Pesquisa alerta para saúde mental de adolescentes
A preocupação com a saúde mental dos estudantes e com a violência dentro da escola recebeu mais um sinal de alerta em função da divulgação dos resultados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe) de 2024, promovida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Divulgado no final de março, o estudo técnico contou com a participação de cerca de 120 mil estudantes, de 13 a 17 anos, de mais de 4,1 mil escolas públicas e privadas de todo o Brasil.
Os alunos questionados estudam nas turmas do 7º ao 9º ano do ensino fundamental e do 1º ao 3º ano do ensino médio. Apenas no RS, foram entrevistados 3,7 mil estudantes de 153 instituições de ensino. De acordo com o IBGE, o levantamento serve para auxiliar governos e a sociedade na construção de políticas que permitam fomentar um ambiente escolar seguro e saudável.
Entre os dados mais alarmantes estão os relacionados com a saúde mental dos estudantes, a relação deles e de suas famílias com os estudos e também a violência dentro da escola, principalmente relacionada com o bullying. Dentro da temática da saúde mental, o IBGE questionou alunos sobre o “sentimento de tristeza” por ser um indicador para investigação de casos de depressão. Cerca de três a cada dez estudantes (28,9%) responderam se sentirem tristes na maioria das vezes ou sempre.
Considerando o sexo dos estudantes, o maior percentual foi observado em meninas, com 41% das alunas entre 13 e 17 anos respondendo se sentirem tristes. Nos meninos, o número cai para menos da metade, com apenas 16,7% dos alunos relatando a situação. A região Norte do Brasil registrou o maior percentual, com 30,1% dos estudantes. Já os menores índices estão nas regiões Sul e Sudeste, com 28,3% e 28,2%, respectivamente.
Considerando apenas a região Sul do país, o Rio Grande do Sul possui o menor índice de estudantes que responderam se sentirem tristes, com 27,3% contra 28,7% do Paraná e 28,8% em Santa Catarina. Apesar disso, o cenário é contrastante nas capitais, com Porto Alegre liderando na região com 29%, seguida de Curitiba com 27,6% e Florianópolis com 26%.
Assim como no país, o percentual mais do que dobra quando considerado apenas o sexo dos estudantes, com apenas 13,8% dos meninos do RS respondendo se sentirem tristes contra 40,1% das meninas. Em Porto Alegre, a diferença é um pouco menor, com 18,3% dos meninos e 39,6% das meninas.
Outro dado que chama a atenção é que cerca de 15,1% dos estudantes no RS afirmaram sentir que a vida não valia a pena ser vivida, sendo 19,4% das meninas e 10,6% dos meninos. Mesmo assim, o resultado é o menor entre os estados do Brasil. Nacionalmente, o índice foi de 18,5% dos adolescentes afirmando terem perdido a vontade de viver, sendo 25% meninas e 12% meninos.
Considerando apenas as três capitais do Sul do Brasil, Curitiba possui o maior índice de estudantes que responderam não sentir que a vida valia a pena ser vivida (18,4%), seguida de Porto Alegre (17%) e Florianópolis (16%). Entretanto, chama a atenção que a capital gaúcha lidere entre os estudantes homens que afirmaram ter perdido a vontade de viver, com 12,9% (Curitiba tem 11,3% e Florianópolis 9,9%), mas fica em último lugar na região Sul entre as meninas que apontaram estar na mesma situação, com 21,1% (Curitiba com 25,5% e Florianópolis 22,1%).
Dados registrados no RS elencam que quase um terço dos estudantes (32%) afirmaram ter sentido vontade de se machucar de propósito nos 12 meses anteriores à pesquisa. Por sexo, 19% dos meninos responderam afirmativamente a esse questionamento, número menor que a metade das respostas entre as estudantes meninas, com índice de 44,3%. Para a professora da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS, Joice Dickel Segabinazi, a literatura na área explica que meninas possuem maior vulnerabilidade a esse tipo de sofrimento durante a adolescência.
