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Caso Kiss: engenheiro diz que “só um leigo ou ignorante” usaria espuma para o isolamento acústico

No depoimento desta quinta-feira (2), no segundo dia do julgamento dos quatro réus acusados de serem os responsáveis pela morte de 242 pessoas no incêndio na boate Kiss, em janeiro de 2013, em Santa Maria, o engenheiro civil Miguel Ângelo Teixeira Pedroso, de 72 anos, foi ouvido por quase cinco horas. Ele afirmou ter desaconselhado o proprietário Elissandro Spohr a fazer a reforma do estabelecimento com espuma para o isolamento acústico.

“Só um leigo ou ignorante na área poderia achar que espuma seria conveniente dentro de uma boate”, disse ele, a primeira testemunha de acusação, ao juiz Orlando Faccini Neto.

O material era usado na boate e pegou fogo na noite da tragédia, em 27  janeiro de 2013, dando início a um grande incêndio no interior do local. Além das 242 pessoas que morreram, houve 636 feridos.

Pedroso fez um projeto de isolamento acústico para o estabelecimento, mas acabou não executando a obra. Ele disse que acompanhou oficial do Ministério Público em visita à boate depois de concluída a obra para resolver uma sonora encontrada, em surgimento de março de 2012. “Tudo estava exatamente como previsto.”

Ele criticou a adoção de espuma. “Existe um material acústico que se utiliza para tratamento acústico, um tipo de elastômetro, que é a espuma que não é inflamável. Existe uma marca que a gente usa que tem essa característica, que não é inflamável, que é segura. Outros tipos de espuma podem ser mais inflamáveis”, disse. “Eu soube que tinha espuma no local [boate] quando eu estava no Recife.” Durante o depoimento, Pedroso afirmou também que isopor não é adequado para isolamento acústico. “Esse material é absolutamente ineficiente.”

Vítimas relembram a noite da tragédia

Emanuel de Almeida Pastl e Jéssica Montardo Rosado estavam com os irmãos na Boate Kiss, na noite do incêndio. Enquanto ele estava pela primeira vez no local, comemorando o aniversário com o irmão gêmeo, a jovem, que morava próximo da danceteria, costumava frequentar as festas. E, ao contrário de Emanuel, Jéssica acabou perdendo o irmão, Vinícius, falecido em decorrência dos efeitos da fumaça tóxica. Antes disso, o rapaz ajudou a salvar outras pessoas que estavam lá.

Os dois foram ouvidos na manhã até a metade da tarde desta quinta-feira (2), no segundo dia de julgamento do caso Kiss.

Emanuel de Almeida Pastl

Naquele 27/01/13, Emanuel de Almeida Pastl, hoje com 27 anos, comemorava o aniversário com o irmão gêmeo e amigos na boate Kiss. Ele foi a primeira vítima a ser ouvida nesta manhã.

De acordo com o jovem, onde ele e o grupo de amigos estavam, não visualizavam o palco nem da pista. Quando viram a fumaça subindo, eles começaram a correr. A fumaça e a temperatura aumentaram bastante rapidamente. “Um estado insuportável. As pessoas entraram em pânico”, afirmou. Na correria, ele e o irmão se perderam, seguindo por lados diferentes, mas os dois conseguiram deixar a boate. Como sequela, Emanuel ficou com bronquiolite.

Quando saiu, ele disse que não viu movimentação significativa na frente da boate, inclusive de bombeiros. Chegou a pedir ajuda para pessoas que passavam, mas não foi atendido. Só quando uma viatura da Brigada Militar se aproximou que Emanuel foi levado ao Hospital de Caridade. Logo em seguida começaram a chegar muitas vítimas. Uma das amigas que estavam com ele na festa acabou falecendo.

Emanuel foi transferido para o Hospital da Ulbra, em Canoas, por 10 dias. Ele contou à Promotora de Justiça que acabou conhecendo a sua esposa no hospital, uma vez que ela era quem fazia os seus curativos.

Ao lembrar do ocorrido, Emanuel disse que, quando o incêndio começou, não soou alarme e também não havia luzes indicativas para a rota de saída de emergência. Antes disso, ele falou que a boate estava cheia, inclusive, amigos deles até foram embora da festa, reclamando da lotação, que estava “desconfortável”. Eles chegaram a ir para a pista assistir o show, mas acabaram saindo de lá pela quantidade de pessoas. Emanuel disse que não chegou a ver artefatos pirotécnicos e não sabe se faziam uso desse recurso nas festas.

