Porto Alegre faz 253 anos: como a cidade se reorganiza após a maior tragédia climática da história e prepara o futuro
Ainda é tão recente quanto dolorosa a cheia histórica que atingiu mais da metade dos bairros de Porto Alegre. Natural, portanto, que permaneça como assunto ressoante em nossa sociedade e que se apresente como pauta também neste aniversário da Capital.
Dos dias de emergência aos festejos pelos 253 anos, Porto Alegre se refez e, apesar da obviedade de que há muito ainda a reparar, assim como ocorreu em outras situações de dissabores, a cidade retomou o seu cotidiano.
São muitas as estruturas públicas que ainda precisam de intervenções para repor o que foi perdido ou assegurar que no futuro o sistema de prevenção contra cheias funcione da forma como foi concebido.
O primeiro passo estrutural dado após a inundação foi um dos mais simbólicos e permanece em uso. O corredor humanitário, que permitiu a religação da Capital com o resto do Estado, será uma solução viária permanente. A prefeitura ainda trabalha na licitação para adequar o sistema.
O projeto prevê melhorias na segurança e a demolição da passarela que dá acesso à Estação Rodoviária, parcialmente derrubada e atualmente sem serventia. O edital para o corredor está pronto, segundo o secretário de Obras e Infraestrutura da Capital (Smoi), André Flores e será publicado nos próximos dias.
A criação do Escritório de Reconstrução e Adaptação Climática, ainda em 2024, também foi estratégico para a coordenação das ações pós inundação. Além de organizar a infraestrutura e a mitigação dos impactos sociais e econômicos, a pasta passou a tratar da preparação de Porto Alegre diante das transformações ambientais.

Corredor humanitário. | Foto: Fabiano do Amaral
No primeiro momento, o escritório focou em diagnósticos, agora trabalha com indicadores de desempenho e auxilia na captação de recursos financeiros nacionais e internacionais. Outro foco é integrar as secretarias da administração municipal na execução dos serviços necessários.
“Desde a enchente temos o esforço integrado de diferentes equipes técnicas. O Escritório auxilia as secretarias em suas demandas como projetos, orçamentos e captação de recursos, incluindo apoio à iniciativa privada”, resume o coordenador do eixo de Infraestrutura da Pasta, Alex Souza.
As primeiras intervenções ocorreram depois de o Guaíba baixar ocorreram nas áreas da educação e da saúde. Escolas e unidades de saúde foram as estruturas públicas mais atingidas.
“Alguns destes prédios foram comprometidos ao ponto de que não servem mais, terão que ser reconstruídos”, cita Souza.
É o caso da Unidade de Saúde da Ilha Grande dos Marinheiros. Enquanto não for entregue a nova sede, os moradores da região são atendidos em outras unidades próximas.
Para que a recuperação seja mais rápida, Porto Alegre também adotou parcerias com empresas privadas. Isso permitiu, por exemplo a recuperação da Escola Municipal de Educação Básica Doutor Liberato Salzano, a maior da rede municipal, com 1,6 mil alunos. O prédio foi recuperado e reaberto em janeiro deste ano com doações de R$ 9 milhões diversas empresas privadas, dentre elas a Ambev, Gerdau e Movimento União BR.
É também a situação das orlas de Lami e Ipanema, que ainda passam por reconstrução. Os trabalhos foram iniciados em outubro do ano passado, com parceria privada, e têm conclusão prevista para o segundo semestre de 2025. As intervenções têm orçamento de R$ 10 milhões.
“Estas são grandes obras. Teremos uma estrutura mais reforçada para resistir melhor, recuperação de calçadão e áreas de lazer”, detalhou o coordenador do Escritório de Reconstrução.

Pôr do sol na Ponte de Pedra, no Largo dos Açorianos | Foto: Pedro Piegas
R$ 6 bilhões em financiamentos
A prefeitura obteve, por meio de empréstimos em bancos nacionais e internacionais, governo federal e contrapartidas. Destes valores, O financiamento de R$ 1 bilhão do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por exemplo, deverá ser empenhado em três setores: educação, saúde e assistência social. A previsão é de que os recursos sejam utilizados para reforma e ampliação do Hospital de Pronto Socorro (HPS) e do Hospital Materno Infantil Getúlio Vargas; na construção de três espaços comunitários e esportivos; na construção de 23 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e 23 Centros de Referência de Assistência Social (CRAS); e na reforma de 18 escolas de educação infantil, além de outras ações.
Já os recursos contratados com o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e com a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) – que somam 162 milhões de euros – devem ser direcionados somente para a revitalização do Centro Histórico e Quarto Distrito. Os valores serão empenhados em macro e microdrenagem, novas redes de escoamento, reformas em casas de bombas, qualificação do espaço urbano e revitalização do patrimônio histórico, novos projetos de transporte coletivo e novas praças de lazer.
Enquanto isso, os US$ 80 milhões conquistados junto do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF) serão usados, entre outros, para a criação de três centros comunitários nas três regiões mais afetadas pelas enchentes: Ilhas, Humaitá e Sarandi. O padrão dos centros será o mesmo utilizado em Recife.

