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Ciência revela diferencial da própolis do Pampa

Em áreas de campo na região da Campanha do Rio Grande do Sul, especialmente em São Gabriel, foi identificada uma própolis nativa de cor âmbar que passou a ser coletada em apiários locais. O estudo deu origem a uma pesquisa coordenada pelo professor da Unipampa e biólogo Andrés Delgado Cañedo. Análises químicas e estudos laboratoriais revelaram composição singular, associada às espécies vegetais típicas do bioma e às condições ambientais da região.

As características únicas deste produto podem impulsionar financeiramente o setor na região, a partir da obtenção da Denominação de Origem, um selo de propriedade industrial (concedido no Brasil pelo Inpi) que identifica produtos cujas qualidades ou características são exclusivas ou diretamente ligadas ao seu meio geográfico, incluindo fatores naturais, como clima e solo, e humanos.

“O objetivo é trabalhar em 10 municípios da região para tentar dar Denominação de Origem e ver algumas características de produção local. Sair do nosso apiário e ver como a região produz, quanto produz, com que qualidade produz, onde a gente consegue produzir e, a partir daí, passar esses dados para o mercado”, observa Cañedo.

O trabalho do professor com apicultores no Pampa iniciou por volta de 2010. “Comentei com eles que estava fazendo pesquisa na área de oncologia e poderíamos ver o papel do mel, mas sabia muito pouco de apicultura. Entendendo que o Brasil era um dos protagonistas mundiais na produção da própolis e com um mercado milionário, eu questionei sobre a própolis daqui do Pampa”, relembra.

Os avanços das pesquisas do professor da Unipampa começaram a mostrar o potencial de propriedades da substância. “A própolis daqui, além de ter moléculas que funcionam como quimioterápico, tem moléculas que bloqueiam o sistema de defesa das células tumorais.” A coleta para estudo é feita no apiário da universidade, mas uma colaboração com produtores locais ampliaria a extração.

Preparação dos extratos da própolis do Pampa

 Preparação dos extratos da própolis do Pampa | Foto: Andrés Delgado Cañedo / Divulgação / CP

O projeto, que compreende hoje um número limitado de locais, pretende se expandir e, com isso, abranger diferentes produtores em uma área maior de municípios. Para isso, as chamadas boas práticas e a profissionalização desempenham papel fundamental na estruturação do projeto. O Sebrae atua na profissionalização, como relata Fabiano Nichele, analista de competitividade setorial, responsável pela cadeia do mel. “Os apicultores precisam ser profissionais. Geralmente esta não é a principal atividade da propriedade, mas precisa ser profissional. Por isso, realizamos projetos focados em exportação e trabalhos de qualificação”, explica.

Diversidade da flora

O Pampa ocupa aproximadamente dois terços do território gaúcho e se estende para além das fronteiras brasileiras, avançando sobre áreas da Argentina e do Uruguai. No Estado, ele desenha uma paisagem que, à primeira vista, pode parecer simples, com campos abertos, vegetação rasteira, poucas árvores e um horizonte contínuo. Porém, há grande diversidade na flora que brota, o que influencia diretamente na qualidade do mel e da própolis.

O nome própolis tem sua origem nas palavras gregas pro (defesa) e polis (comunidade), por se tratar de uma resina, tipo cera, usada pelas abelhas para a proteção da colmeia. É aplicado no reparo de frestas, no preparo de locais para a posição da abelha rainha e na mumificação de insetos invasores. Além disso, serve como antisséptico e mantém os níveis de temperatura e umidade. As resinas vegetais, que representam a maior parte de sua composição, são coletadas em brotos, flores, cascas de plantas e folhas. Cera de abelha, óleos essenciais, pólen, detritos de terra e madeira, também fazem parte da substância.

A própolis, que é também conhecida como “cola de abelha”, apresenta sua coloração determinada por sua origem botânica. No Brasil, o vermelho, do estado de Alagoas, e o verde, de Minas Gerais, são amplamente comercializados. Ambos já são reconhecidos não apenas por suas propriedades biológicas, mas também por sua procedência, graças à Denominação de Origem.

