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Como Janja e Michelle Bolsonaro influenciam a eleição presidencial

Para além da concorrência sempre ferrenha, da continuidade de candidaturas que mostram um país dividido ao meio, das acusações mútuas que vão tomar conta da campanha, da confusão dos palanques regionais, dos financiamentos, das pesquisas, dos escândalos, há uma situação inédita nesta corrida presidencial de 2026, e que pode impactar decisivamente a disputa.

O fato de que, pela primeira vez na história da República, duas primeiras-damas, a atual, Rosângela da Silva, a Janja, e sua antecessora, Michelle Bolsonaro, trabalham ostensivamente para influenciar, a partir de suas próprias ações e posicionamentos, a corrida pela presidência do Brasil.

Situadas em campos opostos do espectro ideológico, e com opiniões divergentes, pelo menos de público, sobre quase tudo, dos costumes a economia, Michelle e Janja comungam do fato de terem alcançado notoriedade e um posto de poder em função do casamento. E de, a partir daí, apesar de tantas diferenças, terem rompido com o tradicional script apresentado ao longo da história para as primeiras-damas: o da companheira discreta, que se ocupa das causas sociais e relacionadas a cuidados, e que não deve dedicar tempo ou pensamentos mais elaborados, muito menos opinar abertamente, sobre a política, deixando isto para os eleitos.

Na prática, o que ambas têm levado adiante, apesar das variações do discurso, adaptado para o eleitorado mais conservador ou progressista, ou pontuado por gestos sutis em direção aos campos opostos, é uma movimentação pelo aumento na participação e protagonismo das mulheres. Antes delas, Ruth Cardoso, nos anos 90, teve atuação relevante em políticas de governo, e se manteve em atividade como pesquisadora e intelectual reconhecida, mas não assumiu protagonismo eleitoral.

“Era um protagonismo diferente. A Ruth Cardoso não se deixou apagar. Mas este cenário atual, com Janja e Michelle, coloca luz na pauta da agenda pública sobre participação feminina. E quando a participação feminina vem para a agenda pública, as mulheres ganham muito. Há algumas décadas, o tema era restrito a grupos feministas, em geral universitários, e vistos, inclusive, de forma pejorativa por parcelas conservadoras da população”, recorda a professora titular do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Luciana Panke.

Já hoje, conforme Luciana, mulheres que se identificam como femininas, mas não feministas, apresentam questões semelhantes em relação a visibilidade, participação e direitos. E tanto Janja quanto Michelle estão assumindo protagonismo feminino, só que alicerçado em bases diferentes. “Não existe dizer que só uma mulher do campo progressista pode ser protagonista”, destaca.

Para além do espectro ideológico, a diferença, de acordo com a professora, no caso das primeiras-damas, é que Janja já possuía histórico de atividade partidária e atuação profissional, e desde o início da gestão Lula foi ativa politicamente, tentando articular e influenciar. Já Michelle inicialmente ficou em uma esfera mais restrita ao grupo conservador, assumindo mais a pauta de cuidados, e mostrou influência de forma gradativa, ganhando maior estatura após o marido deixar a presidência.

“As duas são figuras emblemáticas, que quebram a ideia de primeira-dama como um acessório do marido. É um contexto que inclui: a ruptura de ambas com o estereótipo de gênero sobre o que se espera de uma primeira-dama; o suprimento de um espaço de poder contíguo, após a presidência da República já ter sido ocupada por uma mulher; e um cenário atual de personagens criados, que ganham gosto popular para além da política partidária, como se fossem celebridades”, completa a professora Déborah Vieira, do Núcleo de Comunicação e Humanidades da Universidade Vale do Rio Doce (Univale), de Minas Gerais.

Segundo Déborah, a mudança não acontece só porque Janja e Michelle são mais ativas. Mas, também, porque existe uma alteração na postura do eleitorado. “As mulheres decidem a eleição”, resume. Dados atualizados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que as mulheres hoje representam 52,84% do eleitorado no Brasil, o que significa um contingente de 83.887.672 eleitoras. Elas são nove milhões a mais do que o total de homens aptos a votar no país.

A movimentação da atual e da ex-primeira-dama não vem despertando a atenção apenas na academia. Entrou no radar de jornalistas, analistas políticos e institutos de pesquisa. A plataforma Uol Prime, por exemplo, lançou na segunda, 6, um podcast sobre Michelle. A última sondagem da Meio/Ideia sobre a corrida presidencial, divulgada na quarta-feira, 8, não se restringiu aos índices dos ainda pré-candidatos. A pesquisa, executada pelo Instituto Ideia, encomendada pelo Canal Meio e registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-05628/2026, incluiu na rodada um questionamento para que os entrevistados respondessem livremente quem consideravam a mulher mais poderosa do país: 15,4% cravaram o nome de Michelle Bolsonaro. Janja foi a segunda mais citada, com 9%.

Em que pese Janja ser a atual detentora do posto, e de, no decorrer dos últimos três anos e meio, ter colecionado embates e polêmicas, não raro em função da insistência em fazer valer suas vontades e opiniões, as referências à Michelle explodiram nas últimas semanas porque ela demonstrou ter um conhecimento sobre o jogo eleitoral e de poder que costuma ser privilégio das chamadas ‘raposas políticas’. O termo é usado para designar, em política, atores experientes, sagazes, e que conhecem em profundidade bastidores e fragilidades de aliados e adversários.

O que alçou Michelle a tal patamar foi a divulgação dos vídeos nos quais ela rompe publicamente com o enteado Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência pelo PL, partido de ambos, fazendo uma série de críticas a ele, e relatando situações que considerou como de humilhação e desrespeito.

Desde então, ela deixou a presidência do PL Mulher, ameaçou não mais disputar uma cadeira ao Senado pelo Distrito Federal e implodiu a possibilidade de ser vice na chapa de Flávio. Mas também causou um terremoto na direita, dividiu o bolsonarismo, se distanciou de qualquer novo escândalo que venha a atingir o enteado e voltou a ser apontada por parte de analistas e aliados como uma opção que poderia ter sido mais palatável para a presidência da República.

“Michelle foi extremamente estratégica. Após os vídeos, se o barco afundar, ela consegue pegar um bote. Sabe o que está fazendo e conseguiu converter tanto sua atuação que, em termos de capital político, visibilidade e potencial eleitoral, no momento, é até mais forte do que Janja”, projeta Déborah.

Fonte: CP