COLUNISTA MAURO FALCÃO – “A PROFUNDIDADE DO OLHAR”
Nossas convicções são as molduras da realidade; nós as construímos e compartilhamos a partir da profundidade do olhar que lançamos sobre o mundo.
Para o pragmático, uma simples caneta é apenas uma ferramenta de escrita. Para o pensador, um instrumento para imortalizar ideias. Em mãos resilientes, pode transmutar-se em uma arma de protesto pacífico ou em um último recurso de autodefesa diante do inesperado.
Contudo, se refinarmos a observação, as camadas se multiplicam. O físico nuclear nela enxergaria um denso aglomerado de átomos em constante vibração. O metafísico, indo além, observaria o vasto vazio que habita entre essas partículas. Já o teólogo identificaria, nesse mesmo vazio, a presença da matéria etérea divina. É a profundidade do olhar que determina a fidelidade com que deciframos a existência ao nosso redor.
Ocorre que, frequentemente, a superficialidade nos convém. Estacionamos na primeira camada da observação para satisfazer intenções imediatas ou inclinações perniciosas. Hesitamos em ultrapassar o limite que nós mesmos impusemos, pois o encontro com a verdade profunda gera um conflito interno inevitável — um embate que nos exige a revisão de dogmas e a corajosa mudança de atitude.
Nesse contexto, é preciso reconhecer que nem sempre a limitação do olhar ocorre por incapacidade individual, mas também por condicionamentos históricos e estruturais. Há fatores que obscurecem ou direcionam a nossa percepção, por vezes como uma forma de reserva de saber voltada à manutenção de poder.
Ao longo da história, religião e ciência desenvolveram uma convivência peculiar — não necessariamente de confronto direto, mas de cautelosa observação mútua, como forças que se reconhecem e se respeitam em seus domínios. De um lado, a religião tradicionalmente se debruça sobre as questões existenciais e sobre a dimensão não material do ser humano; de outro, a ciência avança com rigor sobre o corpo físico e suas leis.
Essa delimitação, ainda que produtiva em muitos aspectos, pode também funcionar como uma zona de conforto compartilhada, onde o aprofundamento em áreas sensíveis é evitado. Assim, ambas crescem, por vezes, como campos paralelos que raramente se tensionam em sua totalidade — não por incapacidade, mas porque o atrito pleno exigiria revisões estruturais profundas, cujas consequências poderiam desestabilizar fundamentos consolidados.
O acesso à verdade é democrático e universal, mas o que reside em nosso íntimo permanece sob nossa exclusiva jurisdição. A chave para ingressar nesse domínio e realizar as transformações necessárias encontra-se oculta nos labirintos de uma mente sintonizada com a evolução moral e espiritual.
Sem essa busca ativa pela essência, a caneta seria apenas um ente autônomo e sem propósito. Esqueceríamos o essencial: que por trás de cada traço, há um ser que pensa, escolhe — e responde pelas marcas que deixa no mundo.
Mauro Falcão, pesquisador e escritor brasileiro