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Veja cinco setores da economia gaúcha que podem sentir os efeitos da crise no Oriente Médio

escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã desencadeou uma nova crise no Oriente Médio e colocou a economia global em alerta. O principal foco do mercado é a interrupção do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.

Pela sua posição estratégica, o estreito é rota essencial para o abastecimento de Ásia, Europa e Américas. A paralisação do fluxo representa um choque imediato na oferta de energia e pressiona indústrias, transporte e mercados financeiros.

“Imagina que, de uma hora para outra, diminuímos em 20% o suprimento de energia do mundo. Isso é muito forte. Significa que as organizações, as indústrias terão menos energia”, afirma o economista Moisés Waismann, professor da UniLaSalle.

A instabilidade já elevou fretes e seguros internacionais e alterou rotas aéreas. Na prática, isso encarece importações e reduz a competitividade das exportações brasileiras. Segundo o economista, os reflexos no Rio Grande do Sul tendem a acompanhar o cenário nacional, já que a economia gaúcha está integrada às cadeias globais.

1. Agronegócio pode sofrer maiores impactos

O agronegócio é o principal ponto de atenção. Parte dos fertilizantes nitrogenados, como a ureia, depende diretamente do preço do gás e do petróleo. Com energia mais cara, o custo de produção de produtos como soja e milho sobe. Como esses grãos são base da ração animal, há efeito em cadeia sobre carnes, leite e ovos.

Além disso, o diesel mais caro pressiona o frete rodoviário até os portos, reduzindo as margens do produtor. Waismann resume como “penalização dupla”: custo maior na lavoura e no transporte. Caso a instabilidade se prolongue e afete o comércio internacional, o Estado pode registrar menor entrada de dólares, com efeitos sobre renda e arrecadação.

Especialistas ouvidos pelo Correio do Povo avaliam que o cenário exige cautela e monitoramento constante, já que os efeitos econômicos tendem a depender da duração do conflito e da reação dos mercados internacionais.

Outros setores sensíveis

2. Implementos agrícolas e máquinas

O setor gaúcho de máquinas e implementos agrícolas é pressionado por dois movimentos. No cenário internacional, o esforço de guerra eleva a demanda por aço, insumo essencial para a indústria, o que pode reduzir a oferta e aumentar preços. Como a produção depende fortemente de energia, a alta do petróleo encarece ainda mais a matéria-prima.

Além disso, com margens mais apertadas no campo, produtores tendem a adiar a compra de equipamentos. Isso pode desacelerar a indústria metalmecânica, especialmente no noroeste do Estado.

3. Setor coureiro-calçadista

Tradicionalmente voltado à exportação, o setor calçadista está entre os mais expostos às oscilações externas.

O impacto ocorre em três frentes: na logística internacional, com fretes e seguros mais caros que reduzem a competitividade do produto gaúcho no exterior; na estrutura de custos, já que parte dos componentes deriva do petróleo, o que pressiona a produção; e no consumo doméstico, pois, em um cenário de alta de alimentos e combustíveis, as famílias tendem a priorizar despesas essenciais, reduzindo a demanda por calçados.

4. Vestuário

O setor de vestuário enfrenta dinâmica semelhante à do calçadista, porém com maior dependência do mercado interno. Em um cenário de inflação de custos, o orçamento das famílias é direcionado a itens básicos, como alimentação e transporte, reduzindo a renda disponível para roupas.

Com isso, o comércio desacelera, estoques aumentam e a produção é ajustada. Pequenos lojistas e confecções tendem a sentir rapidamente o impacto, especialmente na Região Metropolitana de Porto Alegre.

5. Polo petroquímico

O efeito é mais direto no polo petroquímico, já que o petróleo é base da cadeia, influenciando desde resinas plásticas até insumos industriais utilizados por diversos segmentos.

Além da volatilidade do barril, a instabilidade em rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, pressiona custos logísticos e amplia a incerteza nos contratos. Com isso, margens ficam mais estreitas e investimentos podem ser adiados.

Inflação de custos e o debate sobre juros

Waismann classifica o cenário como típico de inflação de custos, impulsionada pelo encarecimento da energia, combustíveis e logística internacional. Nesse caso, a alta de preços não decorre de excesso de demanda, mas de restrições na oferta.

Por isso, ele avalia que um aumento da taxa básica de juros teria efeito limitado sobre a causa do problema. Segundo o economista, juros mais altos são mais eficazes quando a inflação está ligada ao consumo aquecido — o que não caracteriza um choque externo provocado por guerra.

Ele pondera que, se a pressão sobre petróleo e câmbio persistir, o Banco Central pode optar por manter juros elevados por mais tempo para conter efeitos secundários, como o repasse aos preços. Ainda assim, ressalta que elevar ainda mais a taxa poderia desacelerar a atividade econômica sem resolver a origem do encarecimento.

Fonte: CP