Jéssica Montardo Rosado

Jéssica Montardo Rosado e o irmão, Vinícius, estavam entre amigos na boate. Ao contrário dela, o jovem não conseguiu se salvar. Seu depoimento durou quase 4 horas e meia.

A jovem contou que foi para a frente do palco assistir o show da Gurizada Fandangueira. Ela disse que viu a hora em que o artefato foi acionado e o fogo começou. Houve uma faísca, os músicos pegaram os extintores, tentaram apagar o fogo com a garrafas de água, mas sem sucesso.

Ela não lembra detalhes do percurso. Quando saiu, olhou para trás: “Me apavorei. Era muita gente saindo”, disse Jéssica, que ligou para a família, preocupada com o irmão. Lembrou que, no desespero, tentou retornar à Kiss várias vezes para tentar encontrá-lo. “Acho que é o instinto de irmão, de amor, de empatia. Eu queria ter feito mais, mas eu não tive força”, lamentou Jéssica, bastante emocionada.

Vinícius, que tinha 26 anos, não resistiu e faleceu no hospital. O jovem ajudou a salvar outras vítimas (cerca de 15 pessoas, estima a irmã). “O meu irmão era a melhor coisa que eu tinha na minha vida”. Ela descreveu a personalidade do irmão: “Vinícius sempre foi solidário. A gente já tinha ajudado a apagar um incêndio na cidade em que morávamos”, conta. “Meu irmão era um gigante solidário. Ele jamais seria o mesmo se tivesse voltado para a casa e não tivesse ajudado ninguém, vendo a magnitude que foi”. Segundo ela, os bombeiros chegaram a pedir que ele não entrasse na boate.

Mais 5 amigos faleceram, além de conhecidos. “Conhecia uma grande parte”. Hoje, ela considera que consegue falar bem sobre o que ocorreu, embora evite lugares fechados e passou a observar as regras de segurança e prevenção. Jéssica informou que não conhece os donos da boate, Elissandro Spohr e Mauro Londero Hoffmann. Os músicos, ela conhecia de vista, menos Danilo (o gaiteiro do grupo, que faleceu), com quem ela conversava. Hoje, a única pessoa que ela encontra é Luciano Bonilha Leão, que segue trabalhando com eventos, mesma área de atuação do pai dela. Ela informou que nunca o viu utilizando artefatos pirotécnicos.

Jéssica lembra que viu Elissandro na rua, tentando retornar para a boate para ajudar as pessoas que ainda estavam lá dentro. Marcelo estava suado e aparentemente em choque.

Ela disse à defesa de Mauro que não tem conhecimento técnico, mas que acredita haver outros responsáveis pelas causas do incêndio na Kiss, que não apenas os 4 réus.

Falou para a defesa de Marcelo que, quando começou o fogo, a situação não parecia tão crítica como realmente acabou sendo. “Não sei explicar como saí, a gente carrega uma culpa por isso. Tudo se encaminhava para a saída.

Jéssica foi questionada pelo advogado de defesa de Elissandro sobre o uso da espuma, bem como seus efeitos e sua regulação. A defesa mostrou fotos em que pessoas aparecem na Kiss posando com garrafas de champanhe com velas saindo faíscas. Ele perguntou se a vítima sabia o contexto em que foi tirada aquela imagem e ela disse que não. Ela respondeu também que nunca tinha visto essa situação na Kiss. Ele apresentou uma maquete virtual da danceteria, fazendo uma série de questionamentos acerca dos ambientes e detalhes que a vítima pudesse informar.

A jovem falou que o pai dela, certa vez, encontrou Luciano e que os dois se abraçaram. Questionada pelo advogado sobre o que os réus são para ela, respondeu: “Seres humanos”.

Ainda nesta quinta-feira será ouvida a vítima Lucas Cauduro Peranzoni.

Nesta sexta (3), está prevista a inquirição das testemunhas de acusação Daniel Rodrigues da Silva e Gianderson Machado da Silva (que pediram nos autos para antecipar os seus depoimentos). E, na parte da tarde, a testemunha Pedrinho Antônio Bortoluzzi (arrolada pela defesa de Marcelo) e a vítima Érico Paulus Garcia.

Fonte: O Sul

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