Em missa para 100 mil pessoas em Angola, Papa Leão XIV faz apelo por “olhar o futuro com esperança”
O papa Leão XIV fez neste domingo (19) um chamado à “esperança” em uma missa campal diante de 100 mil pessoas em Kilamba, a cerca de 30 quilômetros de Luanda, a capital de Angola. Em sua homilia, o pontífice convidou os católicos a “olhar o futuro com esperança” na primeira missa do pontífice no país africano.
“Podemos e queremos construir um país onde as velhas divisões fiquem definitivamente superadas, onde o ódio e a violência desapareçam, onde o flagelo da corrupção seja curado por uma nova cultura de justiça e de partilha”, disse diante de cerca de 100 mil pessoas, segundo o Vaticano, que citou autoridades locais.
Após sua chegada a Angola, a terceira etapa de uma turnê africana de 11 dias, o sumo pontífice criticou os “sofrimentos” e as “catástrofes sociais e ambientais” geradas pela “lógica de exploração” dos recursos do país, rico em petróleo e minerais. Foi uma intervenção que colocou em evidência o estilo mais firme que o papa adotou desde o início de sua turnê, poucos dias depois de ter sido duramente criticado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Uma verdadeira maré humana se reuniu em Kilamba, a cerca de trinta quilômetros de Luanda, para a missa ao ar livre. Muitos dormiram ali mesmo, no chão, vestidos com camisetas com a imagem do papa americano ou exibindo bandeiras amarelas e brancas do Vaticano.
No país, “a riqueza está concentrada nas mãos de uma minoria muito pequena e, é claro, a guerra que conhecemos (1975-2002) não fez mais do que agravar a situação”, declarou o sacerdote angolano Pedro Chingandu, que chegou cedo ao local.
“Precisamos de uma verdadeira democracia, uma redistribuição da riqueza e justiça”, acrescentou. Patricio Musanga, de 32 anos, natural de Kinshasa, usava um boné branco com a imagem de Leão XIV na cabeça e esperava “uma mensagem de esperança para a juventude”, mas também de “reconciliação nacional”, “paz” e “interculturalidade”.
Para este congolês naturalizado angolano, que vive em Luanda há 10 anos, tal mensagem “pode servir realmente para toda a África, porque praticamente em todos os países os problemas são os mesmos”, começando pela “falta de emprego” entre os jovens.
Depois de João Paulo II (1978-2005) em 1992 e Bento XVI (2005-2013) em 2009, Leão XIV é o terceiro pontífice a visitar este país, antiga colônia portuguesa, independente desde 1975. Cerca de um terço da população angolana vive abaixo do limiar internacional de pobreza, fixado em 2,15 dólares diários, segundo o Banco Mundial.
“O papa vem a Angola plenamente consciente da realidade que nosso país enfrenta, em particular no que diz respeito às profundas assimetrias sociais e desigualdades, que também derivam de uma distribuição desigual da riqueza”, afirmou das Neves.
Angola foi palco, em julho de 2025, de três dias de manifestações, acompanhadas de saques, contra o alto custo de vida. Cerca de trinta pessoas morreram e centenas foram detidas, e as organizações de direitos humanos denunciaram o uso desproporcional da força por parte das autoridades. Segundo analistas, esses distúrbios refletem o descontentamento em relação ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), no poder desde a independência de Portugal em 1975. O MPLA venceu as últimas eleições, em 2022, com 51% dos votos. Os próximos pleitos estão previstos para 2027.
Fonte: O Sul