Prédio da Secretaria da Fazenda é uma das estruturas da região central ainda em recuperação | Foto: Fabiano do Amaral
Comércio de volta
A vida econômica também se reorganiza. De acordo com a prefeitura, o impacto da cheia na arrecadação ultrapassou os R$ 600 milhões no último período. O plano de reconstrução para o comércio focou principalmente no Centro Histórico e no Quarto Distrito. De acordo com o Escritório da Reconstrução, a ideia é manter os empresários e atrair novos empreendimentos nestas regiões.
Apesar de muitos imóveis ainda vazios na área central, o presidente do Sindicato da Habitação do Rio Grande do Sul (Secovi-RS), Moacyr Schukster, afirma que o mercado imobiliário segue movimentado. Segundo ele, a paralisação nas vendas ocorreu apenas no período imediato à enchente, mas os negócios voltaram a ser fechados desde então.

Avenida Farrapos é um dos locais da cidade que concentram maior número de comerciantes atingidos | Foto: Fabiano do Amaral
O DMAE também é parte estratégica da retomada da Capital. Está com o Departamento a missão de revisar toda a estrutura de contingência contra cheias. Além disso, a prefeitura afirma que mais de 90% das tubulações afetadas pela enchente – 474 quilômetros de galerias – foram limpas e revisadas.
Em janeiro, o município deu por finalizada a primeira etapa da elevação do dique do Sarandi. No bairro, um trecho de 1,1 quilômetro entre as Estações de Bombeamento de Águas Pluviais (Ebaps) 9 e 10, do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), foi elevado à cota de 5,8 metros. A estrutura de proteção foi reforçada com argila e pedras no ponto em que cedeu durante as cheias, na Vila Brasília, até a margem da BR 290.
Além disso, está em andamento a elevação do dique que contorna a sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs). Os serviços começaram em 30 de agosto e devem se estender até o fim deste mês.
Está incluso o fechamento definitivo de comportas, como já ocorreu com a passagem número 3, na esquina entre a avenida Mauá e a rua Padre Tomé, substituída por muro de concreto armado. E uma concorrência pública está aberta para a contratação da empresa que fechará definitivamente as passagens 8, 9, 10 e 13.
Docas do Cais Mauá forma uma das paisagens mais emblemáticas da Capital | Foto: Ricardo Giusti
Como será o amanhã?
Agora, Porto Alegre precisa pensar no futuro. Muito se falou durante o período de crise sobre aprendizado e legado. Talvez o mais importante é tornar a cidade mais sustentável e resiliente para não sofrer da forma que sofreu no histórico maio de 24.
Debates sobre a poluição do ar e do Guaíba, da potabilidade da água, da revisão de práticas e melhores condições de saneamento e habitação indicam um caminho. A questão agora é como permitir o crescimento urbano reduzindo seus impactos.
Asfalto e cimento estão entre as barreiras que dificultam que a água se infiltre no solo e baixe com mais rapidez em caso de alagamentos, e a busca por alternativas ganhou ainda mais urgência.
Regiões de Porto Alegre antes pouco arborizadas receberam ações que buscam mudar não apenas a paisagem, mas reduzir a temperatura média e dar mais capacidade de absorção ao solo. De acordo com a Secretaria de Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade da Capital (Smamus), bairros da zona Norte da cidade, somados a Bom Fim, Praia de Belas e Cidade Baixa receberam 3,5 mil árvores nos últimos meses.
O plantio envolve outro benefício, entre eles a abertura de canteiros em calçadas antes totalmente cobertas por cimento ou outro tipo de pavimento que impede a absorção da água.
“Tivemos 134 parques e praças atingidos, todos já recuperados. Nossa ideia agora é focar em regiões mais vulneráveis, com maior demanda por arborização”, afirma o coordenador do eixo de Infraestrutura do Escritório de Reconstrução e Adaptação Climática, Alex Souza.
O caminho, conforme o gestor, é pensar obras com capacidade de absorver água, reduzir emissões de carbono e mais resistes aos impactos de fenômenos climáticos.
Mais que o sistema de proteção, reforços em casas de bombas e diques, transporte e outras atividades do cotidiano precisam ser revistas. Nesse contexto, Porto Alegre está revendo seu Plano Diretor – documento que norteia como, para onde e de que forma o município pode e deve crescer. O texto está em discussão e deve Chegar à Câmara de vereadores até o fim do primeiro semestre deste ano, de acordo com o Escritório da Reconstrução.
253 Anos de Porto Alegre. Fotos obtidas a partir da Ilha da Pintada no Estaleiro Green Card
Fonte: CP