Redefinição de valor da apicultura no Estado

A Denominação de Origem da própolis âmbar é essencial para impulsionar a comercialização. Desde 2010, Alex Pedron Wancura produz “exclusivamente mel”, pois não percebe vantagem financeira na venda da cola das abelhas. “Ainda é considerado pelo mercado uma própolis comum. O projeto do professor Andrés pode agregar muito valor e estimular muito a produção. Eu até coleto própolis, mas de forma artesanal, não para comercializar”, conta o produtor de Cacequi.

Para obter o selo, é necessário um sistema de organização para visibilidade e reconhecimento legal. O deputado estadual Aloísio Talso Classmann, do União Brasil, é responsável pela Frente Parlamentar que trata do assunto. “Os dados obtidos pelo grupo de Pesquisa e Extensão em Apicultura do Pampa (ApiPampa), da Universidade Federal do Pampa, demonstram que a própolis âmbar tem atividade biológica equivalente às própolis verde e vermelha e, em alguns testes iniciais, até superior, especialmente na atividade antitumoral. Esse diferencial científico é o pontapé inicial para despertar o interesse do mercado global e abrir canais de exportação no curto e médio prazo”, afirma.

Na cidade, produtores criaram a associação Camel, que possibilita a extração da própolis.

“Todos os apicultores que coletam própolis coletam em pequena escala para fazer o extrato artesanal e vender no comércio local, em pequenas quantidades. Ninguém trabalha a própolis de forma comercial aqui em grande escala, justamente por não ter um atrativo de valor agregado. O projeto vai ser um incremento muito significativo para aqueles que tiverem desejo em produzir.”

Aos 13 anos de idade, Cláudio Nei Escobar Bandeira começou a aprender sobre o manejo das abelhas. Em São Gabriel, além da produção própria, ele é responsável por profissionalizar outros produtores. “É a Associação de Apicultores, com o objetivo de tirar o apicultor da informalidade”, diz. A coleta é local, realizada individualmente e aprimorada na associação, para futura comercialização, funcionando como um ponto de processamento adicional. Um benefício para os produtores.

Assim como para outros apicultores, a própolis âmbar representa, além de impulso financeiro, uma demarcação exclusiva, relacionada à territorialidade. Os produtos que carregam a D.O. levam consigo o reconhecimento de seu território. Seria o primeiro produto com selo produzido no Pampa a carregar a identidade de sua terra.

A relação entre natureza e economia se manifesta de forma clara na apicultura, atividade que há décadas integra o cotidiano de muitos produtores no Rio Grande do Sul. Tradicionalmente associada à produção de mel, ela se consolidou como uma fonte importante de renda complementar, especialmente entre pequenos agricultores. Mesmo ocupando posição importante no ranking de maiores produtores do país, o RS encontra dificuldade de rentabilizar a própria própolis, extraída das colmeias nativas da região.

Trabalho na criação da demanda

Em São Gabriel, a produção da própolis iniciou como complemento de renda dentro da empresa Zoom, de Edson Jobim, inicialmente voltada à produção de mel, como acontece com a maioria dos apicultores da região. “A gente começou com poucas caixas, mais para aproveitar o que já tinha de florada no campo”, conta.

Durante o manejo das colmeias, Jobim já observava a presença da substância, mas, como muitos produtores, não fazia a coleta de forma sistemática. “Sempre tinha própolis nas caixas, mas a gente não trabalhava com isso. Não tinha mercado, não tinha para quem vender”, explica. Foi a partir do contato com pesquisadores e projetos ligados à valorização da própolis âmbar que esse olhar começou a mudar. A possibilidade de transformar um material antes ignorado passou a fazer parte do planejamento da produção.

