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Eleições 2022Geral

Cenário conturbado vai muito além da polarização

De olho no pleito de 2026 e na ampla fatia no eleitorado que não se identifica nem como de esquerda e nem como de direita, políticos de diferentes partidos passaram a apontar a polarização como causa do ambiente conflagrado instalado no Brasil. Ao mesmo tempo, se identificam como de centro, e se colocam desde já como alternativas moderadas à disposição dos eleitores no próximo ano.

A tentativa de alcançar sucesso com a apresentação recorrente da chamada terceira via, apontam cientistas políticos, faz parte dos processos eleitorais. Mas atribuir à polarização o conjunto de acontecimentos que se desenrola no país neste segundo semestre, não só é um equívoco, como banaliza o conceito, advertem.

“Na ciência política, a polarização existe quando a competição eleitoral, especialmente a do Executivo, está centralizada em duas preferências. A forma como o conceito vem sendo usado, contudo, reduz um contexto bastante complexo a um nível de simplicidade bem baixo”, resume o cientista político e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Paulo Henrique Cassimiro. “A polarização é normal em um sistema eleitoral majoritário com segundo turno. Mas o pessoal vem usando, digamos assim, ‘para tudo’”, completa o cientista político Augusto Neftali de Oliveira, professor da PUCRS.

Oliveira define o contexto atual como marcado muito mais pela movimentação antissistêmica de um único polo, do que por uma polarização entre extremos. “Quando um grupo para de fazer oposição apenas a seus adversários políticos e começa a fazer oposição ao sistema, busca mobilizar a população não contra um oponente político, mas contra a própria estrutura do sistema democrático, questionando diferentes pontos, como o sistema eleitoral, as prerrogativas do Judiciário ou as prioridades do processo legislativo, chamamos de comportamento antissistêmico”, explica.

É este comportamento, conforme os pesquisadores, o adotado por lideranças políticas e parcelas da população com posições mais extremadas à direita, e que constituem uma das fatias de um movimento que se convencionou chamar de bolsonarismo, em alusão ao papel central desempenhado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no seu crescimento.

Contradição marca atuação antissistema

Parte da estratégia do movimento é classificar como esquerdistas, extremistas ou autoritários setores da sociedade com posições opostas às suas. Mas que, na verdade, estão longe de integrar um polo oposto, que possa ser denominado de extrema-esquerda.

O exemplo mais visível, no momento, é o do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal de Federal (STF). Tachado de socialista, comunista, esquerdista e ditador, entre outros adjetivos, o ministro, na prática, tem uma trajetória vinculada ao centro político. Antes de chegar ao STF, por indicação do ex-presidente Michel Temer (MDB), foi secretário de Gilberto Kassab (PSD) quando este era prefeito da cidade de São Paulo, duas vezes secretário de Geraldo Alckmin, durante suas administrações à frente do estado de São Paulo, e ministro do Executivo federal quando Temer foi presidente.

“O Brasil, sem sombra de dúvida, vive em uma democracia. Também não existe uma ‘ditadura do Judiciário’. Se falarmos em polarização, apenas um dos polos é extremado. A grande massa política do Brasil está no centro. O congresso nacional é claramente dominado pelo Centrão. E o centro, obviamente, não é polar. Mas é fato que este movimento antissistêmico se mostrou lucrativo do ponto de vista político”, elenca Oliveira.

Ele lembra que, no último ciclo, entre a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e a ascensão de Bolsonaro, a polarização se dava ao redor do centro político. Um contexto no qual partidos adotam posições cada vez mais moderadas, com o intuito de conquistar os votos da maioria da população. “Porém, existem momentos, conjunturas ou eras críticos, em que o sistema político é altamente impactado por elementos externos ou crises internas, quando a competição se radicaliza, vai para as margens. É o que vemos no momento em relação a um movimento político no país.”

De acordo com Cassimiro, o fato de o Brasil não abrigar uma esquerda radical com possibilidade de sucesso eleitoral ou movimentos políticos fortes reforça a necessidade de cuidado com o uso do termo polarização. “Mas, apesar de ser descabida para descrever a atual situação, essa utilização ampla certamente continuará, porque faz parte da estratégia dos chamados liberais. Nela, defendem que existe um radicalismo na esquerda, um radicalismo na direita, e se colocam como alternativa moderada para os eleitores”, projeta.

Fonte: CP