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Entenda como a privação do sono pode prejudicar a imunidade

De acordo com estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), 72% dos brasileiros sofrem de doenças relacionadas ao sono, como a apneia do sono, distúrbios comportamentais do sono e, principalmente, a insônia. Seja pelo estilo de vida, questões psicológicas ou pelo uso excessivo de aparelhos como o celular, muitas pessoas acabam sacrificando algumas horas para dormir, o que pode trazer prejuízos para a imunidade.

Elisa Pape, de 39 anos, moradora de Arroio do Tigre, começou a ter problemas com o sono por conta da depressão e da ansiedade, e precisa tomar medicação para dormir. “Afeta muita coisa em uma pessoa, e tem transtornos em várias partes. Afeta corpo, mente e sono”, diz. Em tratamento com psiquiatra, foi aconselhada a realizar exame de polissonografia para identificar o que acomete seu sono.

Um importante exame que identifica alterações e problemas com o sono é a polissonografia, que realiza a análise detalhada, mediante exame de uma noite inteira. Por meio do processo, são analisados estudos da apneia do sono, ronco, insônia, bruxismo, pernas inquietas, entre outros problemas relacionados à área, podendo ser monitorados e identificar como está a qualidade do sono. “Isso nos permite apontar para outros estudos de problemas de sono que essa pessoa eventualmente possa ter, e aí é feito o devido encaminhamento”, diz o pneumologista Eduardo Garcia, médico do Laboratório do Sono do Hospital Santa Casa de Porto Alegre.

Exame de Polissonografia, Elisa Graciela Pape, 39 anos de Arroio do Tigre.

 Exame de Polissonografia, Elisa Graciela Pape, 39 anos de Arroio do Tigre. | Foto: Fabiano do Amaral

A vinculação entre o sono e o sistema imunológico é complexa, e não totalmente conhecida. As duas áreas são amplas e bastante estudadas por pesquisadores. O que se sabe é que o processo de dormir contribui para a limpeza de impurezas do cérebro, que são acumuladas durante o dia. “Dormir nos ajuda na produção de hormônios, regula a atenção, memória, o reconhecimento de estresse e também a imunidade”.

O pneumologista lembra que o sono é uma necessidade biológica. “O sono é uma parte fundamental da nossa vida. Como a gente se alimenta, como a gente toma sol, como a gente bebe água, a gente tem que dormir”, afirma. Ele acrescenta que, como para todos os mamíferos, o sono é parte integrante da vida por várias funções, e uma delas é preservar o sistema imunológico.

Um sono de qualidade auxilia, portanto, no papel de regular a produção e o uso adequado das respostas de imunização. “O sono permite a regulagem hormonal e, também, a produção de células que são importantes, que seriam os nossos ‘soldadinhos’, do sistema imunológico”, diz o pneumologista.

Dormir mal prejudica a imunidade, já que é durante o sono que o sistema imunológico se recupera. “Na atualidade tem dois grandes problemas: apneia do sono e ronco, que é muito, muito, muito comum, eu diria, o mais frequente entre queixas”, afirma o doutor. “Hoje o sono ruim e a privação de sono são mal do milênio, da idade atual”, diz Garcia.

As consequências são sentidas a curto e longo prazo. Sintomas como cansaço, fadiga, perda de memória, redução de foco, são alguns deles, lista o doutor. Porém, também pode favorecer doenças cardiovasculares, pressão alta, aumento da chance de isquemia – redução ou interrupção do fluxo sanguíneo para uma determinada área do corpo -, piorar o metabolismo, e contribuir para o ganho de peso. “Com certeza essa pessoa vai ter prejuízo em várias áreas. Vai envelhecer mais com a vai ter problemas de memória a curto e médio prazo, problemas de metabolismo, cansaço crônico e aumento de risco de doença neurológica”.

Uma coisa pode não estar diretamente ligada à outra, já que os sintomas podem indicar outros problemas e doenças, mas as doenças são as mais identificadas no leque das complicações da má qualidade do sono, atesta Garcia.

De acordo com a Associação Brasileira de Sono, o sono insuficiente ou a má qualidade dele gera consequências significativas para a saúde e o desempenho cognitivo. Ainda, que as condições estão associadas a lapsos de memória, dificuldades de concentração, redução na capacidade de resolução de problemas e lentidão no pensamento. Esses efeitos não só comprometem a saúde e o bem-estar, mas também resultam em uma diminuição significativa do desempenho e da produtividade no trabalho.

Até mesmo a imunização proveniente de vacinas pode ser afetada pela má qualidade do sono, atesta Garcia. Ele relata que um experimento consistiu em vacinar contra a gripe um grupo de pessoas que tivessem dormido 8 horas, e outro grupo que não teria dormido na noite anterior. Após a aplicação, analisaram a formação de anticorpos, e foi constatado que sistema imunológico foi prejudicado pela privação do sono.

Qual o horário ideal? Não existe, explica especialista

À medida que as pessoas envelhecem, as horas necessárias de horas de sono diminuem. Enquanto um bebê recém-nascido pode tranquilamente precisar de 16 até 18 horas de sono, uma pessoa idosa pode se satisfazer com 5 horas de sono em média, explica o pneumologista. “Existem pessoas que dormem pouco, seja de forma voluntária ou involuntária, e existem uns que dormem pouco por escolha. Existem os que dormem pouco por trabalho, e os que realmente têm problemas de sono”, diz.

O número de horas, porém, não é uma regra para todos, ele salienta. “Algumas pessoas têm necessidade de 9, 8 horas, ou mesmo mais do que esperado pela sua faixa etária. E tem um percentual da população que com 5 ou 6 horas se satisfaz plenamente, sem prejuízo”, diz. Portanto, apesar de ser uma tendência, cada ser humano tem sua própria necessidade.

O ciclo do sono envolve fatores biológicos ou são relacionados com o estilo de vida? É um pouco de tudo, diz Garcia. Pode envolver desde um hábito familiar até alterações na personalidade, no humor e no ritmo diário, dependendo da pessoa. Ainda, mecanismos externos, como o uso de estimulantes do sistema nervoso central – como chá preto, chocolate, medicamentos e outros condicionantes que aumentam a tensão mais elevada e que interferem no sono.

Dicas para respeitar o sono

Existem práticas do dia a dia que podem auxiliar tanto para melhorar o sono quanto para prevenir insônias, conhecidas como “higiene do sono”. Confira, abaixo, algumas dicas defendidas por especialistas:

  • Criar uma rotina de sono, deixando bem definidos horário de dormir e acordar. Essa prática contribui para sinalizar ao cérebro que o corpo irá relaxar;
  • Evitar luzes fortes antes de dormir, para que o corpo entenda que é o momento de relaxar. Portanto, evitar uso de celular, TV e outros meios que emitem luzes azuis, que possam interferir na produção de melatonina no corpo, hormônio que prepara o corpo para dormir. Ainda, manter o ambiente com uma iluminação adequada e sem poluição sonora;
  • Evitar alimentos, bebidas, medicações e outras drogas estimulantes antes da hora de dormir, como cafeína, álcool, tabagismo e descongestionantes. Alimentos pesados podem causar efeitos gástricos e prejudicar o sono. O recomendado é priorizar alimentos leves.
  • Limitar o tempo de cochilos ao longo do dia. Tirar um tempo para cochilar pode ser benéfico, mas é importante não estender o período, já que pode interferir no sono à noite.

Fonte: CP