“Em relação a questões sociais, é preciso reconhecer que a adolescência feminina é marcada por exigências relacionadas à aparência, ao desempenho acadêmico e à qualidade das relações interpessoais. Estudos recentes destacam que a internalização de ideais socioculturais de beleza e sucesso está fortemente associada à insatisfação corporal e à baixa autoestima, fatores que, por sua vez, aumentam o risco de sintomas depressivos, por exemplo”, considerou a pesquisadora.
Joice também relaciona a influência da tecnologia e de redes sociais, principalmente as centradas na imagem e na validação social, nos resultados obtidos pela pesquisa com a saúde mental dos jovens. “É necessário considerar que os adolescentes contemporâneos crescem em um ambiente marcado por hiperconectividade, excesso de estímulos e pressões constantes por desempenho e visibilidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde mental dos jovens é fortemente influenciada por determinantes sociais, sendo a exposição a estressores crônicos um fator central para o desenvolvimento de sofrimento psíquico”, completou.
A pesquisadora cita que, neste tema, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que entrou em vigor em 17 de março de 2026, ajudou ao atualizar a proteção de crianças e adolescentes frente aos novos desafios impostos pelo avanço das tecnologias e o ambiente digital. “A nova legislação estabelece que a proteção da criança no ambiente digital é uma responsabilidade compartilhada e um dever dividido entre família, sociedade, Estado e plataformas, reforçando o princípio do melhor interesse da criança e do adolescente no ambiente on-line”, salientou.
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar também levantou dados sobre comportamento e percepção dos jovens sobre o bullying | Foto: Mauro Schaefer
O desenvolvimento dos jovens e os impactos na escola
A professora da PUCRS explica ainda que a adolescência é uma fase crítica no desenvolvimento humano, sendo um período caracterizado por intensas transformações físicas, cognitivas e emocionais. Desta forma, ela alerta que estados persistentes de tristeza e desmotivação podem impactar no desenvolvimento destes jovens, principalmente no comprometimento de funções cognitivas como atenção, memória e de funcionamento executivo.
Segundo Joice, são habilidades que permitem ao adolescente regular pensamentos, emoções e ações, sendo fundamentais para lidar com demandas acadêmicas e sociais vivenciadas nesta etapa da vida. “Evidências empíricas indicam que sintomas depressivos estão associados a prejuízos nas principais funções executivas, a saber, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e controle inibitório, o que poderia impactar negativamente no desempenho acadêmico e no engajamento escolar, podendo levar a trajetórias escolares marcadas por baixo rendimento e evasão”, alertou.
A professora aponta que, com relação à emoção, os sentimentos de desesperança podem aumentar significativamente o risco de desenvolvimento de transtornos depressivos e de ansiedade. A presença desses sintomas está associada à recorrência de episódios ao longo da vida, refletindo em prejuízos para a pessoa, tanto nas relações interpessoais como na inserção de uma ocupação futura.
Ela cita ainda que, do ponto de vista social, o sofrimento leva o adolescente ao isolamento, reduzindo a quantidade e qualidade das relações interpessoais, comprometendo a construção de vínculos. “O suporte social atua como um dos principais fatores de proteção na adolescência, enquanto a solidão e a percepção de rejeição estão fortemente associadas a desfechos negativos em saúde mental. Esse processo pode gerar um ciclo no qual o isolamento intensifica o sofrimento, que, por sua vez, aprofunda o afastamento social”, complementou.
A pesquisadora reforça que existem ainda impactos relevantes no desenvolvimento neurobiológico que estão relacionados com a saúde mental na adolescência, por conta das mudanças que ocorrem em estruturas cerebrais, como o córtex pré-frontal e o sistema límbico, durante esse período da vida. Ela salienta que a exposição prolongada ao estresse e à tristeza durante a adolescência pode afetar processos relacionados com a maturidade e, em casos mais graves, causar comportamentos de risco, como automutilação, uso de substâncias e ideação suicida.
“Os efeitos dessa tristeza não se restringem ao presente, podendo influenciar trajetórias futuras em diferentes dimensões da vida, incluindo saúde mental, desempenho acadêmico, inserção social e laboral, além da percepção da qualidade de vida. Esses achados reforçam a importância de estratégias de prevenção e intervenção baseadas em evidências, especialmente em contextos escolares e comunitários, onde é possível identificar precocemente sinais de sofrimento e promover fatores de proteção.”