Hoje, a empresa ainda se concentra no mel, exportando. “A gente vende a granel, e daí segue para fora do país”, relata. Ele trabalha com o chamado híbrido, a cruza entre a abelha europeia e a abelha africana, que originou uma abelha resistente e produtiva. A aproximação com o projeto da própolis do Pampa trouxe uma nova perspectiva de produção e renda. “A Denominação de Origem vai gerar retorno para o apicultor e, consequentemente, vai haver uma demanda. Hoje, nós não temos uma demanda forte desse produto. Se tu processa uma própolis da nossa localidade, que é mais clara, tem uma certa rejeição do público consumidor, porque não conhece”, relata o produtor.

Produto nativo

Há 17 anos, Sipriano César Silva Pires trabalha com apicultura em Santana do Livramento, região que, assim como São Gabriel, está dentro da delimitação do projeto da própolis, pois é comprovada sua presença. As safras, ele conta, se dividem entre as estações. Na primavera e no verão, a safra é em maior quantidade, devido à abundância da vegetação nativa; já no inverno é preciso suplementar as colmeias para garantir sua nutrição.

“Essa é a maior safra que nós temos (primavera e verão), porque, como é uma grande quantidade de árvores, a produção é muito maior. Então, a gente tem o mel de florada de primavera, florada de verão, de mato nativo, e depois tem o mel de eucalipto, principalmente entre os meses de março e abril. Depois a gente migra as abelhas de volta para o mato nativo”, explica o produtor, que segue o sistema migratório.

Além da produção, Pires tornou-se presidente da Copamel, uma cooperativa que surge para além de uma associação de produtores anterior, fundada em 2008. “A Copamel surgiu para tentar sanar o problema da comercialização. Porque nós dependemos dos exportadores, que geralmente são de fora do Estado e vêm aqui, pagam o preço que eles estipulam, de acordo com o negócio que fazem fora do país”, expõe o apicultor.

Além do mel, a própolis comercializada por ele é a nativa. “Nós comercializamos a própolis daqui. Eu sempre acreditei no poder da nossa própolis. Queremos conseguir dar um valor agregado ao nosso produto e, consequentemente, fazer com que o apicultor tenha uma nova fonte de renda. Observamos uma evasão muito grande do campo. Então, que seja mais uma atividade que o produtor possa agregar com tudo que a natureza oferece para que ele consiga se manter no campo”, relata.

Diferentemente de outras atividades agrícolas, em que é possível intervir diretamente no processo, a criação de abelhas está profundamente vinculada ao comportamento da natureza. Períodos de estiagem reduzem a oferta de flores, comprometendo a produção, enquanto chuvas intensas dificultam o manejo das colmeias e podem causar perdas significativas. Mais recentemente, eventos extremos como enchentes agravaram ainda mais esse cenário, destruindo apiários inteiros e exigindo dos produtores não apenas adaptação, mas resiliência.

Material antes ignorado, agora passou a ser possibilidade de renda e a fazer parte do planejamento das produções no Pampa

 Material antes ignorado, agora passou a ser possibilidade de renda e a fazer parte do planejamento das produções no Pampa | Foto: Cláudio Nei Escobar Bandeira / Divulgação / CP

Culturas agrícolas estão ligadas às abelhas

Mais do que produtoras de mel, as abelhas são responsáveis por processos fundamentais como a polinização, que garante a reprodução de grande parte das plantas nativas e sustenta a continuidade da vegetação. Esse trabalho impacta no funcionamento do ambiente e nas atividades produtivas que dependem desse equilíbrio. Culturas agrícolas, plantas do Pampa e até a renovação natural da paisagem estão, em alguma medida, ligadas à presença desses insetos. O mel é produzido por elas através do néctar coletado nas flores, diferentemente da própolis, que tem origem em outras substâncias.

