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Dupla Gre-Nal amplia espaço de acolhimento para torcedores autistas

A apresentação de Luis Suárez foi uma data muito especial para os torcedores do Grêmio. Não à toa, 32 mil gremistas estavam lá naquele 4 de janeiro de 2023. Para o casal Adriana e Jardel Pires, no entanto, aquela data teve um valor muito mais alto. O dia significou a ida da filha Lorena ao estádio gremista pela primeira vez. Autista de nível três, a menina assistiu à festa e permaneceu lá durante toda a celebração.

“Ela ficou direitinho. Claro, eu precisei ficar andando com ela porque a Lorena tem rigidez de movimento, mas deu tudo certo”, lembra ela. Não era uma vitória qualquer. Mais que isso, era um primeiro passo que agora, com ajuda de clubes como Grêmio e Inter, deve integrar cada vez mais torcedores autistas com seus clubes do coração.

Durante os mais de 20 anos de casados, Adriana e Jardel acompanharam o Grêmio em partidas dos mais variados campeonatos. Tricolores de uma vida toda, há cinco anos tiveram a primeira filha. Um tempo depois, veio também o diagnóstico de autismo da menina. E aí os gramados tiveram que ser deixados de lado e precisaram se adaptar às necessidades da Lorena.

Inspiração veio da torcida do Corinthians

Em 2022, uma faixa em um jogo do Corinthians, na Neo Química Arena, chamou atenção da Adriana. Era do grupo “Os Autistas Alvinegros”, primeira torcida do transtorno do espectro autista (TEA) do Brasil. “Essa é a luz que a gente precisava”, pontua ela. No mesmo ano, o casal decidiu iniciar um projeto, chamou algumas famílias e criou um perfil no Instagram. Assim, surgiu o “Grêmio Espectro”, torcida autista do Tricolor.

“Talvez para vocês não faça tanto sentido, mas falar de inclusão para nós é uma necessidade. É uma necessidade de futuro para minha filha. Eu preciso que ela seja vista, que ela seja respeitada, que as pessoas entendam que ser diferente é justo, que eu vá ao estádio de futebol e que eles acolham as necessidades dela”, observa, emocionada, Adriana.

Conforme a torcida foi crescendo, ela passou a fazer várias menções do Grêmio nas redes, com o objetivo de chamar atenção para a causa. A página foi notada pelo clube e o projeto da criação de um espaço destinado a pessoas que possuem TEA, coordenado pelo vice-presidente do clube, o psiquiatra Gustavo Bolognesi, teve início.

Em novembro de 2023, na partida entre Grêmio e Bahia, a sala sensorial foi inaugurada. “É uma estrutura do tamanho que a causa merece, do tamanho que o Grêmio merece. O Grêmio tem responsabilidade. Quando encosta a coisa fica grande. Então, se o Grêmio chama a atenção para isso, no mínimo 10 milhões de pessoas olham”, comenta o médico. Localizada no camarote 52 da Arena, o espaço tem capacidade para 40 pessoas e possui espaços lúdicos e alternativos para as crianças, além do seu diferencial, o revestimento de redução de ruído.

Beira-Rio também conta com área exclusiva

O espaço na Arena dedicado aos autistas não é único em termos de futebol na Capital. Os Autistas Alvinegros também influenciaram o lado vermelho. Jeison Reinheimer, colorado, pai de Ítalo, autista de nível três, descobriu a torcida corintiana em 2022 pela Internet. Veio então a dúvida se havia algo do tipo no Beira-Rio. “O Inter, meu time de coração, não tinha. Aí olhei do Grêmio e tinha. Daí pensei: ‘Bom, não tem, pois agora vai ter’”, comentou Jeison. E assim, foram criados os “Autistas Colorados”.

Junto da então diretora do Departamento Feminino de Inclusão Janice Cardoso e das conselheiras Lani Brito Fagundes e Tamarisa Lopes, o projeto cresceu e começou a ser pensada a sala sensorial colorada. O espaço, localizado na Tribuna Norte do Beira-Rio, foi inaugurado no último jogo do Brasileirão de 2023 (Inter x Botafogo), com 16 lugares.

Objetivo é ampliar a capacidade no estádio

A ampliação da sala é um dos objetivos do clube, para abranger mais famílias, e muitas vezes, trazê-las de volta ao campo. “Essas família muitas vezes não têm onde conviver. O pai e a mãe são colorados e gostam de assistir e quando descobrem que o filho é autista, entram naquele período que parece que eles nunca vão conseguir voltar no espaço público, ou nesse caso, no estádio de futebol”, diz Tamarisa.

A ida ao estádio não é uma tarefa fácil para as famílias, já que a mudança na rotina é um empecilho para alguns autistas. No caso de Ítalo, a experiência se deu no Dia dos Pais e durou 20 minutos. “Foi um presente Dia dos Pais. Pensei, vou levar e se ele, no estacionamento quisesse ir embora, tudo certo. Ele foi, entrou, tem até uma foto dele olhando para o jogo. Ficou 20 minutos, então está tudo certo sabe, eu não esperava que ele fosse agora”, comenta Jeison.

Segundo o CDC, uma a cada 36 pessoas é autista

O resultado em campo pode ser um problema para os autistas, pois muitos têm dificuldades de compreensão. “Um jogo de futebol é muito imprevisível, isso pode ser positivo, e negativo. Por exemplo, quando o time perde ou quando eles não têm aquela expectativa atendida”, aponta o médico psiquiatra da infância Alceu Gomes Correia Filho, funcionário do Certa (Centro de Referência do Transtorno Autista).

Os indivíduos que possuem o diagnóstico do espectro autista de nível três são os que possuem maiores dificuldades de comunicação. “Implica situações mais intensas. O diagnóstico consiste na dificuldade de comunicação e socialização, rigidez cognitiva maior para situações que mudam as rotinas e outros transtornos associados, como déficit de atenção (TDAH) e hiperatividade. Podem também acontecer alguns casos de alguma deficiência intelectual”, explica Alceu.

O transtorno do espectro autista têm crescido gradativamente ao passar dos anos. De acordo com o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), uma a cada 36 pessoas é autista. A inclusão desse grupo dentro dos estádios e de ambientes públicos é escassa. As salas sensoriais são uma pequena forma de incluir tanto os indivíduos com TEA quanto seus familiares. “Não fiz a sala pensando no meu filho hoje. A gente pensou nessa sala para ter a possibilidade de os pais poderem levar seu filho ao estádio”, diz Jeison.

Fonte: CP