‘Sofrimento não é fenômeno novo’
A pesquisadora cita que o sofrimento psíquico e as preocupações com a saúde mental não são um fenômeno que afeta apenas as novas gerações. Joice explica que, ao longo da história, a adolescência sempre foi reconhecida como um período de desenvolvimento, transformações, conflitos identitários e também de instabilidade emocional. Apesar disso, ela alerta que, mesmo que sempre presentes, a frequência, intensidade e visibilidade social dessas experiências vêm se modificando nas últimas décadas. “Um primeiro elemento a ser considerado refere-se ao avanço na produção de dados epidemiológicos e à redução progressiva do estigma associado à saúde mental. Pesquisas de base populacional, como a PeNSE, ampliam a visibilidade dessas experiências, permitindo identificar padrões que anteriormente permaneciam subnotificados. Entretanto, a literatura recente indica que não se trata apenas de maior visibilidade.”
Para ela, o crescimento de casos relacionados com a saúde mental na adolescência também está relacionado com as transformações sociais e a ampliação das relações através do meio digital, assim como a intensificação das desigualdades sociais e aumento de exigências por desempenho acadêmico e social. “A expansão do ambiente digital, em particular, introduziu novas dinâmicas de interação e comparação social. Nesse contexto, a experiência subjetiva de sofrimento pode ser tanto intensificada quanto mais frequentemente relatada”, disse.
A professora da PUCRS destaca que, em vista disto, a escola se torna um espaço privilegiado para o desenvolvimento saudável. Para isso, no entanto, é necessário realizar pesquisas relacionadas à identificação dos motivos relacionados à satisfação desses adolescentes com a escola. “Compreender a baixa satisfação com a escola é fundamental para uma leitura mais ampla do sofrimento psíquico juvenil, na medida em que articula dimensões subjetivas de bem-estar com contextos institucionais.”
A adolescência é um período de desenvolvimento, conflitos identitários e instabilidade emocional | Foto: Mauro Schaefer
Desafios par educadores
Joice entende ainda que o aumento de relatos de sofrimento psíquico entre estudantes impõe desafios complexos e crescentes para educadores. Um dos principais, para ela, está justamente em identificar precocemente esses sinais de sofrimento. Outro desafio está no manejo adequado de situações que ocorrem no ambiente escolar por parte dos educadores, para as quais nem sempre receberam formação específica. “Manifestações como desatenção, irritabilidade, retraimento social ou queda no rendimento escolar são frequentemente interpretadas como desinteresse ou indisciplina, o que pode invisibilizar demandas emocionais legítimas. A literatura em Psicologia Escolar brasileira tem enfatizado a necessidade de uma leitura contextualizada dessas manifestações, compreendendo o estudante em sua totalidade e inserção social”, contou.
Desta forma, a professora da PUCRS ressalta que é fundamental delimitar o papel da escola no desenvolvimento do adolescente, evitando tanto a omissão quanto a sobrecarga indevida. “Em muitos contextos, a instituição escolar passa a assumir funções que deveriam ser compartilhadas com outras políticas públicas, como saúde e assistência social. A escola deve atuar como um espaço privilegiado de promoção de saúde mental, por meio da construção de ambientes seguros, acolhedores e inclusivos. No entanto, é importante ressaltar que ela não deve substituir o cuidado clínico”, falou.
Por isso, Joice destaca que o enfrentamento desses desafios exige uma abordagem intersetorial que envolva educação, saúde e assistência social, com a inclusão de serviços de psicologia e serviço social nas escolas. “A inserção de psicólogos e assistentes sociais nas escolas amplia as possibilidades de atuação. Esses profissionais podem atuar na mediação de conflitos, no apoio às equipes pedagógicas, na articulação com famílias e na promoção de ações preventivas voltadas à saúde mental, à inclusão e ao enfrentamento de violências e desigualdades”, concluiu.
Levantamento alerta para violência sexual, bullying e consumo de álcool
Outros dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2024 do IBGE alertam para a violência, seja dentro da escola ou mesmo na vida pessoal dos estudantes. No Rio Grande do Sul, 20,4% dos estudantes entrevistados informaram que, alguma vez na vida, foram tocados, manipulados, beijados ou passaram por situações de exposição de partes do corpo contra a sua vontade.
