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Como o MDB tentará levar Gabriel Souza ao segundo turno na disputa ao Piratini

Ante a movimentação de adversários nas últimas semanas, e prestes a realizar o lançamento oficial da chapa majoritária nas eleições estaduais de 2026, o MDB gaúcho está mapeando todos os possíveis pontos críticos da pré-campanha. O foco é afastar qualquer risco de que o pré-candidato do partido ao governo, o vice-governador Gabriel Souza (MDB), não chegue ao segundo turno. A discussão sobre estas questões permeou a reunião da comissão eleitoral da coalizão realizada na segunda-feira, 13.

Após o princípio de crise desencadeado no final de semana pela participação do prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB), no lançamento da pré-candidatura do deputado Luciano Zucco (PL) ao governo, o partido decidiu acelerar a resolução de temas sensíveis. A começar pelo bloqueio do fogo amigo dentro do MDB, considerado uma das causas que hoje atrapalham o crescimento do vice nas sondagens eleitorais.

Apesar das negativas públicas, Gabriel tem dois emedebistas de peso pouco dispostos a abraçar sua campanha: Melo e o deputado federal Alceu Moreira. O afastamento tem origem nas negociações de 2022, quando Moreira acreditou que seria o candidato do partido ao governo e sentiu-se traído pelas articulações de Gabriel pela composição com Eduardo Leite. Melo almejava pavimentar o próprio caminho ao Piratini e também defendia a candidatura própria. Com o prefeito, as mágoas se renovaram em 2024, quando Leite apoiou Juliana Brizola (PDT) e não o emedebista na eleição para a prefeitura. O engajamento direto de Gabriel na campanha foi considerado pouco expressivo pelo entorno de Melo. E este fechou aliança com o PL.

Com Moreira, foi firmado um ‘acordo de cavalheiros’ para 2026, intermediado pelo próprio presidente nacional da legenda, o deputado Baleia Rossi (SP). Moreira não fará críticas públicas ao companheiro de partido. Mas também não vai se dedicar a sua campanha, o que é considerado uma perda importante porque o parlamentar, que preside a Fundação Ulysses Guimarães, é, hoje, apontado como o federal da sigla que deverá fazer a maior votação no RS.

Com Melo, o trabalho será para que pare de fazer gestos em direção a Zucco. O prefeito justificou a presença no ato do PL com argumentos sobre seu papel institucional de chefe do Executivo da maior cidade do Estado, e com a própria base para administrar. Mas passará a ser lembrado de que, em que pese ter quase liquidado a eleição no primeiro turno em 2024, ser hoje uma das lideranças mais populares da sigla no RS, comandar a Capital, presidir a Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP) e ter sido cotado por aliados para concorrer ao governo, não é independente. E, a não ser que tenha planos de trocar de legenda, seus voos futuros precisam do endosso do MDB.

Foi para tentar pacificar vários pontos ao mesmo tempo que lideranças partidárias tentaram, em várias ocasiões, que Melo aceitasse coordenar a campanha de Gabriel. O entendimento no comando da coalizão é que é preciso anunciar logo um coordenador respeitado, com alta capacidade de articulação, e que consiga ser ouvido pelo pré-candidato e administrar lideranças internas.

A definição passa por outras duas questões que precisam ser equacionadas, conforme deputados emedebistas elencam em reservado. O atendimento a uma demanda constante por maior atenção a lideranças locais do partido, e a vinculação a um grupo interno forte.

Afilhado político do ex-ministro Eliseu Padilha, Gabriel teve ascensão rápida dentro do MDB, e construiu seu próprio espaço de liderança. Padilha, por exemplo, seguiu como conselheiro e mentor na campanha de 2022. Mas o ex-ministro faleceu no ano seguinte e, hoje, apesar da dedicação do presidente estadual, deputado Vilmar Zanchin, falta um grupo de conselheiros ligados de fato ao vice dentro da legenda. Seu interlocutor mais próximo é o pré-candidato a vice, o deputado estadual Ernani Polo, que foi do PP para o PSD.

Ator principal

Somam-se a estes fatores as preocupações com a falta de uma mulher na chapa, a necessidade de intensificar a articulação das bancadas, a perda de nomes conhecidos na Câmara Federal, e o papel do governador e do PSD na campanha. Há, no MDB, o entendimento majoritário de que existe uma certa passividade em relação aos movimentos de Leite, que muitas vezes não atendem aos anseios e necessidades dos emedebistas. Parlamentares elencam pelo menos três situações para ilustrar este ponto.

Primeiro, o fato de o partido ter ficado, durante meses, na esperança, e sem saber o que ele faria, de que Leite renunciasse ao cargo. Se não para concorrer à presidente da República, ao Senado, dando peso à chapa majoritária. Mas, frustrado no pleito pela presidência, o governador desistiu de disputar eleições em 2026 e Gabriel não foi alçado ao comando do Estado.

Segundo, que Leite tem atuado como cabo eleitoral importante, e mantido uma agenda de entregas e anúncios do governo nas quais há praticamente sempre a participação do emedebista. Mas, ressalvam apoiadores do vice, o governador, que não vai concorrer, se mantém como o “ator principal”, o que “atrapalha a exposição do Gabriel”.

Terceiro, que com as trocas ainda não finalizadas em 15 secretarias em função das eleições, o chefe do Executivo poderia ter aumentado o peso do MDB no primeiro escalão, o que não aconteceu.

Por fim, o MDB ainda estuda como contornar outras duas questões. Uma delas é o desdobramento da perda de aliados importantes, principalmente o PP, sobre a campanha corpo a corpo pelo Estado, a disponibilização de recursos e o tempo de rádio e TV. A outra é a falta de um candidato forte à presidência da República. Para além do desgosto público externado pelo próprio Leite, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do PSD, também não empolga emedebistas gaúchos, que não escondem o pessimismo em relação a que ele possa, de alguma forma, agregar votos de forma significativa a Gabriel.

Fonte: CP