado mantém instrumentos de defesa comercial e salvaguardas contra surtos de importação, amplia o acesso a serviços e investimentos e abre licitações públicas na UE para empresas brasileiras.
🌱 O acordo também incorpora compromissos ambientais, trabalhistas e de empoderamento feminino, sem prever sanções comerciais automáticas.
👉 O acordo ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos dos dois blocos para entrar em vigor.
Efeitos práticos devem levar tempo
Segundo Fabio Ongaro, vice-presidente de finanças da Italcam (Câmara Italiana do Comércio de São Paulo), os primeiros efeitos econômicos mensuráveis devem surgir entre dois e quatro anos após a entrada em vigor efetiva do tratado.
“Esse período reflete o tempo necessário para a redução progressiva das tarifas, a adaptação regulatória, a reorganização logística das cadeias produtivas e a maturação de novos contratos comerciais. Os ganhos estruturais mais relevantes, no entanto, tendem a se consolidar apenas entre sete e dez anos, quando a maior parte das barreiras tarifárias e não tarifárias estiver efetivamente eliminada ou reduzida”, opina.
Ongaro destaca que, para os países da União Europeia, os principais beneficiários serão os segmentos de automóveis e autopeças, máquinas industriais, equipamentos elétricos, químicos, farmacêuticos e cosméticos, que hoje são penalizados por tarifas no Mercosul que chegam a variar entre 20% e 35%, de acordo com ele.
“A eliminação gradual dessas barreiras pode elevar as exportações europeias para a região em algo entre € 15 bilhões e € 20 bilhões por ano no médio prazo. Além disso, o tratado amplia o espaço para investimentos diretos, serviços e infraestrutura, reforçando a presença europeia na América do Sul em um contexto de crescente competição geopolítica com Estados Unidos e China”, explica.
Para o Mercosul, Ongaro estima que, no curto e médio prazo, os maiores ganhos concentram-se no agronegócio exportador, com destaque para carnes bovina e de frango, açúcar, etanol, suco de laranja e alimentos processados.
“Estima-se que o aumento das exportações agrícolas para a União Europeia possa variar entre € 8 bilhões e € 12 bilhões por ano após a plena implementação do tratado. Esse movimento tende a reforçar o superávit comercial do bloco e ampliar receitas externas”, comenta.
Fonte: R7