Os casos são mais frequentes entre meninas (31,6%). O índice é quase quatro vezes maior do que o observado em meninos (8,6%). Além disso, considerando apenas as estudantes meninas, o RS teve a segunda maior proporção de relatos no país, ficando atrás somente do Amapá, onde 35,7% das alunas afirmaram ter sofrido com violência sexual. Já entre os estudantes meninos, o RS teve o segundo menor índice do Brasil, acima apenas de Santa Catarina, com 7,9%.
Já no quesito consumo de álcool entre adolescentes, o Rio Grande do Sul lidera os indicadores no país, com 65,9% dos alunos respondendo que já tomaram uma dose de bebida alcoólica. Além disso, 33,2% afirmaram ter consumido a primeira dose com menos de 14 anos. Entre as meninas, 73,1% já haviam experimentado bebida alcoólica, sendo 38,2% antes dos 14 anos. Já entre os meninos, os números foram menores, de 58,2% para consumo de bebida alcoólica e 27,9% para antes dos 14 anos.
A pesquisa aponta ainda que 21,1% dos estudantes do RS afirmaram já ter fumado cigarro alguma vez na vida. O número apresentou uma redução se comparado com a mesma pesquisa realizada em 2019, quando o índice chegou a 25,6%. Em contrapartida, a experimentação de cigarro eletrônico (vape) saltou de 14,7% em 2019 para 29,6% em 2024. Com relação ao consumo de droga ilícita, 11,4% dos estudantes gaúchos afirmaram já terem feito uso em algum momento da vida. O estado é o segundo do país na frequência de experimentação de drogas ilícitas, ficando atrás apenas do Distrito Federal, com 12,2%.
Outro dado que chama a atenção é que um a cada quatro estudantes do RS (24,5%) afirma que já se sentiu humilhado pelos colegas. O percentual é maior entre meninas (27,3%) do que entre os meninos (21,6%). As vítimas de bullying relataram que as causas mais frequentes estão relacionadas com a aparência do rosto ou cabelo (31,9%), do corpo (22,1%) e roupas, sapatos, mochilas ou material escolar (9,7%). Além disso, 26% disseram não saber o motivo para a prática.
Conforme o governo do Estado, por meio da Secretaria Estadual da Educação (Seduc), o enfrentamento ao bullying e ao cyberbullying na rede estadual de ensino ocorre de forma contínua por meio do Núcleo de Cuidado e Bem-Estar Escolar. A pasta salienta ainda que o combate à violência escolar passa pela construção de uma cultura baseada no respeito, na empatia, no diálogo, na convivência e na prevenção de conflitos, justamente o objetivo da atuação do núcleo.
A iniciativa da Seduc parte da compreensão de que o cuidado é uma responsabilidade compartilhada entre escola, Coordenadorias Regionais de Educação, órgão central, famílias e rede intersetorial de políticas públicas. Criado em 2023, o núcleo desenvolve estratégias para qualificar o clima escolar e apoiar as instituições de ensino na construção de relações mais saudáveis. Atualmente, a rede conta com cerca de 2 mil comissões ativas. Desde que foi criado, foram registradas mais de 6 mil ações de prevenção.
A professora da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS, Joice Dickel Segabinazi, reforça ainda que os dados da pesquisa evidenciam que os casos de bullying não se tratam de eventos isolados, mas de experiências contínuas de violência interpessoal. Apesar disso, cita como preocupante que as meninas apareçam entre as principais vítimas, com maior frequência de relatos de humilhação e exposição a formas de violência relacional.
“O bullying, especialmente quando crônico, está associado a uma série de desfechos negativos, incluindo sintomas depressivos, ansiedade, baixa autoestima e ideação suicida. Além disso, pesquisas indicam que impacta diretamente o sentimento de pertencimento escolar, central para o engajamento acadêmico. Por fim, o enfrentamento do bullying exige uma abordagem intersetorial. Trata-se de uma responsabilidade compartilhada, que envolve famílias, políticas públicas e a organização social”, finalizou.
Fonte: CP