Disparada do diesel causaria impacto de até R$ 1,47 bilhão ao agro gaúcho
A instabilidade geopolítica no Oriente Médio, que em menos de dois meses impulsionou o barril de petróleo Brent de US$ 70,99 para mais ou menos US$ 100, promove reflexos diretos e indiretos ao agronegócio. De acordo com um estudo técnico da Assessoria Econômica da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), no Estado o preço médio do diesel S10 saltou 21,1% entre o final de fevereiro e o início de abril, para a média de R$ 7,23 por litro.
“O choque, que ocorre em meio à colheita da safra de verão e definição do plantio de inverno, deve gerar um custo adicional direto de R$ 612,2 milhões às operações mecânicas das principais lavouras gaúchas”, adverte a entidade.
“O movimento reflete uma reprecificação estrutural do risco energético global. A tensão envolvendo o Irã e a segurança das rotas no Estreito de Ormuz elevaram prêmios de risco e custos logísticos, consolidando um novo patamar de preços para derivados, explica.
A análise revela que o impacto é diferenciado entre as culturas. O arroz desponta como a atividade mais sensível: o aumento do diesel representa um acréscimo de R$ 185,72 por hectare, o equivalente a uma perda de 2,95 sacas/hectare. “O valor atual do arroz ainda mal remunera o custo operacional. Uma perda de três sacos por hectare pode frustrar expectativas e comprometer o resultado da safra”, aponta o relatório.
Já a soja, embora apresente um impacto individual menor (R$ 48,74/ha ou 0,41 saca/ha), responde pelo maior prejuízo agregado ao estado devido à sua grande área de cultivo: R$ 331,2 milhões. Em um cenário de margens operacionais estreitas e endividamento elevado, a Farsul alerta que a perda de meia saca por hectare pode ser o fiel da balança entre a saúde financeira e a inadimplência.
Diferenças regionais
O levantamento também menciona a disparidade de preços dentro do Rio Grande do Sul. Enquanto Porto Alegre registra o menor valor médio (R$ 7,05/litro), produtores em Bagé enfrentam o diesel a R$ 7,95/litro, uma amplitude de R$ 0,90 que altera drasticamente a pressão de custos conforme a localização.
A preocupação do setor, ressalta a entidade, não se limita ao quadro atual. “Exercícios de sensibilidade da Farsul indicam que, se o diesel se estabilizar em R$ 8,00/litro, o impacto no agronegócio gaúcho subiria para R$ 986,3 milhões”, quantifica.
“No cenário mais pessimista, com o combustível a R$ 9,00, o prejuízo alcançaria R$ 1,47 bilhão, evidenciando elevada elasticidade do custo agropecuário ao preço do combustível e conferindo caráter estratégico ao monitoramento do mercado de combustíveis em um momento decisivo para a colheita da safra de verão e para a definição do plantio de inverno”, complementa.
Contas públicas
A Farsul ainda explica que o estudo é crítico quanto à eficácia de possíveis desonerações fiscais amplas, como as vistas em anos anteriores. Para a entidade, o benefício tende a se diluir por toda a economia, apresentando baixa efetividade para o setor produtivo que já incorporou a alta nos seus custos.
“Além disso, a renúncia fiscal poderia comprometer as contas públicas e dificultar o controle da inflação pelo Banco Central, postergando a queda da taxa Selic e agravando o custo financeiro para o produtor.”
Em síntese, informa, “o diesel deixou de ser apenas um insumo operacional para se tornar um dos principais vetores de risco para o agronegócio em 2026. Enquanto persistirem as questões geopolíticas, a margem do produtor gaúcho continuará operando sob forte pressão”.
Ambiente geopolítico
“O ponto de partida do presente estudo é a deterioração do ambiente geopolítico internacional, que elevou a percepção de risco no mercado de energia e pressionou a cotação do barril de petróleo Brent. Em mercados integrados, choques dessa natureza tendem a repercutir sobre derivados, especialmente o diesel, insumo essencial para transporte, preparo de solo, pulverização, colheita e demais operações mecanizadas”, justifica.
“A pressão recente sobre o petróleo não decorre apenas de uma piora genérica do ambiente internacional, mas de um choque de risco concentrado em uma das áreas mais sensíveis para o abastecimento energético global. A escalada do conflito envolvendo o Irã elevou a percepção de risco sobre a segurança das rotas de exportação de petróleo e derivados no Golfo, especialmente no entorno do Estreito de Ormuz”, complementa.
“Mesmo sem interrupção física total dos fluxos, a simples elevação da probabilidade de incidentes já é suficiente para ampliar prêmios de risco, encarecer seguros marítimos, pressionar fretes e sustentar altas no barril de petróleo.”
Fonte: CP