Caixas de abelhas já fazem  parte da paisagem do Pampa

 Caixas de abelhas já fazem parte da paisagem do Pampa | Foto: Associação Santanense de Apicultores / Divulgação / CP

Embora a abelha-europeia (Apis mellifera) seja a mais associada à produção comercial, o território gaúcho abriga uma variedade significativa de abelhas nativas, muitas delas sem ferrão. A bióloga Rosana Halinski faz parte do projeto Polinizando o Pampa, uma iniciativa da prefeitura de Rio Grande, em parceria com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e da empresa Halinski Soluções Ambientais, sendo executado com o Fundo Municipal do Meio Ambiente (UFMA). Ela chama atenção para essa abundância de espécies, ao destacar que o universo das abelhas vai muito além daquilo que se vê nas colmeias tradicionais. Segundo ela, cada espécie possui hábitos específicos, formas distintas de organização e estratégias próprias de sobrevivência, o que revela um sistema ecológico complexo.

“No mundo, existem mais de 20 mil espécies de abelhas descritas. Só no Rio Grande do Sul, a gente tem pelo menos 24 espécies de abelhas nativas sem ferrão”, explica.

Abelha sem ferrão  Jataí (Tetragonisca angustula)

 Abelha sem ferrão Jataí (Tetragonisca angustula) | Foto: Rosana Halinski / Divulgação / CP

O objetivo do projeto é promover a restauração ecossistêmica, com populações de abelhas nativas sem ferrão, influenciando diretamente na reprodução da flora através da polinização. O programa foi implementado em 2022 e é dividido em três eixos: produtores rurais, para a capacitação; escolas municipais, aproximando os alunos da espécie; e locais de visitação. “Assim, a gente pode contribuir com a sustentabilidade da região, compatibilizando alternativas de renda para os pequenos produtores locais, que ganharam caixas de abelhas Jataí (Tetragonisca angustula) para aprender a cultivar essas abelhas e a terem essa fonte de renda”, conta Rosana.

Autonomia dos produtores

Ao capacitar os participantes, é promovida a autonomia desses meliponicultores na criação da Jataí, realizando visitas mensais. A bióloga relata a compatibilidade da espécie com o projeto. “A Jataí é muito próspera, é muito indicada para ser a primeira colmeia, a primeira espécie de abelha a ser escolhida, porque ela faz um mel muito saboroso, em boa quantidade, e é de fácil manuseio e muito atrativa.” Os produtores selecionados para participarem estão divididos em três zonas do município do Sul do Estado.

Caracterizada por ser uma região de atividades voltadas à pesca, agricultura e agropecuária, a Ilha dos Marinheiros abriga Marilane Figueiredo Caseira, produtora de mel proveniente das abelhas Jataí. “Foi através do projeto que eu aprendi o manejo e consegui as abelhas.” A criação foi sendo construída de forma gradual. A produtora já havia tido contato com abelhas com ferrão por meio de seu pai, mas o cultivo próprio começou com cerca de 10 colmeias e, ao longo do tempo, ampliou o número por meio da divisão das próprias caixas, prática comum no manejo de abelhas nativas. Hoje, mantém em torno de 15 colmeias. “Elas são mais sensíveis. A gente tem que observar mais, entender o tempo delas”, explica Marilane.

A produção é familiar, e as atividades não se limitam à apicultura; a pesca e o cultivo de morangos também compõem a rotina de Marilane. As culturas da propriedade são voltadas à manutenção das abelhas.

“Elas precisam de bastante flor. Então a gente planta hortaliças baseado nas flores que elas precisam. Na hora de produzir, é uma caixinha de surpresa: tu vai abrir e vai ter mel, pólen e própolis. Um produto vai ter mais. O pólen é delas, mas o mel e a própolis posso usufruir.”

A comercialização dos produtos é local e a própolis é vendida in natura.

Entre quem pesquisa e quem está no campo, as expectativas em torno da própolis âmbar são altas. Mais do que um novo produto, reúne ciência, território e produção em uma mesma cadeia. Restrita a uma área específica do Pampa e ainda em processo de reconhecimento, carrega o potencial de transformar um recurso antes secundário em valor econômico e identidade regional, reposicionando a apicultura gaúcha a partir daquilo que nasce do próprio território regional.

*sob supervisão de Karina Reif

Correio do Povo