Entenda os riscos da superbactéria encontrada em ambiente natural do Guaíba
A superbactéria Acinetobacter baumannii foi localizada em quatro pontos do Guaíba – nas praia do Lami e de Ipanema, e no Guaíba, próximo à foz do arroio Dilúvio e próximo à EBAP Menino Deus – por meio do projeto ClimaRes WaSH (CW), do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS). As 17 análises realizadas em Porto Alegre foram coletadas em ambiente aquático natural, não na água tratada e distribuída pelo Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae). A presença da mesma bactéria também determinou o fechamento da UTI do Hospital Fêmina no final de abril, após a morte de um bebê prematuro.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou, em 2024, a Acinetobacter baumannii como uma das bactérias mais perigosas do mundo. De acordo com especialistas, apesar dela ter sido encontrada em pontos de água natural, os riscos à população saudável são mínimos, e dependem do tamanho da exposição. Entenda o que é a bactéria, como ela é transmitida e os riscos para a população.
O que é a Acinetobacter baumannii
Acinetobacter baumannii é um bacilo gram-negativo, chamado de ubiquitário. Isso significa que ela pode ser encontrada em diferentes ambientes, como na água, no solo e na vegetação, e também tem maior capacidade de sobrevivência nesses locais.
Ela é também considerada um patógeno oportunista. “Só causa infecção em pacientes imunocomprometidos e debilitados, que estão com uma condição de saúde muito deficiente e grave. Essa bactéria se aproveita dessa situação e acaba causando a infecção”, explica Andreza Francisco Martins, professora do Departamento de Microbiologia da UFRGS. Por isso, os pacientes que podem ser mais afetados são os que estão dentro do ambiente hospitalar. “A gente está rompendo as barreiras naturais do paciente e facilitando a entrada de uma bactéria e o desenvolvimento de uma infecção”, complementa a pesquisadora. Porém, fora do ambiente hospitalar, os relatos na literatura de infecção em pessoas hígidas e saudáveis são raros.
As infecções ocorrem, principalmente, no trato respiratório, como o desenvolvimento de uma pneumonia associada à ventilação mecânica, infecção urinária, infecção de sítio cirúrgico, infecção de corrente sanguínea, entre outras.
Sobre a descoberta
O estudo envolve uma amostragem de água em pontos considerados “de interesse” para avaliar a qualidade da água na região Metropolitana, especialmente no Guaíba, na Capital. “A gente busca, a partir da qualidade da água, compreender qual é o nível de poluição e possíveis contaminações que a gente está suscetível, para vislumbrar quais seriam as infraestruturas hídricas e sanitárias mais adequadas”, explica Fernando Magalhães, professor na área de Saneamento Ambiental no Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) e coordenador do projeto ClimaRes WaSH.
Criado após a enchente, o projeto buscava inicialmente monitorar a qualidade da água. Depois, foi ampliado para uma iniciativa de resiliência climática, voltada ao setor de abastecimento de água, esgotamento sanitário e higiene, em contexto de saúde única, para pensar em ações a nível de bacia hidrográfica. Dentro desse objetivo, está, também, propor políticas públicas diante dos diagnósticos.
Em tese, o objetivo do projeto é monitorar a qualidade da água olhando além dos parâmetros convencionais, como materiais sólidos, matéria orgânica, nutrientes e patógenos, além da parte do monitoramento das bactérias e seus genes de resistência microbiana, além da virologia e da toxicologia para, com isso, entender melhor o risco que a população está para diferentes usos dessa água, seja para abastecimento, para balneabilidade ou recreação.
Riscos para a população
O professor ressalta que os riscos para a população são só em casos de exposição ou consumo de água que não foi tratada. Ele lembra que a água potável, recomendada para consumo, passou pelo processo de potabilização, eliminando, assim, o risco associado a uma contaminação por esse tipo de bactéria. Ele recomenda que a população tenha cuidados com a manutenção da limpeza dos reservatórios internos, e não use fontes alternativas de água, que podem estar contaminadas, como em áreas impróprias para banho e em águas não tratadas. “Se as pessoas tiverem esse contato, o risco é maior, porque não é uma água que passou por processo de tratamento, não é potável”, lembra.
O mesmo afirma a professora da UFRGS. “A população pode ficar bem tranquila que os riscos são mínimos, praticamente nulos. Essa bactéria não está presente na água que chega na casa das pessoas”, diz. O cuidado é necessário em ambientes de esgoto. Porém, ressalta a pesquisadora, ainda que haja exposição, o risco de desenvolver uma infecção pela superbactéria é extremamente baixo. “Nesses lugares, tem muitas outras bactérias e microorganismos, que podem ser até muito mais preocupantes, e podem trazer um risco muito maior para a população do que essa própria bactéria”, acrescenta.
Presença pode ter relação com bactéria encontrada em hospital
Magalhães aponta que a bactéria encontrada em pontos do Guaíba pode ter relação com a encontrada na UTI do Hospital Fêmina, considerando a proximidade dos pontos identificados. “Possivelmente, sim, há uma relação onde naquele ponto teve esgoto com essa bactéria, e a gente fazendo a análise consegue identificar isso. Por isso, a importância da vigilância dos afluentes dos esgotos, pensando no conceito de saúde única para entender os riscos de contaminação com seres humanos e animais, e o próprio ambiente em si”, explica o professor. A possibilidade é de que a água tenha chegado no local de maneira inadequada, com extravasamentos de esgoto, que não foi tratada, e levou à infecção.
Deficiências na infraestrutura sanitária
O professor do IPH reflete que os achados do projeto revelam as deficiências presentes na infraestrutura sanitária do Estado. “Não é totalmente deficiente, mas ela apresenta deficiências onde esse tipo de indicador de contaminação acaba aparecendo e, em tese, não deveria. É óbvio que nós temos várias bactérias e vírus no ambiente, mas encontramos bactérias que são multi-resistentes. E não temos ainda antimicrobianos, e isso revela atenção”.
Ele complementa que o resultado do estudo pode servir para as autoridades competentes tomarem decisões, seja para afirmar que o risco é pequeno e não demanda algum tipo de ação, seja para apontar ações necessárias.
Próximos passos
Os próximos passos do projeto envolvem a continuidade do monitoramento, para ver se a presença é constante ou é apenas um pico ou uma situação esporádica. Também, para verificar se a contaminação está presente em apenas um local específico, sendo necessária atenção naquela região. “A gente segue agora com ações e desenvolvimento de projetos e pesquisas para, também, melhorar os processos de tratamento de esgotos e água, que removam essas bactérias resistentes, ou genes de resistência. Também, monitorando a questão da toxicidade e, eventualmente, eliminando o vírus, ou atenuando os riscos associados”, diz Magalhães.
O estudo também é ampliado para verificar quais ações podem ser trabalhadas a nível de bacia hidrográfica, por meio da preservação ambiental. “A partir das soluções, testes e modelagens, a gente avançar para diretrizes e políticas públicas, para retornar isso à sociedade, que as autoridades tomadoras de decisões possam utilizar essas informações para desenvolver as políticas”.
Dmae começa nova rodada de análise da balneabilidade do Guaíba
O Dmae iniciou, nesta terça-feira, uma nova rodada de análises da água do Guaíba para fins de balneabilidade. Durante a alta temporada, são analisados seis pontos (três no bairro Belém Novo e três no Lami). Desta vez, equipes atuarão em dois pontos, sendo um em cada bairro. Membros da comunidade científica consultados pelo Dmae não estabelecem relação entre esse microrganismo e os parâmetros definidos em lei para avaliação das condições de balneabilidade.
Fonte: CP